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Correio Braziliense

Caco Galhardo lança 'Cinco mil anos - e quase todas as tiras'

São 22 anos de tirinhas reunidos em blocos dedicados aos personagens, criaturas clássicas das HQs brasileiras, como Chico Bacon e os Pescoçudos


postado em 24/06/2019 07:00 / atualizado em 23/06/2019 19:22

(foto: Quadrinhos na Cia/Divulgação)
(foto: Quadrinhos na Cia/Divulgação)

Quando olha para todos os personagens dispostos, uns após os outros, nas tirinhas compiladas em Cinco mil anos, Caco Galhardo até acha que envelheceram bem. Alguns, como o Pônei, foram saindo de cena porque ele se cansou de desenhar. Outros, caso de Lili, a ex, passaram por modificações porque o cartunista não queria se desfazer do personagem. Mas, no geral, eles não ficaram datados e Cinco mil anos ajuda a dar uma noção do quão produtivo é Galhardo quando resolve mergulhar no que há de mais patético do comportamento humano. Os personagens representam o que Reinaldo Moraes, no prefácio, chama de “lado B da alma humana”.

São 22 anos de tirinhas reunidos em blocos dedicados aos personagens, criaturas clássicas das HQs brasileiras, como Chico Bacon e os Pescoçudos. Bastante organizado, o livro não chega a ser cronológico, embora ajude a mostrar como as ideias do cartunista emendam umas nas outras. “A gente fez uma edição não cronológica e a gente queria que fosse meio bagunçado. Mas ficou organizado. Foi indo por personagem, pontuando as tiras. O principal dos meus personagens está lá”, avisa. Às vezes, os personagens se misturam, se encontram, se esbarram e até interferem na tirinha alheia. Faz parte. É preciso essa conversa para estimular o nascimento das piadas.

Logo depois de acertar os detalhes do livro com o editor Emilio Fraia, Galhardo pré-selecionou as tiras pensando em uma edição não cronológica. Fraia ficou responsável pelo resultado final. “Tinha muita coisa e não foi fácil”, conta o cartunista. “Acho que sou meio relapso com minha própria carreira e, de repente, deixei esse gap tão longo sem lançar uma coletânea, um trabalho com as tiras que coloco ali, todo dia, no jornal. Eu tinha essa ideia e rolou”.

As tirinhas representam boa parte do trabalho de Galhardo, mas não todo. Ele foi roteirista da série Lili, a ex, adaptação de suas próprias tirinhas para uma série da GNT e, em 2018, fez o roteiro de Mulheres alteradas, adaptado dos quadrinhos de mesmo nome, assinados por Maitena. Há poucos dias, entregou o roteiro de Vale night, a ser rodado pela produtora Querosene ainda este ano.

Agora, ele voltou a desenhar e trabalha em uma “longa” HQ sobre um ornitólogo que se apaixona por uma rainha de bateria. Também continua investindo em roteiros e, sobretudo, em teatro. “Tenho uma relação forte com teatro, tenho um tesão por teatro e estou escrevendo uma peça nova”, avisa. Em entrevista, Caco Galhardo fala sobre como é trabalhar com humor em tempos de discussões sobre democracia, feminismo e racismo.

» ENTREVISTA / Caco Galhardo

São 22 anos de tirinhas, muita coisa aconteceu no país nesse período. Que personagens você acha que 
envelheceram melhor?
O cara que faz tira no Brasil tem muita liberdade para trabalhar. A gente mata personagens, começa a fazer uma coisa, desiste, faz outra. Nos Estados Unidos, se você criou o gato, é o gato a vida inteira. Aqui, não. Comecei com os Pescoçudos, entrei na Folha (de S. Paulo) com isso, e, uma hora, me enchi de fazer Pescoçudos e comecei a trabalhar personagens como Chico Bacon, Pequeno Pônei, Lili. Depois fui misturando tudo e continuo trabalhando com eles. Tem personagens que larguei, como o Pônei. A Lili mesmo, que tinha uma piada com essa coisa de ser a ex obcecada, deixou de ser obcecada.

Pescoçudos retrata a vida numa grande metrópole...
Com Pescoçudos, eu fazia uma crítica a nós mesmos, neuróticos de grandes cidades, e uma hora pensei: “Chega de fazer tanta crítica, queria me divertir mais nas tiras”. E inventei Chico Bacon, um personagem sem superego que podia fazer tudo que quisesse. Para mim, foi uma libertação trabalhar com esse personagem. Com o tempo, essa coisa da liberdade hoje não se encaixa tanto, porque no começo, ele tem traços um pouco machistas. Com o tempo, ele entra numa espécie de crise com essa história. Então tem uma atualização dos personagens.

Como você lida com essas mudanças para adaptar os personagens aos tempos atuais? 
Isso existe no meu trabalho. Faço as coisas que me dão na cabeça e essas questões vão aparecendo, existe uma reflexão sobre isso. De fato, tem coisas que são legais incorporar no trabalho. E outras, não. Você pega, por exemplo, um trabalho do Crumb: tem coisas ali que você fala “meu Deus, isso não pode, muito politicamente incorreto”. Foi a produção de uma época em que o legal era você se aprofundar nas suas merdas, no seu lado mais sombrio, com toda a liberdade. Hoje isso não é mais legal, você tem que dosar esse mergulho. Para mim funciona, porque continuo fazendo a reflexão. Essa tarefa de tira diária é meio um trabalho de crônica, você reflete o mundo à sua volta, o comportamento ridículo do ser humano. Você faz um caldeirão de tudo e vai tirando ingredientes e incorporando outros.

Você se sente tolhido?
Não, em nada. Vou fazendo o que acho legal. É óbvio que fazer piada com gay nunca foi legal, então não faço. Tem coisas que você mesmo, pelo teu próprio critério, sabe.

Por que Lili deixou de ser a ex?
Ela nasceu assim, porque eu tinha minha ex-mulher e via que ela falava muito com as amigas, era um momento em que muitas tinham se separado e falavam muito sobre ex-maridos, daí pintou essa personagem. E comecei a fazer a tira, era uma ideia atrás da outra. A Lili era uma coisa que parecia infinita, tanto que acabou virando uma série, uma experiência incrível. Depois, com o tempo, essa piada da ex-mulher obcecada pelo ex, pra mim, deu. Quis fazer o personagem evoluir um pouco. Às vezes, quando o personagem é ligado a uma única piada, você se cansa de fazer. Só o Glauco que não se cansa do Geraldão todo dia levando patada da mãe. Mas a personagem mudou, ela entrou em outra fase da vida. A personagem tem uma leveza, ela ajuda a rir um pouco desse comportamento obsessivo, porque obsessões, no geral, são um vasto campo para a comédia, um prato cheio.

Quais desses personagens você acha que são a cara do Brasil de hoje?
Nossa, o Brasil de hoje está tão difícil. Não vejo o personagem com a cara do Brasil hoje. Como fui evoluindo com os personagens. Hoje tento colocar nas tiras o papo da Lili com Chico Bacon falando sobre o que está acontecendo hoje.

O que te alimenta enquanto cartunista e ilustrador? E como você lida com internet e redes sociais?
O cartunista é sempre um observador da volta dele. Meu alimento é isso. Cartunista é movido por vingança. Você olha pra sua família, os amigos, o país, e você tem uma revolta contra o que está se apresentando. Esse é o nosso ouro, é o próprio comportamento. E a gente está numa fase em que a humanidade nunca foi tão ridícula. E rede social, por exemplo, o Instagram, eu estou lá, mas tenho um pouco de enjoo daquilo. Frequento rede, mas pouco, porque não tenho esse tesão todo pela rede. É mais para bater um ponto mesmo. Escolhi o Instagram como rede este ano, me cansei um pouco de Facebook. E tenho o site, só para constar.
 
Cinco mil anos — e quase todas as tiras
De Caco Galhardo. Quadrinhos na CIA., 352 páginas. R$ 129,90
 
"Essa tarefa de tira diária é meio um trabalho de crônica, você reflete o mundo à sua volta, o comportamento ridículo do ser humano” 
 

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