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Correio Braziliense

Diretor Marcelo Gomes discute o desequilíbrio entre o labor e o ócio

Na nova produção, 'Estou me guardando para quando o carnaval chegar', diretor pernambucano fala do trabalho como agente opressor


postado em 22/07/2019 06:05

Marcelo Gomes, diretor do documentário 'Estou me guardando para quando o carnaval chegar'(foto: Beatriz Masson/Divulgação)
Marcelo Gomes, diretor do documentário 'Estou me guardando para quando o carnaval chegar' (foto: Beatriz Masson/Divulgação)


“Eu tenho tanta alegria, adiada” registra um trecho da música de Chico Buarque, em torno de certo resguardo até a folia do carnaval. É justo nesse compasso de espera, depois de muito trabalho árduo, que alguns protagonistas do documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar se esbaldaram na farra, no mais recente filme do diretor pernambucano Marcelo Gomes. Saídas da exigente produção diária do segundo polo na confecção de jeans do Brasil, os personagens redimensionam a pequena Toritama, nas memórias do diretor de filmes como Cinema, aspirinas e urubus e Joaquim, além de corroteirista de Madame Satã.

Interagindo quase sem interrupção com maquinário, muitos trabalhadores tratam de mudar o cenário da outrora cidade em que se fixou a agropecuária. “Os políticos deveriam conhecer lugares como Toritama e entender melhor todas as nuances nacionais. Algumas pessoas têm a ideia de quem vive no Nordeste, vive de Bolsa Família. Poderiam ver que é exatamente o contrário”.

Sai o lado doce das memórias guardadas do passado, e Toritama desponta como cenário distorcido de realidade, com embalo opressor. Fica parelho com a perspectiva do cineasta, para o governo atual. “Parece que vivem em campanha, e não têm como meta, por exemplo, a preservação do meio ambiente e das reservas indígenas. Também não têm muita preocupação com a educação”, opina. Confira a entrevista.

Nas descobertas feitas durante a realização, quais as que mais te impressionaram?

Queria um filme poroso, que eu ficasse contaminado de tudo o que fosse vendo em Toritama (Pernambuco). Para além das pequenas e médias fábricas, percebi a relevância das facções na produção de jeans: as facções são locais em que pessoas trabalham para elas mesmas. Surpreendi-me como elas estavam felizes com aquele tipo de trabalho. Achei maravilhoso e inesperado o jeito de perceber o quanto estão felizes em serem autônomas. Na minha cabeça, a realidade de Toritama era a da Inglaterra, no início da Revolução Industrial, com condições terríveis de trabalho — pessoas trabalhando 14 horas por dia. Reconheci, por lá, na verdade, a última faceta do neoliberalismo: há promoção de uma ideia que extrapola o trabalho visto como dever, algo distinto do estabelecimento da relação opressor/oprimido. Como patrão e empregado, simultaneamente, a pessoa se vê como algoz e vítima. Você trabalha 12 horas, por dia, ao escutar, dentro de si: trabalhe mais! Você pode fazer mais, e ganhar mais. Você vira escravo de você mesmo! Há falácia na vida melhorada, pelo maior consumo.

Há sobreposição de labuta e lazer no retrato pretendido? Notou um desequilíbrio nas situações?

Mostro o que acontece com sua vida: “trabalha para viver ou vive para trabalhar?!”. Na engrenagem, você deve produzir, produzir, e produzir mais. Trabalhadores perderam seus direitos, com as novas leis trabalhistas. Um ponto sensível está no conceito de trabalho intermitente, com estímulo aos postos autônomos. A grande questão que o filme sugere: “com as pessoas sem previdência, quais as consequências para a saúde delas?”. Como estarão, em 25 anos, as pessoas que se entregam ao trabalho por 15 horas?

O filme chega numa hora pertinente, ante às mudanças estruturais do trabalho no Brasil...

Veio a calhar, num momento histórico perfeito. Por outro lado, há o aspecto existencial. Se você quer consumir algo, e passa 10 horas trabalhando por isso, as 10 horas não voltam atrás. Além disso, por vezes, há consumo ou idealização de algo que a pessoa nem precisa. Cria-se um consumo irracional. Com reflexão, percebemos que metade daquilo comprado não era indispensável. Vida e ócio criativo podem existir. As relações sociais estão sendo liquidadas, os afetos estão se esvaindo.  Queria perceber o que mudou na memória das pessoas, em 40 anos (época em que fiz uma viagem com meu pai, pelo Nordeste), na maneira de sonharem. As pessoas hoje não têm nem tempo de conversar umas com as outras. Mal e mal têm tempo de se recuperar de uma jornada de trabalho para outra. O intervalo fica para você ganhar energia para voltar a trabalhar.

Seus filmes têm por norte viagens e paisagens distintas. Há comparação possível entre Toritama e a capital do país?

Gosto de fazer filmes sobre coisas que não compreendo. Quando descobri as pessoas do filme que vendiam tudo de casa (geladeira e fogão) para pular o carnaval, pensei: o que é isso? “Uma transgressão ao capitalismo; desespero, há outra razão?”. Fui atrás disso. O filme não traz respostas, ele levanta questões. Gosto quando dizem: “saí do filme com um nó na cabeça”. Vou sempre em busca de histórias, daí a itinerância. Gosto de coisas que me instiguem. Quero aprofundar temas a princípio desconhecidos. O contraste curioso é o de não existir a atuação do Estado em Toritama. O Estado não faz nada por aquelas pessoas. Brasília é o Estado presente, o tempo todo. Lá, em Toritama, há a autonomia completa. Isso, numa geografia urbana caótica, com população que tem vida caótica, com poluição ambiental grande, com muita violência... Brasília decide políticas sem conhecer diferenças de realidades brasileiras. Os políticos deveriam conhecer lugares como Toritama e entender melhor todas as nuances nacionais. Algumas pessoas têm a ideia de quem vive no Nordeste, vive de Bolsa Família. Poderiam ver que é exatamente o contrário.

Como manteve uma linha racional, num filme que revela tanto do seu passado?

Tentei ser o menos nostálgico possível. Não usar material de arquivo. Usei meu afeto como medida para intermediar a relação mantida com o agreste, em dois momentos distintos. Lógico que, na minha infância, convivi com um cenário completamente diferente. Naquela época, as pessoas tinham mais controle de sua vida. Não era idílico, nem perfeito, havia problemas de pobreza. Ainda assim, a vida estava mais nas mãos das pessoas. Hoje, as pessoas perderam as rédeas de controlar suas próprias vidas. A liberdade é completa falácia para as pessoas de Toritama: a vida só chega, completa, quando elas estão no carnaval. No carnaval, elas deixam de ser objetos e se tornam sujeitos.

Com realidade tão específica, como o filme despontou nos festivais pelo exterior?

Passou em vários países, sempre com uma repercussão muito boa. Há a questão do tempo que é universal, como em Toritama. Com as novas tecnologias, com as novas redes de informação, as pessoas estão conectadas, o tempo todo; mandam mensagem o tempo todo. Mandam e-mails, às 9, 10 horas da noite! Você não tem mais determinação da hora do trabalho. O trabalho invade sua vida privada, completamente. Há o processo de uberificação do mundo. Lá fora, as pessoas e identificaram muito com aqueles brasileiros de Toritama. Mesmo em locais tão completamente diferentes, eles também se perguntaram: E aí, onde acaba o trabalho?! A falta de controle é um elemento universal.

No filme, há um personagem, o Léo, que quase rouba o filme. Como foi a descoberta dele?

Em cinco minutos de conversa, vi que Léo era um personagem muito interessante. Se ele tivesse tido educação formal, teria chegado à universidade e se tornado um filósofo. Ele é um filósofo naquele mundo anacrônico, contraditório. Leó tem um saber e uma verve próprias. Cinema, aliás, é sobre singularidade. Fiquei muito feliz com a participação única do Léo. Ele traz reflexões maravilhosas — ele é nosso filósofo francês (risos).
 
 

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