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Correio Braziliense

Maria Lúcia Verdi lança sétimo livro de poesias da carreira

Na obra, ela parte de situações triviais do cotidiano para fazer meditações existenciais e construir epifanias


postado em 29/06/2019 06:18 / atualizado em 29/06/2019 15:28

Maria Lúcia Verdi: poesia que toca na finitude, na fragilidade e na transcendência(foto: Letícia Verdi/Divulgação)
Maria Lúcia Verdi: poesia que toca na finitude, na fragilidade e na transcendência (foto: Letícia Verdi/Divulgação)
 

Em voz baixa (Ed. Iluminuras), sétimo  livro de poesia de Maria Lúcia Verdi, com ilustrações de Iuri Hermusche, pode enganar em uma primeira mirada. É magrinho, mas denso. Exige não apenas a leitura, mas também a releitura. Parte de situações triviais, mas toca no amor, na finitude, no silêncio, no mistério, na fragilidade, no sublime, na impotência e na transcendência: (“como dizem os índios Krenak, é preciso segurar o céu/através da conexão do corpo e da mente com a natureza em/ torno e com o cosmos — se nos desconectamos, ele cai”).  O livro será autografado no Sebinho (406 Norte), na próxima sexta-feira.

Nascida em Porto Alegre, Maria Lúcia é uma gaúcha e brasiliense cidadã do mundo. Aterrissou em Brasília aos 17 anos, mas, em razão do trabalho de oficial de chancelaria do Itamaraty, viveu em Roma (onde dirigiu o Centro de Estudos Brasileiros); em Pequim, como chefe do Setor Cultural da Embaixada Brasileiro;  e em Buenos Aires.

Essa errância multinacional marcou a poesia de Maria Lúcia. Este fruto outro foi publicado pela editora italiana Illa Palma e Coito com o real, pela editora argentina Leviatã. Em edições da autora, foram  publicados o  primeiro livro, Personagem possível, e  O caractere do sono - Entre Ocidente e Oriente, que marca sua passagem chinesa.

O crítico Oswaldino Marques e os poetas Cacaso e Francisco Alvim saudaram a poesia meditativa, metafísica e epifânica de Verdi: “Certamente os longos períodos vividos no exterior contribuíram para esse relativo desconhecimentoo de sua obra entre nós”, escreve a contista e professora de literatura Vilma Areias, no posfácio.

“Poesia como diário/não escrito/dias assim em/tão poucas linhas”, anuncia Verdi o roteiro de sua poesia. No livro, ela concebe uma colagem de poemas, citações, imagens, crônicas e fragmentos de frases, como se fizesse cinema no papel: “Por fim, a foto dos jovens avós/na parede/nenhum sorriso, olhares brancos/o casamento/(permanecerei em alguma parede?/os hábitos agora são outros”.

Maria Lúcia é mestre em literatura pela UnB e realiza há seis anos o projeto Poesia do Mundo, com  leituras de poetas estrangeiros  em  língua original e em traduções. Em entrevista ao Correio, ela fala sobre a formação, a trajetória, Brasília e a marca das cidades. 

Você tem uma reverência aos grandes poetas. Como se deu a sua conexão com a poesia?
Tenho, sim, uma reverência aos grandes poetas, assim como às mentes brilhantes que modificaram a compreensão da história da humanidade. É importante o ato de reverenciar. No mundo de hoje, o da sociedade do espetáculo, cultuam-se as estrelas do momento, e os grandes gênios não são suficientemente recordados, aqueles que realmente fizeram a diferença, seja nas artes seja nas ciências. Reverenciar, recordar, lembrar de onde vem algo que nos forma, faz parte da educação sentimental, da formação intelectual — saber de que linhagem você provém, como pessoa e como artista. Compreender e questionar as filiações a que pertencemos é fundamental. Desde pequena tive a literatura, e não apenas a poesia, como companheira. Sentia-me estranha, mas nos livros encontrava semelhantes, reconhecia sentimentos, dúvidas.

Que autores te marcaram e o que representa ler e reler poesia em sua vida?
O que me diziam Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral, Cecília Meirelles, Vinícius de Morais ecoava como verdade, diversamente do que via à minha volta. Conforme fui desenvolvendo a leitura em línguas estrangeiras — graças ao esforço dos meus pais pude estudar num colégio onde se iniciava o aprendizado de inglês, espanhol e francês aos 10 anos — o escopo de poetas e narradores foi crescendo. Inflamavam-me, me faziam chorar Maiakóvski, Neruda, Brecht, mas também os Beatles e os Rolling Stones...
Cursei o último ano do segundo grau nos EUA, onde estudei Shakespeare com uma professora inglesa por um semestre; quando meu trabalho final foi escolhido como o melhor, ganhei um volume das obras completas do Bardo — ler meu nome, escrito em bela caligrafia, no papel que acolhia aquele universo era perturbador. Ler é estar próxima, partilhar. Escrever, quando se lê os mestres, é difícil — sabemos o nosso tamanho e, mesmo assim, é preciso escrever.

Ler é, verdadeiramente, reler?
Sim, releio muito e reescrevo. Ler Em busca do tempo perdido aos 20 e poucos anos é uma bobagem; relê-lo aos 40 e algo é lê-lo de fato; reler aos 60 as partes marcadas é um deslumbramento. Como é uma alegria descortinada reler Grande Sertão: Veredas. Ler e reler Baudelaire, Paul Celan, Borges, Kafka, Clarice Lispector, Virginia Wolf, e tantos, tantos outros. Essas leituras foram, são estrelas guias, ajudam-me a compreender e tentar aceitar (enquanto pergunta irrespondível) essa coisa tremenda que é a vida.

Em razão do trabalho de oficial de chancelaria do Itamaraty, você morou em várias cidades do mundo. Que impacto teve essa errância em sua poesia?
Tive o privilégio de, por trabalho, passar alguns meses em Madrid e Paris e vários anos em Buenos Aires, Roma e Pequim. É como se parte de mim, ou eu inteira multiplicada, continuasse por lá, vivendo aquelas minhas vidas, caminhando e me perdendo por aquelas ruas, escutando aquelas vozes. É maravilhoso descobrir os lugares sem pressa, não se sentir turista, encontrar a alteridade, lidar com ela ainda quando haja a barreira da língua, como na China. A gente se reinventa, utiliza outros modos de comunicação, acumula histórias simples e ao mesmo tempo fantásticas. O fato de ser estrangeira não me incomodava, sempre tive a percepção de que, de algum modo, todos o somos, todos estamos exilados em nós mesmos, para começo de conversa.

E Brasília, qual o lugar da cidade em sua poesia? A atmosfera metafísica da cidade é um bom cenário para a sua poesia?
Viver em Brasília, onde cheguei aos 16 anos e de onde estive afastada por 20, é sempre o mesmo encantamento: o céu, o céu e os jardins, o horizonte descortinado, uma luz que estimula a lucidez e a vitalidade. Infelizmente, a Brasília de hoje está invadida por carros, por ruídos e vulgaridades de todo tipo que empobrecem uma cidade linda, peculiar. A atmosfera brasiliense que você chama de metafísica e que poderíamos também chamar de barroca — o homem enfrentado entre a terra e o céu — sempre mexeu comigo. Mas é um belo, este, que pode ser angustiante. É muito céu, muito apelo a uma transcendência mais e mais difícil. Escrevi para Brasília, sobre ela, mas não creio que atualmente seja um elemento fundamental no que produzo. Tento escrever sobre situações e percepções que, embora localizáveis, ecoem algo comum, partilhável. Ocorre-me mencionar, como meta utópica, um conto de Borges,  O Aleph, que trata de um lugar mágico em uma casa de onde, num turbilhão, podia-se ver tudo o que ocorrera em espaços e tempos diferentes.

A sua poesia parte de fatos triviais, mas atinge o amor, a metafísica, a finitude e a transcendência. No que a sua poesia toca?
Os fatos triviais são, sim, pedra ancilar do que escrevo; os detalhes do que os olhos registram (os meus e os dos outros, os que observo olhar), a escuta casual de certas frases captadas enquanto estou num café ou passando por alguma cena das quais é pródiga a realidade do dia a dia. Mas no meio dela, da banalidade do cotidiano, enredado com ela, inseparável, estão as questões maiores – o medo, a finitude, os impasses amorosos, a impotência. No micro, o macro, não é?

Por que você reescreve e reinsere poemas de livros anteriores em novos contextos? É a busca do verso perfeito ou a admissão da precariedade do ato de fazer poesia? Escrever é reescrever para você?
Sim, escrever é reescrever, mesmo que seja outro tema, outro estilo, acho que sempre, de algum modo, estamos reescrevendo o que mais nos significa, o que nos funda como seres sensoriais e pensantes. No meu caso, ao inserir versos antigos em livros novos, busco uma certa continuidade como num novelo de distintas lãs. Um pouco como disse num poema: poesia como diário não escrito. A autocitação também funciona a partir da consciência irônica que me alerta: ninguém leu ou ninguém lembrará desses versos, e eles são centrais mesmo que só para você... Concordo com o que você disse sobre a precariedade do ato de fazer poesia, mas, ao mesmo tempo, sabemos da consistência e plenitude dele.

Por que você mistura poemas, crônicas, microtextos e citações de autores de sua preferência em uma colagem no livro, de tal modo que é quase imperceptível a passagem de um plano a outro?

Fico feliz ao ler que você acha ser quase imperceptível no “em voz baixa” a passagem de um plano para outro, dos poemas aos micro relatos, à crônica, aos mini contos. Tudo é mistura, hibridismo, inter-relação, interdisciplinaridade, e a literatura espelha isso. Vou montando o livro sem me preocupar com separações, índices, gêneros. Em voz baixa digo, registro, momentos de interação com o fluxo do que me é dado perceber da vida. As colagens de “em voz baixa” são feitas a partir de algumas fotos (analógicas) feitas ao longo da vida e de cartões-postais que conservei. Entreguei tudo ao Yuri Hermuche, artista multimídia e amigo, e pedi, sem qualquer sugestão, que ele montasse as colagens. Yuri me surpreendeu: só leu o livro depois de ter feito as colagens; elas não são, portanto, uma didascalia, acrescentam um tom ao livro, criando uma leitura estética própria. Apaixonada por cinema e pintura busco que meus livros sejam também belos objetos.


Você organiza o evento Poesia do mundo. Qual o lugar que atribui à poesia no caos do mundo pós-moderno e pós-humano?
Comecei há seis anos o Poesia do Mundo por uma necessidade íntima. Havia retornado a Brasília depois de muitos anos e em circunstâncias pessoais difíceis. Foi um modo de, aposentada, trabalhar com o que amo. Trazer grandes vozes poéticas em língua original e em  boas traduções tem sido um grande prazer dividido com um público já cativo. Há muita gente sedenta por um tempo-espaço de voo, de distanciamento deste nosso mundo hipertecnológico. Quando fizemos a poesia chinesa, em parceria com o Instituto Confúcio, da UnB, foi muito bom ver as pessoas seduzidas pela sonoridade da poesia em mandarim... E dia 11 de setembro, na Casa Thomas Jefferson, da 706 sul, teremos poetas estadunidenses do século 20 e a poesia da resistência. A poesia resiste, resistirá enquanto houver o ser humano – frágil, faltante, carente, revoltado, saudoso, nostálgico, entusiasta, apaixonado, desesperado, revolucionário.




TRECHOS

Sempre que eu te pedir água
me traga um copo bem cheio
estenda a mão devagar
olhe nos meus olhos
naquele lugar seco
que pede água

Tenha, mas não demonstre
a terna compaixão
dos amigos
Estenda a mão em silêncio
aguarde que a minha
atravesse o deserto

alcance o copo


catar pitangas, mais que colher
catar primeiro com o olhar o tom certo do maduro
buscar a que se desprenderá ao mais leve toque, quase sopro
não ser enganado pela luz – a madurez, às vezes
questão de ângulo
buscar o rubi pleno a
forma já plena
apenas as que se soltam
desmaiadas entre os dedos leves, estão prontas para a boca
a língua, o nem mastigar
mantê-las na boca por um tempo, ainda que brevíssimo
catar pitangas como as catadoras de chá na China
as infinitamente delicadas



Em voz baixa
De Maria Lúcia Verdi
Ilustrações de Iuri Wermusche
Posfácio de Vilma Areias
70 páginas/Ed. Iluminuras
Lançamento: às 19h, 5 de julho no Sebinho (406 Comercial Norte)

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