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Correio Braziliense

Rondon, pacifista e indigenista, é tema de livro, diante da grandeza ímpar

O jornalista norte-americano Larry Rohter lança biografia de Cândido Rondon, indigenista, explorador, cientista, ambientalista e pacifista, um dos grandes personagens da história do país


postado em 16/07/2019 07:16 / atualizado em 16/07/2019 18:20

Capa do livro mostra o humanista ao lado de JK(foto: Editora Schwarcz / Divulgação)
Capa do livro mostra o humanista ao lado de JK (foto: Editora Schwarcz / Divulgação)
 
 
Para Darcy Ribeiro, o marechal Cândido Rondon foi o maior de todos os brasileiros. Distinguiu-se como explorador dos trópicos, pacifista, ambientalista, antropólogo e indigenista. As façanhas desse homem pequenino, descendente de índios, recatado e bravo são inacreditáveis.

Realizou expedições que o alçaram à condição de um dos maiores exploradores da história, acima de sir Richard Francis Burton, Ernest Shackleton e David Livingstone. Criou o Serviço Nacional de Proteção ao Índio. Sustentou o lema “matar nunca, morrer se for preciso” em várias situações. Atingido por uma flechada dos índios nhambiquara, proibiu a seus soldados que revidassem. Interligou norte e sul por meio de milhares de quilômetros de linhas telegráficas.

Recebeu três indicações ao Prêmio Nobel da Paz, uma delas da parte do cientista Albert Einstein. O presidente norte-americano Theodore Roosevelt participou de uma expedição comandada por Rondon e ficou impressionado com o vigor e a resistência do marechal. Apesar de ser nome de rua, de aeroporto e de ter referências nos manuais de história, Rondon precisa ser melhor conhecido em suas múltiplas facetas.

Por isso, o jornalista norte-americano Larry Rohter, ex-correspondente do New York Times no Brasil e casado com uma brasileira, resolveu escrever Rondon — Uma biografia (Ed. Objetiva). Ele foi correspondente estrangeiro no Brasil durante 14 anos, primeiro para a revista The Newsweek e, em seguida, para o jornal The New York Times.

Basicamente, teve duas motivações. A primeira é a indignação com a leitura de livros norte-americanos que colocam Rondon como ajudante da expedição que comandou, na qual o então presidente Roosevelt participou na Amazônia. A segunda é o desejo de oferecer um retrato mais humanizado de um grande brasileiro. E, nesta entrevista, Larry fala sobre as múltiplas e fascinantes facetas de Rondon em um momento de tanto rebaixamento dos homens públicos.


Por que resolveu escrever uma biografia do marechal Rondon?
Por vários motivos, o primeiro deles é o fato de eu ter viajado muito pela Amazônia. A primeira vez foi em 1976. Fui para Porto Velho, fiquei maravilhado. Viajar naquela época foi difícil. Imagine que ele passou por lá 75 anos antes de mim. Era quase impossível viajar no interior de Rondônia naquela época. Fiquei com a impressão de um homem de uma resistência física, abnegação e dever incríveis. Quando voltei ao Rio, fiz as primeiras pequisas; ficou claro que ele jogou um papel importante do Brasil moderno. Realizou a construção física de linha telegráfica, pontes e estradas, colônias, mas no sentido simbólico também: construtor de instituições, principalmente programas de proteção aos índios. Fiquei com a ideia de escrever a biografia dele. E, finalmente, outro impulso veio do próprio jornal New York Times, quando eu estava de volta a Nova York. Saiu uma resenha do terceiro volume da biografia do ex-presidente Theodore Roosevelt e a foto que acompanhou a resenha foi da turma da expedição sentada no chão almoçando. A legenda dizia: “Theodore Roosevelt com os seus ajudantes brasileiros”. Na hora, reagi, porque sabia que Rondon era o comandante da exposição. Tanto o Roosevelt quanto o filho dele estavam lá como penetras. Disse a mim mesmo: preciso escrever para corrigir a história que predomina nos Estados Unidos e fora do Brasil.


Qual a distância entre a imagem de Rondon e a vida e a obra dele que você pesquisou?
Quando iniciei as pesquisas, sabia da coragem e da resistência física de Rondon, mas quando mergulhei na vida e na carreira dele, a minha visão ampliou. Ficou claro que, além de ser um militar de muita coragem física, era um grande cientista. Como foi dito na apresentação, depois de Oswaldo Cruz, vem Rondon. Além disso, era estadista e homem que sabia como operar tanto na selva quanto na capital, na luta política para obter os objetivos dele. Fiquei cada vez mais impressionado com a idoneidade do homem. Um homem reto, abnegado, patriota verdadeiro, se sacrificava muito para o bem-estar do Brasil.


E a ideia do livro?
Nesta altura, ganhei uma bolsa da Biblioteca Pública de Nova York. Em 2015, o Brasil estava submerso no escândalo da Lava-Jato. Os meus parentes e amigos andavam muito deprimidos, sem aquele otimismo típico do brasileiro. Aí, o ato de escrever o livro foi um presente para esses amigos e parentes. É como se eu dissesse: “O Brasil já foi capaz de produzir grandes homens, como é o caso de Rondon, não perca a esperança”. O Brasil é um país enorme com grandes recursos humanos. No momento em que parece que todas as pessoas da vida pública são corruptas ou incompetentes ou as duas coisas, é importante conhecer um grande brasileiro.


Em que medida Rondon foi o maior explorador dos trópicos e um dos maiores exploradores da história mundial, comparável a Ernest Shackleton, David Livingstone ou Francis Burton?
Bom, em todas as medidas. O número de expedições empreendidas, a extensão da exploração, o número de quilômetros viajados, o tempo da carreira militar (1890 a 1930). Em todos os sentidos, ele vai muito além dos outros exploradores. Eles se tornaram famosos por uma só expedição, enquanto Rondon fazia mais de uma vintena de expedições.


E, no Brasil, qual é o legado de Rondon?
Ele teve destaque em vários aspectos, inclusive no campo acadêmico. Foi pioneiro nos campos de etnologia, da antropologia e da linguística. Foi o primeiro a gravar músicas no campo de povos indígenas com a colaboração do seu assistente Roquete Pinto. E o primeiro a filmar os ritos e o cotidiano dos povos indígenas. No mundo do cinema se diz que o primeiro filme é Nanook, o esquimó, de Robert Flaherty, filmado em 1922 — lançado cinco anos depois. Mas os filmes de Rondon foram exibidos a partir de 1915. Também no âmbito acadêmico, não é por acaso que os lugares Levis Strauss visitou na década de 1930 são as mesmas aldeias que Rondon visitou 20 anos antes. Forneceu a base de pesquisa que Levis Strauss usa e dá uma continuidade na obra de Rondon e chega às suas próprias conclusões. E sem a obra de Rondon não teria ido a esses lugares.
No âmbito público, como oficial do Exército brasileiro e como criador do Serviço de Proteção aos Índios, que tinha como lema: morrer se preciso for, matar nunca. Rondon fez pesquisas sobre os povos indígenas, estabeleceu contato pacífico, lutou para que os povos indígenas possam ter posse da terra tradicionais. Lutou contra as forças econômicas e sociais que entravam ilegalmente no mundo só povos indígenas. Criou uma certa filosofia na obra dele que acho fundamental.

Em que sentido?
Para ele, o índio tem o direito de escolher o grau de acercamento que quer ou não com a sociedade brasileira. Se quer ficar afastado ou se integrar, ele pode. É uma decisão soberana de cada povo indígena. Neste sentido, o Estado brasileiro não manda. Os primeiros brasileiros são até independentes.

Rondon foi chamado de marechal pacifista. Não é uma contradição quando os militares são preparados para a guerra?
Parece uma contradição. Inclusive nas indicações para o Prêmio Nobel, os que haviam ganhado prêmio comentaram isso. A única campanha convencional que ele comandou foi em 1924, contra a Coluna Prestes. Fora isso, suas missões foram de construção do país e de projeto nacional. Devo destacar o fato de ele ser positivista. O positivismo de Auguste Compte prega levar o homem a uma sociedade completamente pacífica sem a necessidade de ter forças armadas. Rondon, até o fim da vida, era um positivista fiel. E, neste sentido, na perspectiva do pacifista, devo falar da missão diplomática na fronteira de Peru e Colômbia, que teria levado o Brasil a um conflito armado contra a sua vontade. Durante os 15 anos do governo de Getúlio Vargas, ele jogou um papel muito importante. Ele trabalhou muito para o Brasil não entrar na guerra ao lado dos nazistas e fascistas. Sendo positivista e francófilo, ele queria que o Brasil entrasse na guerra ao lado dos Aliados: França, EUA, Inglaterra e União Soviética.


E como é a história de que Einstein indicou Rondon para o Prêmio Nobel da Paz?
Quando Einstein veio ao Brasil fazer palestras, Rondon estava em uma missão, os dois não se conheceram. Mas em todos os âmbitos em que circulava, ele ouviu falar sempre de Rondon, conta Einstein nos diários. Morrer se preciso for, matar nunca. No Museu Nacional, Roquete Pinto, um dos discípulos do brasileiro, falou de Rondon, mostrou os filmes que a Comissão Rondon fez, falou da obra no campo, dos objetos e ferramentas que doou para o Museu Nacional. Nas sociedades científicas brasileiras também teve notícias de Rondon. Einstein saiu do país impressionado, localizei a carta em que ele indica Rondon para o Prêmio Nobel em 1925.

É muito bonito o lema de Rondon em relação aos índios: “Morrer se preciso for, matar nunca”. Mas até que ponto ele sustentava o princípio nos embates da história?
Ele foi flechado pelo povo indígena nambiquara. Os soldados dele quiseram reagir, mas ele proibiu qualquer reação violenta. Em outras ocasiões, homens foram flechados e alguns morreram. No boletim da comissão, louvava o falecido por ter aderido até o fim a filosofia de não violência. Alguns militares questionaram muito. Mas ele foi fiel às palavras.

As ideias humanistas de Rondon foram assimiladas pelo Estado brasileiro. Mas como elas se situam no governo Bolsonaro?
Sim, é importante dizer que existem certos valores rondonianos: a tolerância, o humanismo e o respeito ao meio ambiente. Foi o primeiro ambientalista e o primeiro a respeitar os povos indígenas. Depois do falecimento dele, vários governos aderiram ou não aos valores rondonianos. Ainda estamos em uma fase incipiente do governo Bolsonaro, mas acho que não podemos dizer que o governo atual abraça valores rondonianos.

 
O professor Antonio Candido dizia que os grandes homens desapareceram com o fim das utopias. O que fez de Rondon um grande homem?
Sim, o positivismo fez dele um idealista. Ele sonhava uma sociedade justa. Ele é exatamente esse tipo de homem. Do ponto de vista psicológico ou literário, temos a necessidade de ouvir e narrar histórias. No mundo moderno, as grandes aventuras épicas quase sumiram. O espaço sideral seria o novo palco. Mas a vida de Rondon é épica, no sentido de que qualquer homem reconheceria: grandes perigos, grandes desafios e grandes sacríficos.


Por que Rondon apoiou a criação de Brasília?
Eu acho que sendo mato-grossense, caboclo com muito orgulho, visava a um Brasil que não excluía o interior. Não ia ser o Brasil só da costa. Desde os primeiros anos da República, ele sonhava em ter a capital no interior do país. E alguns amigos dele participaram da expedição do Distrito Federal. Essa ideia ficou com Rondon a vida toda. Na verdade, o último ato como homem público foi apoiar o projeto de Juscelino. JK foi para pedir o apoio público de Rondon em um hotel no Rio de Janeiro.


Rondon —  Uma biografia
De Larry Rohter/Ed.  Objetiva 565 páginas.
 

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