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Correio Braziliense

As doze faces de um senhor astro, no CCBB: Mostra De Niro

Com sessões até 7 de julho, a mostra De Niro, no CCBB, celebra uma das figuras emblemáticas do cinema dos anos 1970 e 1980


postado em 25/06/2019 07:44 / atualizado em 25/06/2019 07:47

Robert De Niro: astro está com 75 anos e é homenageado em mostra do CCBB(foto: Fadel Senna/ Divulgação)
Robert De Niro: astro está com 75 anos e é homenageado em mostra do CCBB (foto: Fadel Senna/ Divulgação)

 

Perto de completar uma dezena de colaborações com o diretor Martin Scorsese, engajado num projeto da Netflix (O irlandês), aos 75 anos, o ator Robert De Niro ganha mostra no CCBB, com exibição de 12 filmes a preço popular (R$ 5, a meia). Na era em que nem mesmo Steven Spielberg se sustenta como chamariz para a nova geração de espectadores, como defende o curador da mostra De Niro, Paulo Santos Lima, Robert De Niro, dada a importância, ao lado de figuras como Al Pacino (com quem De Niro se encontrou em cena de Fogo contra fogo, em 1995) e Meryl Streep, atendem a expectativas de nicho. Criado no bairro de Little Italy (apesar de nascido em Greenwich Village), ao lado de Scorsese, De Niro teve como herança o convívio com a instabilidade de um cotidiano atrelado a ações da máfia. Natural, portanto, que, nas tramas de cinema, seja tão convincente nas cargas de brutalidade representadas de enredos repletos de retaliações e violência.

 

Se, no passado, De Niro sempre se resguardou das curiosidades da imprensa, a fim de “economizar energia”, ele cavou em torno de si, da personalidade, um manto de mistério. O resguardo, não o impediu de atacar figuras de monstros sagrados como Clark Gable e Humphrey Bogart, que, segundo ele, interpretavam “a si mesmos”. Ator de estatura e versatilidade ímpares, De Niro traz na carreira colaborações com os renomados Elia Kazan, Terry Gillian e Alan Parker. 

 

Ex-aluno de Stella Adler, fundamental, por ser compromissada com o método do russo Stanislavski, De Niro é dos atores que não medem esforços para dar corpo a personagens. Chega a requintes como aprender dialeto como siciliano (O Poderoso Chefão II), se empenhar no saxofone (para o papel em New York, New York) e dispensar dublês (no passado, claro).

 

Até mesmo quando deixa a desejar (caso da direção, em O bom pastor), não pode ser subestimado. O peso do significado na carreira porém desperta interesse como reforça o curador Paulo Santos. “Ao falar um pouco sobre a história da CIA, o filme apresenta um mundo sombrio, sem terra firme, e um protagonista solitário e condenado a uma espécie de inferno”, observa o curador. Vidas em colapso (Touro indomável, no qual De Niro se apropriou da alma do pugilista Jack La Motta), destruição de futuros promissores (no vencedor do Oscar de melhor filme e direção O franco-atirador, atração de amanhã, às 17h30) e relações paternas dificultosas, vistas em A família Flynn (2012), com o personagem de Paul Dano enfiado em literatura e crises com o pai (De Niro), são elementos presentes nos filmes da mostra.

 

Na porção cômica de De Niro, há graça no título selecionado para a mostra no CCBB Fuga à meia-noite (1988), sobre um caçador de recompensas que dará de cara com a máfia, em inúmeros contratempos amontoados pela prisão de um contador. Antes mesmo de um reconhecido mais amplo, com o drama A última batalha de um jogador (1973), De Niro já expandia o talento em colaborações com diretores do porte de Brian De Palma, como mostra Olá, mamãe! (atração de hoje, às 19h), que alinha temas como política, consumismo e paranoia, numa produção de 1970, detida na figura de um homem que volta do conflito no Vietnã.

 

A mostra traz, hoje, às 14h30, Era uma vez na América, derradeiro filme de Sergio Leone, que revela a dinâmica de pequenos trapaceiros, em Nova York. Amanhã, às 15h, Desafio no Bronx (1993) traz mais enredo de gângster, sob a direção de De Niro. Dias 4 e 7 de julho, a pedida é 1900 (de 1976), com 317 minutos, mostra o fôlego da obra do ator que, na mostra, tem cinco títulos com duração acima de 2 horas e meia. Na obra-prima de Bernardo Bertoluccci, 1900, vale o afresco que eterniza o retrato de um operariado, por vezes, vitorioso no embate frente elite. Junto com De Niro, brilha o gigante Gérard Depardieu. 

 

O curador da Mostra De Niro: Paulo Santos Lima, crítico de cinema(foto: Arquivo pessoal)
O curador da Mostra De Niro: Paulo Santos Lima, crítico de cinema (foto: Arquivo pessoal)
 

 

Quatro perguntas // Paulo Santos Lima, curador 

 

De Niro é um ator de imposição física, quando pesam as composições introspectivas?

 

Ator filiado do método de atuação moderno, De Niro é um ator físico, mas também trazendo, nas atuações, uma essência guardada, um certo espírito que transparece, no máximo, no olhar e numa expressão facial que parece trazer todo o drama existencial do personagem. Era uma vez na América, O Poderoso Chefão II, O franco atirador e Fogo contra fogo (nos dois últimos, está misterioso e introspectivo) mostram esse De Niro em atuação menos gráfica e extrapolada. De Niro é um ator do corpo, como vemos em Touro indomável e Cabo do medo, mas sobretudo do olhar, um olhar que carrega o drama da existência.

 

O cinema de Tarantino ganha em que aspectos, ao absorver um ator tão "indomável" como De Niro?

 

De Niro é um ator de forte presença em cena, uma imagem marcante nos filmes, icônico — mas eu não diria indomável, pois sua característica é se entrosar ao projeto estético de um filme, alinhando-se à dinâmica criativa. Não que não haja autoralidade em seu trabalho, sempre há, mas ele jamais será uma figura apartada dos filmes. Sobre Jackie Brown, considero um filme extraordinário e incompreendido, pois é o que melhor comprova a força do cinema do Tarantino, que é a dramaturgia. E há o resgate do espírito do cinema setentista, com a blaxploitation. Louis, um assaltante de banco meio burro e em eterno descompasso com seu entorno, está entre os melhores trabalhos de De Niro, aqui numa precisão absurda no uso de sua máscara facial reconhecida. Ele é a excelência desse talento do Tarantino em conduzir cenas.

 

Inserido na vanguarda da Nova Hollywood, De Niro soube capitalizar o que daquele período e trouxe que marca, ao abraçar a direção de filmes?

 

Não creio que antever, mas De Niro é o passo à frente que a escola de atuação moderna deu em relação a Marlon Brando, pois mais liberto de uma codificação marcada e mais versátil entre atuações mais conceituais e outras mais realistas, conforme se desenhava o horizonte do cinema americano do final dos anos 1960. Sobre De Niro na direção, há algo do cinema de gângster do Martin Scorsese em Desafio no Bronx, assim como há uma exposição aterradora da política norte-americana bem típica do ceticismo dos anos 1970 em O bom pastor. O que indica que De Niro é fruto de sua própria experiência, influenciado por cineastas e visões de mundo.

 

Aonde De Niro, hoje — ainda desbravador ou rendido a Hollywood?

 

Robert De Niro é o maior ator moderno dos últimos 50 anos porque contribuiu com seu talento artístico em diversos trabalhos, entre autorais e comerciais, excelentes e ordinários, numa experiência que se confunde com a rica e ambígua relação entre arte e indústria que marca o cinema de Hollywood. Assim, De Niro é parte da Nova Hollywood e ainda da tecnologia digital. Ele é o próprio cinema. E daí que será normal encontrá-lo junto a projetos banais ou pouco ambiciosos, como de certo modo é o grosso de qualquer produção industrial. E eu jamais diria rendido, porque há algo que nos esquecemos, talvez por idealizarmos demais, que é o trabalho artístico ser uma atividade braçal, de ordem operária, tão labutar quanto plantar milho ou reparar uma esquadria. Creio que estar nos filmes atenda a algo existencial, senão cotidiano e de sentido prático. 

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