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Correio Braziliense

Museu da República traz obras da fase inicial da jornada do artista Farnese

Exposição de Farnese de Andrade no Museu da República traz desde os primeiros trabalhos em papel até os objetos que fizeram do mineiro um artista singular


postado em 25/06/2019 07:52

Obras de Farnese estão alinhadas na exposição Farnese de Andrade Memórias Imaginadas(foto: Sergio Guerini / Divulgação)
Obras de Farnese estão alinhadas na exposição Farnese de Andrade Memórias Imaginadas (foto: Sergio Guerini / Divulgação)
 
 
O artista mineiro Farnese de Andrade ficou muito conhecido pelos objetos carregados de símbolos que costumava construir, mas poucos sabem o quão importante foram técnicas como o desenho e gravura em sua trajetória. Pela prática dessas últimas, o artista se tornou conhecido no Brasil e nos principais centros de arte, ganhou prêmios e frequentou bienais como a de Veneza. Esse período, hoje pouco conhecido, guiou a curadora Denise Mattar durante a pesquisa para montar a exposição Farnese de Andrade – Memórias imaginadas, em cartaz no Museu Nacional da República. 

No total, Denise conseguiu reunir mais de 100 obras garimpadas em coleções particulares e no acervo da galeria Almeida e Dale. São peças capazes de jogar uma luz sobre um período pouco conhecido da produção de Farnese de Andrade, mineiro de nascimento, radicado no Rio de Janeiro por anos e morto em 1996. “Quando você fala em Farnese, pensa nos objetos, só que ele se tornou um artista famoso e ganhou todos os prêmios com as gravuras e os desenhos. Foi isso que fez ele famoso. Depois, mais tarde, ele começa a fazer os objetos”, explica Denise. 

Aluno de Alberto da Veiga Guignard nos anos 1940, Farnese mudou-se para o Rio de Janeiro no final da década e lá começou a desenvolver a obra em papel. Fez o famoso curso de Johhny Friedlander e Rossin Perez no ateliê de gravura do Museu de Arte Moderna (MAM), pelo qual passaram praticamente todos os nomes da abstração carioca, e saiu de lá com uma série de impressões em negro que foram uma espécie de passaporte para o mundo das exposições.
 
Durante esse período, o artista se dedicou a um abstracionismo informal no qual não ficaria muito tempo e ao qual não dava muito crédito. Logo Farnese retornaria à figuração com séries de desenhos em nanquim. Em uma entrevista ao crítico Antonio Bento, nos anos 1950, Farnese explicava que não tinha predileção pelo figurativo, apenas entendia ser incapaz de conseguir, com a arte abstrata, o tipo de provocação conseguidas com as figuras. “Simplesmente porque, para mim, a pintura não objetiva dificilmente pode causar emoção a quem a contempla. E uma arte, sem essa possibilidade, não me parece completa”, dizia.

Dos Obsessivos, no qual desenha miniaturas obcecadamente, aos desenhos eróticos, expostos na Bienal de Veneza e censurados na Bienal da Bahia, em 1968, o universo do artista abarca sempre as mesmas inquietações: tempo, memória, morte e vida. O viés erótico do trabalho de Farnese também merece um destaque. A série censurada na Bienal da Bahia acabou confiscada, o que deixou o artista injuriado. Em resposta, ele realizou outro conjunto de trabalhos no qual a censura é o tema. São três obras – uma contra a censura moral, outra destinada à censura erótica e outra à censura verbal – das quais apenas a última está na exposição.
 
Com letrinhas desenhadas em bico de pena e cujo tamanho aumenta e diminui, Farnese faz uma crítica ao ato de vetar a palavra escrita. Inscrita no Salão Nacional de Belas Artes de 1970, a série acaba por ganhar o prêmio viagem e o artista embarca para uma temporada de quatro anos em Barcelona. Na cidade espanhola, ele realiza diversas exposições e passa a experimentar uma fusão de técnicas que resulta em trabalhos mistos com sobreposição de gravuras e pinturas. Além disso, mergulha em uma ambiguidade que passaria a marcar sua produção: utiliza modelos masculinos para desenhar mulheres. “Esse trabalho tem uma dubiedade, uma coisa meio misteriosa, um componente erótico muito forte”, avisa Denise.
 
Apenas nos anos 1980 é que Farnese vai se dedicar aos objetos. Tudo acontece por acaso, durante uma caminhada na praia para recolher entulhos com a intenção de transformá-los em carimbos. “Catando as peças na praia, ele começa a achar objetos interessantes e leva para o ateliê. E um dia, como ele dizia, esses objetos começaram a se juntar sozinhos. Foi aí que começou a fazer o que chamava de montagem”, conta Denise. “Ele percebe o potencial dessas peças e, um dia, recebe de um tio fotógrafo, como herança, um monte de fotografias da família. Ele vai então se dando conta do potencial memorialista disso. A questão dele é sempre o tempo, a morte, a religião.”

Quando começa a fazer os objetos, Farnese escolhe espaços fechados como caixas, vitrines e oratórios para abrigar as assemblages. Ali, bonecas, fotografias, espelhos, desenhos e todo tipo de quinquilharia se amontoam como se estivessem condenados a um diálogo eterno em torno de suas origens e simbologias. “É a questão do aprisionamento”, explica a curadora. “Ele vai fazendo em resina, redomas de vidro, oratórios, caixas, tudo é fechado, preso. Ele tem essa ânsia de paralisar o tempo.” 

A origem mineira do artista, segundo a curadora, também tem um papel forte na escolha dos formatos e materiais. É, como ela aponta, um prato cheio para psicanalistas, embora tenha evitado dar ao recorte da exposição qualquer leitura desse tipo. Denise prefere que o público faça sua própria interpretação do conjunto.

Uma depressão profunda traz para a obra de Farnese mais uma reviravolta. Diante do sofrimento mental, o artista não suporta mais as caixas fechadas e, um dia, ao observar o movimento na cozinha de casa, se depara com uma gamela. Ali, o espaço aberto toma outro sentido e, transportado para o ateliê, o objeto passa a servir de base para um conjunto enorme de assemblages. Algumas delas estão na exposição. Para Denise, há um diálogo claro entre essas obras, que ficaram muito conhecidas a partir do século 21, a os desenhos e gravuras iniciais. “Nesses trabalhos, principalmente nos desenhos que chama de figuras, você enxerga essa ambivalência que caracteriza os objetos”, garante.

Reflexão política

Também no Museu Nacional da República, a exposição Necropolítica traz pinturas nas quais o artista Thiago Martins de Melo reflete sobre o Brasil ao retomar um conceito antropológico no qual política e morte aparecem entrelaçados. “Esse conceito fala sobre quem manda, quem decide quem vai morrer”, avisa Denise Mattar, curadora da mostra realizada com apoio das galerias Leme e Almeida e Dale. “O Thiago se mune de toda nossa história e vai juntando imagens que vem do (Hieronymus) Bosch, (Johann Moritz) Rugendas e (Jean-Baptiste) Debret misturadas com imagens de hoje para mostrar que a necropolítica continua em ação. E como estamos num mundo vertiginoso, ele cria imagens vertiginosas ao misturar informações.” 

Farnese de Andrade – Memórias Imaginadas
Necrobrasiliana, de Thiago Martins de Melo 
Visitação até 4 de agosto, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional da República (Lote 02, SCTS próximo à Rodoviária do Plano Piloto) Abertura: Hoje (25 de junho, terça), a partir das 19h.

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