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Correio Braziliense

Artistas lembram os 40 anos da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional

Aos 40 anos, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional chega à maturidade com três gerações de músicos e órfã da sala de concerto para a qual foi criada


postado em 21/07/2019 06:00

Em uma das apresentações no Teatro dos Bancários(foto: Guina Ferraz/Divulgação)
Em uma das apresentações no Teatro dos Bancários (foto: Guina Ferraz/Divulgação)


Em um site dedicado à cinema, uma pequena e superficial sinopse da série Mozart in the jungle, sobre o cotidiano de uma sinfônica importante de Nova York, avisa: “o que acontece nos bastidores de uma sinfônica pode ser tão cativante quanto o que ocorre no palco”. Pudera. Juntar 90 artistas virtuosos, de personalidades diferentes e egos justificadamente alimentados e obrigá-los a obedecer uma única figura de ego igualmente polpudo vai, naturalmente, gerar conflitos. Orquestras são assim. Produzem sons mágicos feitos por seres humanos que, cada um à sua maneira, também são mágicos. E imperfeitos. Claudio Santoro certamente sabia disso e estava acostumado quando juntou os 56 músicos que viriam a formar a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional naquele março de 1979.

Aquela estreia, há 40 anos, reunia os melhores instrumentistas da cidade, arregimentados graças à visão de longo prazo de Santoro e à sensibilidade musical de Levino de Alcântara, que ajudou a recrutar os talentos da Escola de Música de Brasília (EMB). É notável que, no Brasil, uma formação dessas tenha durado quatro décadas. Não é a mais antiga — a Osesp foi criada em 1954 e a OSB, em 1940 —, mas, para uma cidade cujo principal teatro está fechado há cinco anos, é algo excepcional. 

Ao completar 40 anos, o único corpo sinfônico permanente da capital perdeu a casa fixa. Quando o Teatro Nacional foi fechado para uma reforma que nunca teve início, a orquestra ficou órfã. Foi ela que, em 1980, inaugurou a casa. Desde o fechamento, o grupo ficou condenado a tocar em lugares nem sempre apropriados para uma formação de 90 músicos. Temporadas no Teatro dos Bancários, no Teatro Pedro Calmon e no Centro de Convenções foram uma forma de manter o público alimentado e os músicos em forma.

Norma Lilian, 59 anos, está na orquestra desde o primeiro concerto, realizado em março de 1979. Natural de Uberlândia, ela tinha 20 anos quando passou a integrar o corpo sinfônico, recomendada a Santoro pelo maestro Levino de Alcântara, que viera a Brasília para criar a Escola de Música de Brasília (EMB). “Foi um início maravilhoso, porque o maestro Levino identificou realmente as pessoas talentosas”, lembra Norma Lilian.

Para a flautista Beth Ernest Dias, que veio do Rio de Janeiro integrar a orquestra em 1979, o melhor momento da orquestra foi sob a batuta de Santoro. “Ele tinha um projeto grandioso que era fazer a gente tocar de tudo, um repertório que se faz no mundo todo, os grandes compositores. E quando a batuta estava na mão dele, a autoridade era tão grande do ponto de vista musical e artístico que, mesmo havendo quem contestasse, a autoridade musical era incontestável. Tinha um estofo. Na minha opinião, a grande sorte da orquestra é que ela nasceu pelas mãos do Claudio Santoro: isso deu um lastro para que ficasse viva até hoje”, acredita a flautista, que se aposentou em 2010 e faz parte, assim como Norma Lilian, da primeira geração de músicos do grupo
 
Beth Ernest Dias relembra o maestro Claudio Santoro(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Beth Ernest Dias relembra o maestro Claudio Santoro (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 

Quando Santoro montou a orquestra, contou com músicos talentosos, porém com pouca prática orquestral. Na época, esse conjunto era formado, principalmente, pelos melhores alunos da EMB e da UnB, assim como por professores. Nos últimos 40 anos, esse perfil se renovou e novas gerações foram incorporadas graças aos três concursos realizados em diferentes gestões. No último, um total de 25 novos músicos entraram para a orquestra, elevando para 90 o total de membros. “Mas ainda falta porque, só este ano, tivemos duas aposentadorias de violinistas, eu mesmo já posso me aposentar desde 2017 e vários outros podem também”, avisa Claudio Cohen, regente titular da OSTNCS. A carência maior é entre os violinos. O ideal seria que o naipe tivesse 34 músicos, embora hoje tenha apenas 22. Cohen também se esforça para diversificar o repertório da orquestra com concertos mais populares, como os dedicados a músicas de filmes e o Rock sinfônico, que ocorre no Centro Cultural Banco do Brasil no dia 27 de julho.

Nova geração


O violinista paraense Júlio Freitas voltou de Portugal para integrar a orquestra depois de passar no concurso de 2014, o mais recente. Desde os tempos do conservatório Carlos Gomes, em Belém, ele ouve falar da sinfônica fundada por Santoro, mas nunca pensou que acabaria por integrá-la. Aos 34 anos, Júlio passou a fazer parte da nova geração de músicos da OSTNCS desde o ano passado. Deixou para trás a Orquestra de Câmara Portuguesa e a Orquestra Sinfônica de Cascais em nome de uma experiência na maior herança que Santoro deixou para Brasília. “O nível artístico foi uma coisa que me chamou bastante a atenção e é uma orquestra que tem boas condições de trabalho. Os músicos são muito bons, são experientes e com formação do que há de melhor no Brasil”, garante.
 
Júlio Freitas faz parte da nova geração, que entrou entre 2017 e 2018(foto: Som que Toca/Divulgação)
Júlio Freitas faz parte da nova geração, que entrou entre 2017 e 2018 (foto: Som que Toca/Divulgação)
 

Chefe de naipe dos segundos violinos, ele conta que aprendeu a poupar tempo e a se organizar graças à dinâmica da orquestra brasiliense. “A gente apresenta um repertório diferente toda semana, então tem que organizar muito o tempo e tem que ter tudo preparado. Aprendi a antecipar todo o trabalho e a ter muito foco na hora do ensaio”, diz.

Para o percussionista Carlos Tort, 42 e membro desde 2000, passar no concurso foi um momento decisivo na carreira. “Foi muito importante essa experiência profissional. Eu já tinha preparo como músico, mas tinha pouca experiência com orquestra; então, foi um aprendizado muito grande, tanto a questão de repertório quanto a rotina de ensaios. A orquestra me permitiu amadurecimento musical”, conta. Hoje, ele comemora a nova geração que entrou entre 2017 e 2018, mas já se preocupa com futuras aposentadorias de colegas. Na percussão, são dois novos músicos. “Quando entram pessoas novas e você vê essas pessoas tocando bem, você tem outra perspectiva sobre você mesmo”, analisa.
 
O percussionista Carlos Tort entrou para a sinfônica no início do século 21(foto: Arquivo Pessoal)
O percussionista Carlos Tort entrou para a sinfônica no início do século 21 (foto: Arquivo Pessoal)
 

Quando avalia os altos e baixos da orquestra nas últimas duas décadas, Tort conclui que o momento atual é um dos piores. “Para mim, está sendo o momento mais difícil, a gente está sem teatro desde 2014 e isso prejudica muito o nosso trabalho porque não tem uma infraestrutura”, lamenta. No caso da percussão, a dificuldade é ainda maior. Os instrumentos são grandes e pertencem à instituição. Para ensaiar, os músicos precisam de uma sala especial, com acústica adequada para que possam ter uma referência sonora de qualidade. “Mas, em material humano, estamos cada vez melhores”, garante Tort.

No total, a OSTNCS teve seis maestros titulares e nem sempre as mudanças de batuta foram momentos tranquilos. A história está bem contada no Memorial feito pela violinista Clinaura Macêdo em 2009. Santoro esteve à frente do grupo em dois períodos, entre 1979 e 1981 e entre 1985 e 1989. No meio, Emílio de César assumiu a regência em um período político conturbado. Após a morte de Santoro, durante um ensaio, em 1989, Silvio Barbato foi escolhido pelos músicos para subir ao pódio e lá ficou até 1992, quando a orquestra passou a uma autogestão que muitos músicos não gostam de recordar. “Foi a única parte da história toda que não gostei”, lembra Norma Lilian.


Apenas em 1996, a batuta voltaria a ter um titular. Primeiro, nas mãos da cubana Elena Herrera, polêmica por conta do repertório recheado de compositores russos pouco conhecidos, seguida novamente por Barbato para, em 2009, ser comandada pelo norte-americano Ira Levin, que deixou o cargo após investigação do Ministério Público quanto à origem do pagamento do salário do regente. Levin era genro da deputada Eurides Brito (PMDB), investigada na Caixa de Pandora. Os chefes de orquestra estavam longe de serem unanimidades. “Eu tenho uma visão muito crítica de tudo”, avisa Beth, que aponta como golpe político a substituição de Santoro por Emílio de César. Ela lembra ainda que Silvio Barbato era muito jovem ao assumir o grupo e isso também teria gerado conflitos. “Ele ia fazer 30 anos, era uma promessa e, todas as vezes que estudou muito, brilhou”, conta.
 
Ariadne Paixão: precisa de projetos que a façam ter visibilidade nacional(foto: Arquivo Pessoal)
Ariadne Paixão: precisa de projetos que a façam ter visibilidade nacional (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
Para a flautista Ariadne Paixão, 50, membro desde 2000, a orquestra conquistou um espaço na cidade apesar das idas e vindas. “Mesmo assim, ela ainda poderia promover novos projetos como concursos para jovens compositores, maestros e solistas, para que pudessem se reinserir no cenário nacional, observa.
  

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