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Correio Braziliense

Em audiolivro, artista convida o leitor para se tornar ouvinte e andarilho

A obra foi criada para ser ouvida enquanto se passeia pela cidade, Patrícia del Rey une literatura e caminhada


postado em 21/07/2019 06:10

Patricia del Rey: convite para que o leitor se torne em ouvinte e andarilho(foto: Paula Carrubba/Divulgação)
Patricia del Rey: convite para que o leitor se torne em ouvinte e andarilho (foto: Paula Carrubba/Divulgação)

Na cabeça da artista e poeta Patrícia del Rey existe uma cidade na qual o espaço urbano permeia as relações e está diretamente ligada a histórias particulares. Nessa fusão de mundos, o concreto e o subjetivo acabam unidos pela afetividade, enquanto a literatura seria a linguagem ideal para colocar em prática essa união. Patricia tratou de fazer isso na novela Cimento fresco, concebida como uma experiência e, ao mesmo tempo, um convite para o leitor se tornar também ouvinte e andarilho.

Mais curta que um romance e mais longa que um conto, a novela se estende por 17 pontos entre as quadras 415 e 416 Norte nos quais Patrícia estampou lambe-lambes com o convite “fotografe e escute essa história”. Por meio de QR codes, o ouvinte vai acessar o site no qual está a narrativa e seguir pelo trajeto idealizado pela autora. Cada ponto leva a um novo capítulo e, no total, o audiolivro dura cerca de 1h30.

Patricia escolheu locais nos quais o ouvinte pudesse se sentar e apreciar a paisagem. A ideia é que ele possa ter uma experiência visual do cenário no qual a história se passa. “A pessoa, no caminhar, vai ser permeada pela cidade e não só pelo áudio. Uma história é feita desses caminhos, desses tempos. A ideia foi expandir, colocar o livro na rua, mas não só no papel”, explica a autora, que também planejou versões impressas do livro.

Sem controle de quantas pessoas acessarão ao audiolivro ou se terminarão o percurso, ela aposta na liberdade de imaginação proporcionada pela literatura. “A pessoa vai criar outras dramaturgias, nem sempre vai seguir essa onda que pensei. É como se fosse um grande labirinto que também está ligado aos nossos sentimentos”, acredita.

Em Cimento fresco, uma poeta passa a enfrentar situações de machismo e homofobia quando começa a se relacionar, pela primeira vez, com outra mulher. Relações de poliamor e a tentativa de reinventar fazem parte da narrativa, assim como os percalços inevitáveis na construção de qualquer relacionamento amoroso. “É um livro que fala de Brasília, das relações e da experiência na cidade, mas com foco nessa mulher que se permeia por relações que não são se situam dentro da norma heteronormativa. Sempre quis pensar um livro que falasse da cidade, das relações e que fosse espalhado pela cidade, que estivesse particularizando pontos da cidade, porque existe uma dramaturgia nos caminhos”, avisa Patrícia. A novela foi escrita em vários pontos da cidade e, como cenário, a autora escolheu pontos que sempre a atraíram, como as superquadras.

A narração ficou por conta da atriz Adriana Lodi, e o artista plástico Luiz Olivieri criou a ambientação sonora do audiolivro. “Ele interfere e cria uma trilha para cada momento do livro, isso dá uma pegada diferente, não é só o texto falado, a paisagem acompanha os momentos da personagem”, avisa a autora. O livro estará disponível a partir do dia 28 de julho, às 15h, e foi desenvolvido com verba de R$ 50 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC). Patrícia fez também uma parceria com o aplicativo Trilhas poéticas, no qual o ouvinte pode mapear a cidade e adicionar fotos e áudios enquanto segue a trilha da narrativa, que está disponível gratuitamente.

O título da novela, para Patrícia, tem uma relação profunda com Brasília. “É uma cidade nova, o tempo inteiro se reinventando, e sinto que é como se o cimento aqui estivesse fresco, então, quando você pisa nesta cidade, que é uma utopia, você vai deixando suas marcas. O livro fala da trajetória de uma personagem que segue vários caminhos tentando alcançar um lugar de plenitude”, diz.

Narrativa para que o leitor possa ser permeado pelos caminhos da cidade(foto: Paula Carrubba/Divulgação)
Narrativa para que o leitor possa ser permeado pelos caminhos da cidade (foto: Paula Carrubba/Divulgação)


Trecho de Cimento fresco, de Patrícia del Rey


Ela gostava de dançar. Costumava insistir para que a gente jogasse, aos sábados, o nosso corpo na pista movimentada mesmo com os constantes assédios hostis que recebíamos quando estávamos juntas nestes locais cercadas de álcool, substâncias ilícitas e pessoas atormentadas em dar qualquer sentido às suas breves existências. O beijo de duas mulheres numa balada era um convite pornográfico para os olhares machistas que estavam presentes no recinto, o fato de a gente ser um casal pouco importava. Nós já tínhamos sido casais de outras pessoas, digo, “mulheres de homens”, homens que tinham as suas “propriedades” respeitadas por outros homens, os mesmos que nos abordavam com olhares e falas cortantes.

Parecia que precisávamos criar uma casca dura para lidar com as insistências nojentas e a falta de respeito completo que passávamos continuamente. Quem sabe tivéssemos que nos retirar dos locais que frequentávamos para nos restringirmos aos guetos já estipulados a aqueles que passavam pelas mesmas pancadas igualitárias. Contudo isso não ocorria. Não queríamos estar à margem. Pra gente, era relevante criar um questionamento nas proximidades que habitávamos, como quando a pedra é arremessada na água parada e a partir do choque entre as duas são formados humildes círculos concêntricos que aumentam crescentemente a ressonância corajosa da pedra que terá ao fim da trajetória o fundo do poço.

A música tocava, a festa acontecia e, apesar do mundo, a gente se entregava. Também cozinhava, escrevia, trabalhava, brigava, chorava, trepava, fazia as pazes e a vida sucedia. Gastávamos o que podíamos uma com a outra: autores, restaurantes, exposições, teatros, filmes, festivais e aglomerações sinestésicas. Bolávamos viagens dentro da cidade reinventada, conhecíamos outros planos, pedalando nas bicicletas e também capturávamos os pedaços do sol antes de se despedir. Um ano, três anos, ou duas semanas, observávamos que o amor, como a morte, não compreendia um tempo mensurável em horas ou calendários.

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