Jornal Correio Braziliense

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Livro reflete sobre a importância do sonho para compreender o ser humano

'O oráculo da noite - A história e a ciência do sonho', do pesquisador Sidarta Ribeiro, retrata a história e a ciência do mundo onírico


Quanto mais o homem avançou para as maravilhas da automação e da tecnologia, mais deixou de prestar atenção nos próprios sonhos. O mundo onírico perdeu o prestígio e passou mais de um século no escanteio. Diante das rotinas cotidianas, sobra pouco espaço para relatos sobre restos de memórias processados pelo cérebro durante o sono. Mas sonhar é importante. É bom para aprender, alimenta a memória e pode até ser útil no tratamento de doenças da mente. Esse conjunto de utilidades sempre fascinou o neurocientista Sidarta Ribeiro, formado em biologia pela Universidade de Brasília (UnB) e fundador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A curiosidade e o encanto diante da importância do sonho para o aprendizado o fizeram mergulhar em pesquisa realizada durante mais de duas décadas e que resultaram em livro generoso sobre o tema.

O oráculo da noite ; A história e a ciência do sonho é um ensaio multidisciplinar tão bem amarrado que, em certos instantes, o leitor esquece que está mergulhado em neurobiologia, sinapses e reações químicas neuronais. A parte fisiológica está presente em todo o livro ; é, afinal, o material de pesquisa de Ribeiro ;, mas ela vem combinada com um leque enorme de outras disciplinas. ;O livro vem de muitas pesquisas diferentes, claro que tem muito mais pesquisas de outras pessoas;, garante o autor.

A psicanálise era inevitável, já que Freud foi quem voltou a olhar seriamente para os sonhos e a analisar seu impacto na constituição psíquica do ser humano. Mas Ribeiro também passeia pela história e pela antropologia para nos lembrar de como os povos nativos ameríndios têm os sonhos em alta conta, e pela literatura, com uma erudita coleção de citações que vão de textos gregos antigos a literatura contemporânea. ;O livro tem muita história, narrativa ligada à antropologia, mas tem um viés biológico forte e isso foi uma coisa que tive que debulhar para criar uma narrativa acessível;, explica. ;O livro fala de muita coisa diferente, conta a história da vida rapidamente, da vida na Terra, e, para entender o sonho humano, às vezes temos que voltar para Idade do Bronze, mas às vezes tem que voltar a 100 milhões de anos atrás.;

Ribeiro é muito enfático ao falar da importância dada aos sonhos pelas culturas ameríndias. São civilizações nas quais o relato onírico se transforma em material importante para tomar decisões cotidianas. Tanto os nativos norte-americanos quanto os das américas Central e do Sul servem de base ao cientista, que reconstitui partes inteiras da história desses povos e do continente por meio do tema. Falar sobre essas experiências é prática quase extinta no mundo Ocidental e há uma lacuna considerável deixada por essa ausência. ;A capacidade de simular futuros possíveis por meio dos sonhos é uma coisa que os índios praticam muito, uma tentativa de prever futuro baseado no passado. Talvez isso seja o que esteja faltando para a civilização ocidental, ou pós-industrial. Estamos todos marchando para a catástrofe sem nos darmos conta disso e talvez isso tenha a ver com o fato de que as pessoas não sonham mais, ou elas sonham e não se lembram disso. O sonho não tem lugar na vida social, ninguém pergunta o que você sonhou. A gente perdeu uma capacidade de reflexão importante;, lamenta.

Com pós-doutorado em neurofisiologia pela Duke University, Ribeiro passou mais de uma década nos Estados Unidos debruçado sobre pesquisas que esmiuçavam a fisiologia do cérebro humano. Voltou para o Brasil com a intenção de fundar um instituto no qual pudesse repatriar capital humano e aprofundar a pesquisa em neurociência no Brasil. Chegou a trabalhar com Miguel Nicolelis no Instituto Internacional de Neurociências de Natal, mas um desentendimento com o neurocientista levou Ribeiro definitivamente para UFRN. Em entrevista, ele fala sobre a importância dos sonhos, mas também sobre o estado atual da pesquisa científica no Brasil.


ENTREVISTA / Sidarta Ribeiro


Você fala da importância que as culturas ameríndias dão aos sonhos. O quanto a sociedade absorveu disso?

Temos uma profunda ignorância sobre os índios e suas práticas sociais, essa é a tônica. Esse hábito de contar o sonho pela manhã, de se reunir numa roda de sonhos e de deixar os rumos da coletividade serem guiados pelos sonhos é absolutamente fora do mapa. Se hoje você fala ;vamos tomar uma decisão empresarial, governamental ou qualquer decisão baseada em sonho;, você estaria fora da reunião na mesma hora. Os índios usam os sonhos como lugar de validação de suas hipóteses sobre o mundo. E acho que um dos problemas que a gente tem é justamente a nossa incapacidade hoje de compreender as consequências dos nossos atos. O livro é dedicado à sétima geração depois de nós, que é uma formulação indígena dos índios norte-americanos porque tudo que você faz tem que ter uma responsabilidade com quem vem depois de você e isso está quase ausente no mundo contemporâneo.

Qual o impacto social gerado por essa incapacidade de olhar para os sonhos e tentar nos compreendermos por meio deles?

Isso gera impacto individuais, emocionais, as pessoas têm menos introspecção. As pessoas são mais carregadas pelas emoções. E tem impacto social, porque isso diminui os vínculos. Se você se encontra em volta de uma fogueira, numa caverna para contar seus sonhos ou se encontra de manhã e vai contar seus sonhos numa mesa do café da manhã você está criando laços entre as pessoas porque está tornando uma experiência individual coletiva. Quando isso deixa de acontecer as pessoas passam cada uma a viver sua vida e hoje em dia com as telas isso está no limite. As pessoas estão parando de conviver dentro de casa, porque não é só no restaurante que cada um fica no seu celular, é dentro de casa. A gente está trocando a narrativa onírica, a narrativa dos fatos durante a vigília por experiências individuais isoladas uns dos outros.

Você é um crítico confesso da psicofarmacologia. Ela tem papel maior do que deveria?

Sou muito crítico da excessiva medicalização. A medicina tem cada vez mais levado as pessoas a se medicalizarem muito cedo e o que acontece é que isso gera mais doença porque muitos desses remédios têm efeitos colaterais drásticos e as suas interações são pouco conhecidas. Os efeitos do uso crônico são pouco conhecidos porque os estudos geralmente vão até oito semanas. As pessoas que tomam antidepressivos há 10 anos estão tomando sem nenhuma base científica de fato. E o que acontece é que elas não se sentem bem, têm que aumentar a dose, misturar, e a pessoa vai caminhando para a polimedicalização. Embora as pessoas estejam mais medicalizadas do que há anos , temos mais suicídio e depressão. Então, tem algum problema com isso. Falo muito dos psicodélicos como sendo uma esperança porque são substâncias que têm efeitos comprovados contra a depressão e o trauma.São substâncias que levam as pessoas para um estado onírico. Não é um sonho, mas tem a ver. E são eficazes. Entretanto, os tratamentos são baseados em pouquíssimas aplicações, então não tem lucro. Essas substâncias são assuntos muito quentes na ciência e o sistema ainda não entendeu como monetizar isso.

Qual o sentido de estudar os sonhos hoje no cenário brasileiro de demonização da ciência e de pouco investimento em pesquisa?

A gente precisa urgentemente sonhar o futuro, porque o futuro está sendo cerceado. E tenho falado que a gente está passando por um momento que aparentemente é uma regressão à idade do bronze. Crença em mitos e ídolos, em lei de talião, olho por olho e dente por dente; É muito pouco cristão o atual momento. E agora, sendo bem explícito, a universidade, a educação e a ciência estão sob ataque e sendo cerceados nesse governo. A gente já passou por governos de direita, de esquerda, não tínhamos passado ainda por um governo que tivesse desapreço pela educação. E isso está acontecendo agora.

E tem também um questionamento quanto à ciência, uma desconfiança das verdades cientificamente provadas;Como ser cientista nesse novo cenário?

Terra é plana, né? Se tem uma coisa que é extremamente libertária é o conhecimento. Acredito que todo mundo é capaz de entender tudo, desde que tenha a oportunidade. E que a ciência precisa se democratizar, ser acessível, precisa ter ciência na escola. Nesse governo, que é extremamente antagonista da educação e da ciência, existem até algumas iniciativas, porque nada é monolítico. Então, existe o programa ciência na escola e é disso que a gente precisa. Mas não pode fazer isso e cortar bolsa, cortar dinheiro para manter os equipamentos funcionando. Existe um parque tecnológico instalado que, se não for financiado, ele se sucateia muito rapidamente. E fazer ciência no Brasil é uma atividade que exige uma profunda fé no futuro do país, porque se a pessoa pensar só no seu fazer científico, ela vai embora para o primeiro mundo. Não fica aqui.

No caso da neurociência, como está a pesquisa no Brasil?

No geral, nas ciências biomédicas, a distância para o primeiro mundo está aumentando porque os investimentos feitos lá fora são de uma, duas ordens de magnitude maiores que aqui. É muito difícil fazer ciência biomédica com pouco dinheiro. No caso de ciências biomédicas, não, existe de fato necessidade de investimento pesado. Em 2010, o investimento em ciência foi o maior que já tivemos e, de lá pra cá, vem caindo. É uma grande irresponsabilidade pegar uma curva ascendente de capacitação científica e interromper. Agora, é viável um país do tamanho do Brasil que não investe adequadamente em ciência? Acho que não.


O oráculo da noite ; A história e a ciência do sonho
De Sidarta Ribeiro. Companhia das Letras, 460 páginas. R$ 79,90