Publicidade

Correio Braziliense

Mulheres assumem os holofotes na cena do blues brasiliense

As meninas formam uma cena particular e querem levar um pouco de protagonismo para o gênero muito marcado pela presença masculina


postado em 15/07/2019 08:23 / atualizado em 15/07/2019 08:31

Piauiense radicada em Brasília, Haynna busca fortalecer e dar visibilidade às mulheres(foto: Thaís Mallon/Divulgação)
Piauiense radicada em Brasília, Haynna busca fortalecer e dar visibilidade às mulheres (foto: Thaís Mallon/Divulgação)
 
Há mais de 30 anos, quando Lúcia Marinho começou a cantar nos bares da cidade, era preciso se impor com competência. Uma das únicas mulheres a cantar blues em Brasília, a vocalista da Lú Blues Band transitava em um ambiente exclusivamente masculino e, muitas vezes, um tanto machista. De lá para cá, a cena mudou. Não tanto quanto desejam as meninas do blues, mas o suficiente para começar a dar um novo recorte ao gênero na cidade. Mariana Coelho, Lú Blues, como Lúcia é conhecida, Haynna, Nina Molina e Mel de Souza assumem os vocais à frente de bandas nas quais procuram exercitar um protagonismo feminino no repertório, na atitude e no jeito de cantar. “Na época que eu trabalhava, me sentia muito solitária, mas, hoje, estou amando, porque as mulheres que estão no blues têm uma competência, um talento do qual tenho o maior orgulho”, garante Lú.

O Quinta essência nasceu em 2005 como um tributo a Janis Joplin. Na época, a cantora Mariana Coelho queria homenagear um dos maiores nomes do blues dos anos 1960. Três anos mais tarde, a banda abriu o repertório para incluir outras vozes femininas responsáveis por imortalizar o gênero. Sempre foi um compromisso cantar apenas canções consagradas por mulheres, mesmo quando não compostas por elas. “É nosso enfoque”, avisa a cantora, um dos destaques do projeto Talkin Blues, que leva shows e aulas sobre o gênero ao Espaço Cultural Renato Russo até 27 de julho. “Hoje as mulheres estão mais inseridas nesse meio, é um meio que se consagra também no âmbito feminino historicamente, com nomes como Big Mama Thornton, Etta James e Bessie Smith. O que estava faltando em Brasília era um empurrão, o que aconteceu. Mas já foi um meio muito mais permeado pelo masculino. E não quer dizer que seja um meio totalmente aberto ou que tenha uma paridade total dos gêneros.”

Mulheres destemidas

Mariana gosta de cantar músicas que evidenciem o empoderamento feminino. Quando monta um repertório, procura incluir canções gravadas ou compostas por mulheres destemidas. “Me baseio na conexão com a música e na história da pessoa, mais que no conteúdo da letra. Quero saber a história daquela mulher, o quão ousada precisou ser para peitar uma sociedade inteira e falar o que estava falando. É importante para consolidar essa atitude feminina no blues”, conta. O tom machista de certos clássicos não chegam a inibir a cantora. Ela pensa na desconstrução pela qual a sociedade passou nas últimas seis décadas e nas conquistas femininas mais recentes.

Nascida em uma família de músicos, Ana Molina, conhecida como Nina, fundou o Los Molinas para cantar blues. O grupo acabou no início deste ano, e a cantora se juntou ao guitarrista Rafael Stefani para fundar o Blue velvet. O caráter de lamento do blues e os temas amorosos exigem do intérprete uma presença nada suave. “Atualmente, existe todo esse movimento de empoderamento feminino e vejo que as pessoas têm se empolgado mais em escutar mulheres numa posição mais forte. Porque cantar blues não é muito passivo, tem muitas músicas que falam de questões mais fortes da vida. E esses ícones da música black antiga já trazem um discurso de bastante empoderamento feminino”, explica Nina. Quando ela pensa nas divas do blues, sempre vem uma imagem de mulheres com atitude, o que ajuda na escolha do repertório e na maneira de cantar.

Recentemente, Nina se surpreendeu com uma proposta dos meninos que formam a Blue velvet: eles deram carta branca à cantora para modificar letras caso as considerassem inapropriadas. “Eles disseram que muitas músicas que a gente vai cantar são vocais masculinos, mas que eu podia me sentir à vontade para adaptar do jeito que quisesse, não só mudando pronomes, mas palavras também. Daí, pela primeira vez atentei que talvez seja uma oportunidade de comunicar uma coisa diferente, porque muitas letras são machistas, em especial as cantadas por homens” diz.

O blues é a sofrência da black music para Haynna Jacyara Mendes e Silva. À frente da banda Haynna e os verdes, ela procura dar roupagem particular para o gênero. Piauiense de Parnaíba e radicada em Brasília há oito anos, Haynna ganhou o prêmio da secretaria de Cultura por equidade de gênero por fortalecer artistas periféricas produzindo eventos e dando visibilidade para mulheres. Com o dinheiro, gravou o primeiro disco da banda.

As 10 faixas autorais e letras em português de Haynna e os verdes falam de amor com uma perspectiva feminina, trazem questões caras à cantora e compositora. “Para mim, o blues vem como um ato de me reaparopriar do que é meu como mulher preta e periférica que canta essa música que vem da quebrada, com muita resistência. Coloco-me nesse lugar de pessoas que estão se reapropriando das narrativas e levando a música da comunidade, para o maior número de pessoas”, diz.

Outro universo

A música autoral também faz parte do repertório do Arca blues, da vocalista Mel de Souza. Mineira de Ituitaba, na capital desde 2004 e ex-aluna da Escola de Música de Brasília (EMB), ela é a responsável por fazer a banda mergulhar em um universo mais feminino do blues. Com nomes como Koko Taylor, Bessie Smith e Etta James, Mel quer ampliar o repertório da Arca, na qual ingressou há três anos. “Trazer um vocal feminino para uma banda de homens estimula os meninos a também ouvirem”, garante. “Blues feito por mulheres fala de coisas diferentes, de um outro universo. Tem um diferencial que é a alma feminina, as mulheres cantam numa outra leitura.”

Foi o amigo Frango Kaos quem aconselhou Thaise Mandalla, baterista da banda Nuggetz, a arriscar trabalho solo como cantora. Frango observou que, como entendia muito de blues, ela podia seguir por esse caminho. Mandalla passou a se apresentar sozinha, ao violão ou acompanhada de músicos convidados, até que a formação foi se sedimentando e chegou a hora de gravar. No repertório, entram canções autorais da líder da banda ou versões para clássicos obscuros como Fever (de Peggy Lee) e Chocolate Jesus (de Tom Waits), com pegada jazzy e gipsy acentuadas pelo kazzoo (tipo de apito que soa como um trompete) e, em breve, uma cigarbox (guitarra artesanal feita com caixa de charuto), ambos tocados por Mandalla.
 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade