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Correio Braziliense

A alma do black power projetada num legado de seis décadas de uma gravadora

No ano em que completa 60 anos, a gravadora Motown Records ganha celebrações por todo o mundo


postado em 16/07/2019 06:45

A alma do black power projetada num legado de seis décadas da gravadora Motown Records(foto: Fred Prouser/ Divulgação)
A alma do black power projetada num legado de seis décadas da gravadora Motown Records (foto: Fred Prouser/ Divulgação)
 
 
Num momento em que os Estados Unidos viviam um tempo de intensa segregação racial, o compositor e produtor Berry Gordy deu um passo que mudaria a cena musical negra dos Estados Unidos para sempre. Era 1959 e o empresário pegou um empréstimo no valor de
US$ 800 e fundou a gravadora Tammy Records, que depois mudou de nome para Tamla, até chegar ao título ao qual se tornou realmente conhecida: Motown Records, uma referência à classificação do município de Detroit, conhecido como “a cidade dos motores”, local de nascimento de Gordy e do empreendimento musical.

Assim que surgiu, a gravadora chegou com um conceito muito claro de ser a primeira produtora gerida por negros nos EUA trabalhando exclusivamente com artistas afro-americanos. A ideia era dar protagonismo a esses cantores e cantoras que sofriam discriminação — a segregação racial nos EUA só foi desinstitucionalizada em 1964, com lei assinada por Lyndon Johnson, que estava na presidência após a morte de John F. Kennedy.

Mais do que dar protagonismo, a Motown Records se tornou numa fábrica de produzir talentos e apresentou um novo estilo ao mercado. Misturando soul music, R&B, música gospel e funk, surgiu uma sonoridade inventiva de black music contemporânea. Para atingir o patamar de sucesso, Berry Gordy adotou um padrão de qualidade, que começava com a profissionalização dos artistas, que tinham obrigatoriamente aulas de canto e de dança, e depois passava por uma estrutura muito bem estabelecida nas canções, com letras românticas, refrões chicletes de ouvido, arranjos bem elaborados e o apoio de corais afinadíssimos ao fundo. Essa fórmula garantiu 240 hits no topo das paradas norte-americanas entre 1962 e 1971.

“Durante sua era clássica, os artistas da Motown estavam entre os mais populares, estabelecendo um padrão de excelência e sofisticação que nunca foi superado”, analisa a gravadora Universal Music em material de divulgação. A primeira banda a se tornar “a cara” da Motown Records foi a The Funk Brothers. O grupo, formado normalmente por 13 integrantes (mesmo com as mudanças de formação), foi a base da sonoridade adotada e criada pela gravadora. Depois, o selo começou a colecionar outros artistas em seu catálogo, alguns com sucessos estrondosos, como Marvin Gaye, o primeiro artista a ousar com discursos sociais indo contra os conceitos de Gordy; Stevie Wonder; The Temptations; Diana Ross; Lionel Richie, que deixou o The Commodores para se lançar de forma solo no selo musical; e Jackson 5, esse último, a cereja do bloco da gravadora, que rendeu os maiores hits e cifras milionárias.

A Motown Records deixou um legado na música black estadunidense e até internacional. Nomes de uma nova geração, como John Legend, Beyoncé, Alicia Keys e Bruno Mars, são claramente influenciados pela sonoridade peculiar da gravadora.

Celebração

No ano do aniversário de 60 anos, a Motown Records tem sido lembrada de diferentes maneiras. No Brasil, foi anunciado o lançamento do álbum Greatest hits, pela Universal Music. O material é uma compilação com 60 faixas influentes e marcantes da história da Motown, divididas em três CDs físicos, dois discos de vinil — esses com menos faixas — e uma versão digital nas plataformas, como Spotify e Deezer.

Na versão física é possível encontrar três CDs, que demonstram diferentes momentos da Motown. No primeiro composto por 23 canções, estão faixas como My girl, de Temptations; e I want you back, dos Jackson 5, que mostram a primeira fase. No segundo álbum, o momento de auge, com hits como Signed, sealed, delivered (I’m yours), de Stevie Wonder; e What’s going on, de Marvin Gaye, fazem parte da setlist, que tem 18 músicas. O terceiro e último é formado por 19 faixas mais modernas, como Upside down, de Diana Ross; Endless love, parceria entre Diana Ross e Lionel Richie; e músicas dos irmãos Jackson já em carreira solo: Let’s get serious, de Jermaine Jackson, e One day in your life, de Michael Jackson.

Em Detroit, cidade natal da Motown Records, a marca de 60 anos também está sendo celebrada. A primeira iniciativa foi uma nova exposição no Museu da Motown, localizado no complexo de Hitsville, no West Grand Boulevard, local do apogeu da gravadora dos anos 1960. Pelas redes sociais, o museu divulgou uma série de vídeos, intitulado Archive dives (Arquivos mergulhados, em tradução livre), em que revela periodicamente artefatos pouco vistos da coleção. “Este é obviamente um tremendo ano para a Motown. Nossa abordagem é celebrar seis décadas de música de artistas icônicos que saíram de Detroit”, disse Robin Terry, presidente e CEO do museu, em entrevista à agência Detroit Free Press.

O grande evento da cidade será o Motown 60 Weekend. Com duração de três dias entre 21 e 23 de setembro, o festival promoverá uma reunião entre ícones da Motown com a nova geração de artistas influenciados pelo ritmo criado pelo selo.

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