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Correio Braziliense

As instituições de ensino de se consolidam na formação de artistas teatrais

Apesar do destaque, as dificuldades permanecem


postado em 23/06/2019 18:50 / atualizado em 23/06/2019 19:05

Naiara Lira: ela quer colocar no palco questões ligadas ao feminismo negro(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 24/3/14)
Naiara Lira: ela quer colocar no palco questões ligadas ao feminismo negro (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 24/3/14)


Criar, experimentar, botar em prática. Sai o medo de errar e entra a vontade de fazer o novo e o diferente. Por isso, o teatro universitário vem cresce e se destaca no Distrito Federal. O palco se torna a sala de aula — e vice-versa — para os estudantes da Universidade de Brasília (UnB), do Centro Universitário Iesb e da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (FADM) renovarem a cena cultural da cidade.

“Ter vivência de palco é muito importante. Um ator sem essa experiência talvez não consiga apresentar no futuro”, explica o aluno de teatro do Iesb Cláudio Gabriel. Ele acredita que o teatro universitário reinventa o que já existe ao “usar o que está sendo feito e adaptar para a realidade”.

O estudante de artes cênicas da FADM Andy Souza concorda e vai além. “A faculdade, além de te dar consciência como artista, te dá como multiplicador”, analisa ele,   que acha importante repassar o conhecimento adquirido em sala de aula. Além disso, entende que o teatro universitário serve para romper barreiras.

“Acho que o teatro universitário tem mais liberdade de errar, de experimentar. É isso que faz a gente avançar”, analisa o professor emérito da UnB João Antônio de Lima Esteves. Além disso, o professor acredita no poder de criação dos estudantes. Para ele, os alunos até reproduzem o que é realizado no mercado de trabalho teatral, mas a experimentação os ajuda a inovar. “O teatro que já foi feito é a base do que está sendo feito agora”, pontua.



“A diferença do curso universitário para o técnico ou o (artista) autodidata é que a universidade proporciona experimentação de estética e de linguagem” defende o docente de teatro do Iesb Denis Camargo, que não descarta a importância da graduação para abrir os horizontes profissionais. “Se eu não tivesse realizado esse curso, eu seria outro artista, mais limitado”, afirma o doutor em artes cênicas pela UnB, referindo-se à graduação na universidade.

“A arte tem uma proximidade muito grande (com as pessoas) e nos faz entrar em lugares que a gente não entraria de outra forma”, declara a diretora Naiara Lira. Com o teatro, não teria como ser diferente. Naiara quer apresentar ao público a vivência e o feminismo negro a partir da peça A empregada das sufragistas. Realizado por estudantes de artes cênicas da UnB, o espetáculo tem previsão de estreia para julho.

São três mulheres: uma vive no oeste africano no século 16; a segunda, nos Estados Unidos no século 19; e a última, no Brasil atual. “Elas se encontram e conversam sobre questões que perpassam o tempo e o espaço (em relação às mulheres negras), como a afetividade”, narra a diretora.

As instituições de ensino realizam festivais para levar ao público as peças que são montadas em sala de aula. Na UnB, o Cometa Cenas ocorre semestralmente. A FADM também tem a Mostra Dulcina. O Iesb realiza até 30 de junho a 12ª Iesb em cena. “É um prazer devolver para a sociedade o que está sendo produzido”, afirma o professor de artes cênicas da FADM Tullio Guimarães.

Apesar do destaque, as dificuldades permanecem. “Não está fácil (fazer teatro em Brasília). As pessoas não vão”, lamenta Naiara, que também é cantora e, agora, cursa artes cênicas na UnB. Cláudio avalia que o teatro universitário está ganhando mais público e começando a crescer novamente na cidade. O estudante cita o Iesb em cena como exemplo. Para ele, as apresentações deste ano se encontram lotadas em comparação a 2017, que teve movimento mais fraco.

A formação não se limita a atores. De Brasília, também saem dramaturgos, diretores, cenógrafos, maquiadores e muito mais. Tullio avalia que a cidade tem uma  movimentação cultural intensa, além de ser responsável por revelar novos talentos e exportar artistas para o eixo Rio-São Paulo, por exemplo. Para ele, o público brasiliense só tem a se enriquecer “com a variedade de grupos de teatro e de pesquisa (proporcionada pelos cursos de graduação)”.

Para o professor Denis Camargo, o teatro universitário vai “além do que se vê”. Na visão dele, essa arte reverbera aos poucos e está formando público próprio a longo prazo. “Brasília, de certa forma, se tornou mais poderosa nesse quesito”, concorda Tullio. “Brasília tem identidade própria, de um teatro feito aqui”, finaliza.

* Estagiária sob supervisão de Severino Francisco. 


Caminhos do teatro brasiliense


O teatro universitário de Brasília não nasceu agora. É caso de amor antigo na cidade. Quem faz questão de contá-la é o professor emérito da UnB João Antônio de Lima Esteves. Um dos maiores nomes dessa arte em Brasília, ele chegou à cidade em 1971, fundou a primeira escola de teatro do DF — Ensaio, Teatro e Dança — e o Departamento de Artes Cênicas (CEN) da UnB.

Já Tullio Guimarães dá aulas na FADM desde 1994 e destaca a relevância da instituição para o teatro universitário. A atriz Dulcina de Moraes chegou ao Distrito Federal na década de 1970 e, para Tullio, foi responsável por “dignificar a profissão (de ator no Brasil)”. Antes dela, o teatro universitário brasiliense era mais amador. Com a vinda da faculdade para cidade, essa arte passou a adquirir tradição e profissionalismo.

O ator, diretor e docente destaca a importância do estudo e das escolas de teatro brasilienses. “Há muitos anos, não há trabalho artístico que não tenha alunos nossos”, orgulha. Ele cita como exemplo o ator Juliano Cazarré, da Rede Globo, que se formou na UnB. “O teatro universitário faz cada vez mais parte da construção do teatro de Brasília”, finaliza 
João Antônio.
 
 
 

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