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Correio Braziliense

Cinemas projetam filmes que soterram preconceitos

A exibição em salas de cinema, entretanto, nem sempre é garantia para quem lida com cinema


postado em 26/06/2019 07:00



Sob a perspectiva de ser lançado em dezembro, nas salas de cinema do país, o longa Primos — que foi aplaudido de pé, quando mostrado em sessão goiana — terá sessão especial, amanhã, às 20h50, no Cine Cultura Liberty Mall. Com ingressos a R$ 12, a meia-entrada (no site Sympla), a sessão contará com presença dos atores, engajados na abolição de qualquer gênese de preconceito. Primos, em tom de comédia rasgada, expõe um enredo de amor homossexual que desafia convenções religiosas no seio de uma família dada como tradicional.

Hoje, noutra capital brasileira (São Paulo), o ineditismo do filme de Luciana Canton — chamado Intimidade pública — será quebrado, em sessão de cinema especial de projeto a favor da diversidade. Na sexta-feira, vale a lembrança, é celebrado o Dia do Orgulho LGBTI. Temas como homofobia e prostituição estão em Intimidade pública, premiado em Los Angeles, Manhattan e Toronto. Em breve, o filme estará nas plataformas de streaming.

A exibição em salas de cinema, entretanto, nem sempre é garantia para quem lida com cinema, e temas que não contam com a unanimidade podem desafiar os criadores. Foi o caso de Inferninho, que teve première mundial na Holanda, e despertou interesse, ao retratar contraventores que tentam corromper a harmonia de todo e qualquer tipo de ser humano enfurnado numa boate eclética. “Infelizmente, os programadores das salas de cinema de Brasília recusaram-se a passar o filme. Não entendemos claramente suas razões, já que Inferninho é um filme que tem tido bastante relevância e, inclusive, teve sua estreia nacional no último Festival de Brasília. Muita gente da capital tem nos cobrado o lançamento, e é triste que esse boicote dos cinemas tenha acontecido. É difícil descartar questões ideológicas em jogo”, opina o cearense Guto Parente (leia entrevista), codiretor ao lado de Pedro Diógenes.

A passos de, humoradamente, se jogar nos rios Sena ou Tâmisa, Rafael (Rafael de Bona) encerra dissabores amorosos na trama do filme 45 dias sem você, outro título com teor LGBT assinado por Rafael Gomes, associado à trilogia, já filmada. O filme é atração via streaming. Beijos por impulso, sexo casual e, sem imagens pesadas, até mesmo uma festa transferida para um banheiro superlotado são elementos do filme em que Rafael (dado como “um Hércules tropical”, na visão de uma personagem) perambula por países como França, Inglaterra, Portugal e Argentina, sob pretexto de reencontrar o próprio chão. Oito anos com Daniel e uma ruptura na relação, numa lógica de fim de ciclo (“como terminam as séries de tevê”), deixam Rafael abalado, ainda mais depois de ver o atual namorado embarcar num passeio de 45 dias, sem retorno.


>> entrevista Guto Parente, diretor 


Como percebe o prazer de representantes LGBT ante o 
reconhecimento, à identidade dada pelo longa Inferninho?
Uma das questões centrais do filme é afirmar o respeito à diferença e que cada um pode ser quem quiser ser, como quiser ser. O Inferninho é um ambiente onde isso é possível. O que faz com que quem se identifica com essas ideias ou se sente cotidianamente oprimido pelas imposições da normatividade se sinta acolhido pelo filme. E não somos poucos. Tanto que Inferninho tem tido uma recepção ampla e bonita.

Existe referência direta de vocês (na codireção com o Pedro Diógenes)
com o filme do Rainer Werner Fassbinder, e houve inspiração
nos escritos de Jean Genet, 
dada a lembrança de Querelle?
Com certeza Fassbinder é uma referência importante pra gente e, especialmente para Inferninho. Querelle, teve uma grande influência. Não revimos o filme à época nem o tratamos como uma referência direta em nenhuma cena, mas o carregamos o tempo todo com a gente. Pedro e eu compartilhamos de uma cinefilia bem extensa e variada, que alimentamos juntos desde a nossa adolescência. Na hora de fazer filmes, sempre tem muita coisa que vem à tona, consciente ou inconscientemente.

Como percebe aceitação e tolerância nos festivais internacionais? 
O Brasil está atrasado no cenário do exterior com relação à temática?
O filme foi muito bem recebido em todos os festivais internacionais por onde passou. Existem questões humanas que são universais e que transcendem culturas e fronteiras. E foi muito bom ter experienciado isso com o filme. Acho que o cinema brasileiro está em um ótimo momento, talvez em sua grande fase desde muito tempo. Estamos fazendo bonito lá fora.


Crítica/Primos



Faltou acabamento
Uma comédia romântica recomendada apenas para maiores de 18 anos. O recado está dado, portanto, quanto ao conteúdo algo explosivo de Primos, fita sob a direção de Thiago Cazado e Mauro Carvalho. Integrados por curtas como WC Masculino e Tenho local e parceiros ainda com o longa Sobre nós (2016), em torno dos amores de um cineasta em formação. Com parentesco de segundo grau, os protagonistas de Primos são Lucas (Paulo Sousa), um rapaz com fama de certinho, e Mário (Cazado), recém-saído da penitenciária.

Ator e roteirista, Thiago Cazado se arrisca num terreno ingrato, que — a todo momento — desafia o talento carente de mais fôlego. Não há formulação de maiores dramas: com abordagem levíssima, a orientação sexual de Lucas desponta num ambiente em que a religião está por todas as partes — especialmente na figura da tia Lourdes (Juliana Zancanaro), que acolhe devotas, em sessões caseiras de orações.

A motivação da comédia é dúbia, uma vez que é possível rir do filme, e não necessariamente com ele. Alguns momentos de apelação à la chanchada reclamam um revival do produto de Aníbal Massaini Neto chamado Os bons tempos voltaram: Vamos gozar outra vez (1985), que contrapunha libertinagens sexuais a reprimendas de familiares (havia primos, é bom lembrar) e ao poder de achincalhamento da ação política da instituição militar.

Agora, no filme (que tem muitas cenas, carentes de lógica e de tempo dramático, com sensação de improviso) Primos é patente a diversão e o frescor da equipe esforçada em ofertar algo de diferenciado. Mas tudo fica a meio caminho, com muito atalho rumo ao amadorismo. Por fim, o filme é ousado, mas com humor raso e não consolidado. Não é um produto audiovisual pronto.
 
 

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