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Correio Braziliense

Nuggetz, novo projeto de Frango Kaos, lança EP e saúda os refugiados

'Welcome refugees' é o primeiro Ep da Nuggetz, projeto de dub-ska-jazz encabeçado por Frango Kaos, vocalista da banda Galinha Preta e requisitado técnico de som brasiliense


postado em 25/06/2019 06:50 / atualizado em 25/06/2019 07:57

Músico e produtor Frango Kaos abre uma nova vertente de trabalho com a criação de banda que pretende alcançar um público mais amplo(foto: Arquivo pessoal / Divulgação)
Músico e produtor Frango Kaos abre uma nova vertente de trabalho com a criação de banda que pretende alcançar um público mais amplo (foto: Arquivo pessoal / Divulgação)

 

Frango Kaos é um ícone do underground e da cena cultural do DF. Músico, produtor e requisitado técnico de som, é mais conhecido pelo trabalho à frente da banda Galinha Preta, grupo de hardcore igualmente icônico, notável pelos riffs rápidos e pesados em músicas que raramente ultrapassam um minuto de duração. Frango agora tem um novo projeto: a Nuggetz, que manda um dub-ska-jazz muito doido com letras curtas, diretas e memoráveis.


O projeto foi idealizado por Frango como uma forma de escapar do ambiente restritivo do hardcore. “Sempre quis fazer umas paradas diferentes. O lance é que a Galinha Preta sempre foi muito limitada a um certo público, e a minha missão era fazer a mensagem chegar às pessoas”, explica o músico. Os fãs podem ficar tranquilos. Embora esteja temporariamente sem baterista, a banda não encerrará as atividades. “Uma hora a gente tira da geladeira e a frita”, garante Frango.

Ao lado da baterista Thaise Mandalla (Mandalla’s Band) e do guitarrista Caio Bahia (Ex-The Squintz e Deceivers), Frango lançou recentemente o primeiro EP da Nuggetz, Welcome Refugees, já disponível nas plataformas digitais. Os instrumentos tradicionais, tocados por dois músicos meio punks e uma garota meio hippie, se unem a uma porção de efeitos e samplers, administrados por Frango, gerando um dub viajante que não nega a veia hardcore.

As letras são tão curtas que caberão neste parágrafo: Refugees dá as boas-vindas aos ouvintes e aos refugiados com os versos “No more bombs. No more destruction. No more fear. No more terror. Welcome, Refugees!” O título de Fight against the system é praticamente a letra: “Fight against the system, to not to die”. Lost Soul só repete as perguntas; “Dónde está tu alma? Dónde está tu corazón?”, e a resposta: “I don’t know were’s my soul”. E a marota “Cigarrim” traz uma crítica social camuflada: “Eu ando por aí, fumando um cigarrim, andando no meu passo, bem devagarim”. 

A ideia e as músicas foram gestadas ao longo do tempo na mente inquieta de Frango e ficaram guardadas esperando a hora. “Aí, um dia eu encontrei com o Caio no Cobogó, na Asa Norte, fazendo alguma coisa lá — eu nunca vou em canto nenhum — e falei: ‘Bora tocar? Eu não sei o dia que a gente vai fazer e nem o ano, mas a gente faz. Daí, passou um tempinho e ligou uma menina do nada”, lembra o mentor do grupo.

Era Thaise Mandalla. Ela havia lido na revista Traços a reportagem Do frango ao Kaos, do jornalista Marcus V. F. Freitas, em que, lá no final do texto, Frango anuncia o novo projeto: “A intenção é ser eu e um batera, quem estiver interessado, a vaga está aberta”, avisou na época. “Eu entendi que o recado era pra mim — aquele lance de energia. Mandei mensagem pra ele pelo Facebook, no dia seguinte. Propus que fizéssemos uma experiência e ele topou”, conta Mandalla.


Convite para jantar 


Frango convidou Caio e Thaise para jantar (como ele costuma fazer quando quer conversar com alguém) e deixou claro: “O bagulho é assim e assado, é só sentar e executar. Mas se um dia alguém tiver alguma coisa pra fazer, eu coloco outra pessoa”, avisou. “O Galinha Preta é uma banda. No Nuggetz, sou eu que mando e pronto”, ironiza.

Já no primeiro ensaio, na casa onde Frango mora no P Sul, pediu para os músicos improvisarem, para “ver de qual era”. “Eles eram totalmente rock’n’roll”, define Frango. Ele editou os áudios do ensaio, transformou tudo em samples, mixou, botou efeitos e jogou no Spotify, para surpresa do baixista e da baterista. “Nenhum de nós toca reggae. Eu podia ter chamado uma galera que toca reggae e tal, mas assim é mais interessante, porque a gente faz uma leitura nossa”, reflete.

Pouco tempo depois veio a oportunidade de gravar o EP. Por intermédio de Hamilton de Holanda, para quem Frango presta serviços de técnico assiduamente, foram convidados para tocar no Circo Voador e aproveitaram para gravar o EP com o produtor André Vasconcellos, que se empolgou com a banda. O EP foi gravado no Estúdio 2, no Rio de Janeiro, e masterizado no estúdio Sterling Sound, de Nova York, por Idana Valencia.

Frango ressalta a importância de ter mulheres como Idana trabalhando na área e manda avisar que, em breve, ministrará um curso de sonorização para mulheres. “Vai ser para todo mundo, mas o foco é contribuir com a inserção das mulheres neste mercado de trabalho. Na Europa, já tem muita mina trampando, o Brasil precisa disso também”, anuncia.
 
Galinha Preta

 

Antes de entrar na carreira musical, “ainda pivete”, Frango Kaos já era um operário nos bastidores do showbizz, trabalhando como peão em empresas de sonorização. Em 1989, quando estava apaixonado pela música Blue Monday, do New Order, e por um baixo que sempre via na Discodil de Taguatinga, trocou alguns discos do Motörhead por um baixo todo estourado, com apenas duas cordas, e o disco branco dos Dead Kennedys.

Logo, passaria a integrar a banda Destroços, ao lado de Rato, um punk que ele via por aí e tinha uns discos dos Ramones. Com o fim da banda, Frango e Rato passaram a integrar a Desakato à Autoridade. Frango ainda tocaria com a Paradoxo, banda de rap à la Câmbio Negro, pela Vernon Walters, participando do álbum Talibush, e teria uma passagem meteórica pela primeira formação da Besthöven, como vocalista, antes de, finalmente, se empoleirar na banda com que faria nome.

Frango passou um tempo apenas nos bastidores. Trabalhou no estúdio Cáustico Lunar, no quarto andar de um prédio do Conic, onde ensaiavam bandas como Raimundos, Oz, Câmbio Negro e Natiruts, e como sonorizador no Gran Circo Lar. Em 2001, produziu a demo da banda do “filho de um brother”. A banda chamava-se Galinha Preta. O vocalista da banda desertou ,e Frango foi convidado a assumir o posto.

Ele hesitou, mas, por fim, topou fazer um teste, com a condição de poder cantar as próprias letras. “A princípio, eu não gostei, porque era muito metal, muito triste. Não sou da vibe dos haters. O protesto punk é o protesto sarcástico. Não pode ser pra baixo. Nada que a gente faz, que toque o coração de alguém, pode ser triste ou com ódio. Então, fizemos um som pesado, mas divertido”, reflete Frango, que já entrou na banda introduzindo samplers.

O resultado é uma das bandas mais cultuadas dentro e fora do underground do Distrito Federal, cujas letras divertidas e reflexivas, em músicas como Ninguém nesse mundo é porra nenhuma, O saco de plástico é a nova bomba nuclear e outras hilárias, como Roubaram meu rim e O padre baloeiro ,são cantadas a plenos pulmões nas raras, mas prestigiadas apresentações. O público ainda vai ao delírio quando frango lhe dirige o apelido carinhoso que ele sempre usa: “Seus vermeeeeeeeeeeeees!”



Três Perguntas // Frango Kaos 

Por que “Nuggetz”?
Eu estava procurando um nome para o projeto. Pensei em “Guimba” e coisas assim. Mas aí pensei: Eu sou o Frango, e as pessoas me associam ao Galinha Preta. Como é que eu vou fugir disso? Aí, estou assistindo a um filme na TV e tinha uma mulher virando vegana, e aparecia um pintinho falando “Ai, eu vou morrer!” Uma cena escrota, e eu pensei: taí! Vou fazer uma banda chamada Nuggetz. Não foge do contexto galináceo e é compactado, com pele, osso. Nuggetz é isso: mistureba.  
 
Welcome refugees é uma música muito bonita, de boas-vindas aos refugiados. Como surgiu?
Para começar, minha bisavó veio para o Brasil fugida da guerra civil espanhola. E esse país é feito de refugiados. A galera da Síria fez um restaurante ali maneiro, e a galera esquece que, no começo do século passado o Brasil bombou de alemão, italiano, japonês, e o país cresceu com isso. Tem uma galera fugindo do Oriente Médio e que tem muito a oferecer. Welcome Refugees quer dizer: “Chegaí, refugiados!”.
 
Em uma entrevista concedida ao zine Brasília, Fina Flor do Rock, Você comentou sua passagem pelo MAP (Movimento Anarco Punk) e CRU (Conscientes Radicais Unidos). Felipe CDC perguntou se você ainda integraria algum movimento. E você respondeu, brincando, que só se fosse em um movimento cyberterrorista bem secreto. Você daria a mesma resposta hoje?


Na verdade, isso já está rolando. Hoje em dia, o cara protesta pelo smartphone! O mundo está vivendo uma mentira muito grande. No Twitter, tem 140 caracteres, e no Instagram, um minuto. As pessoas acabam vendo apenas meio jabá, e a meia verdade vira a verdade. Precisamos chamar as pessoas à responsabilidade e usar as mesmas armas. E a minha arma é a repetição, refrões repetitivos, como os do Galinha Preta e do Nuggetz. 


Welcome refugees

Nuggetz (EP). Disponível nas plataformas digitais. Lançamento em vinil previsto para julho/agosto. 

 

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco 

 

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