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Correio Braziliense

Mulheres e meninas do DF movimentam a cena de rock´n´roll

Das mulheres do rock clássico às minas do Riot grrrls, conheça quatro movimentos femininos dentro da cena do DF, a partir da visão de quatro expoentes


postado em 23/07/2019 07:12 / atualizado em 23/07/2019 17:44

Sara Abreu comprou a primeira guitarra vendendo amendoim (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)
Sara Abreu comprou a primeira guitarra vendendo amendoim (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação)


No rock, a presença feminina é, historicamente, maior do que em outras linguagens. Ainda assim, também é um gênero muito marcado pela presença masculina. Em Brasília, no entanto, elas têm conquistado espaço e público. Por volta de 2010, a cantora Marcia Campus, cansada de ser sempre a “namorada de algum músico”, resolveu subir ao palco. Começou a fazer pequenas apresentações, uma canja aqui e outra ali, quando o seu estilo visceral de cantar passou a chamar a atenção da audiência e, logo, ela estava à frente de bandas como Red Mustang e Arcablues. Depois, chutou o balde mais uma vez e resolveu liderar a própria banda, a Campus Band.

Desde 2016, ela integra o projeto Woman in Rock, uma espécie de superbanda que reúne algumas das mais notórias musicistas do rock de Brasília para defender suas canções de blues e rock favoritas, cada qual com sua vertente. Do rock de raiz ao metal, Rosane Galvão (baixo), Lya Maria (guitarra), Mariana Camelo (teclado e voz), Nathalia Reinehr (bateria), Aline Lakiss (voz), Marcia Campus (voz), Sol Leles (voz) e Raquel Dias (voz) mostram ao público a que vieram. “No começo, não tive muitas dificuldades, só quando eu dava palpite. Com o tempo, fui ganhando respeito. O público de blues e rock, em geral, é muito respeitoso”, conta.
 
Tuttis, da banda Penúria Zero e do festival Sinta a Liga: rock que vem de Luziânia (foto: Ana Paula Coelho/ Divulgação)
Tuttis, da banda Penúria Zero e do festival Sinta a Liga: rock que vem de Luziânia (foto: Ana Paula Coelho/ Divulgação)
 
 
 
Sinta a liga

No início dos anos 2000, a vocalista Tuttis morava em Luziânia (GO) e ouvia os discos de rock clássico da coleção do pai quando, no ensino médio, começou a descobrir a cena underground do Distrito Federal por meio de CDs, fitas cassete e frequentes idas a lan houses. Bandas de punk rock e hardcore como Maltrapilhos faziam sua cabeça, mas, como era muito nova, não podia ir aos shows ali do outro lado da divisa.

Um dia, se deparou com o livro Mulheres do Rock, do Zine Oficial, de Thomaz André, que, associado à descoberta de bandas como Bonecas de Trapo, Bulimia e Kaos Klitoriano, formadas por mulheres, incentivaram a jovem Tuttis a ter sua própria banda. Em 2005, ela formou a Penúria Zero e passou a produzir os próprios eventos em Luziânia, invertendo o eixo. Pouco depois, começou a fazer o festival Sinta a Liga, reunindo as mulheres do front do underground do DF e do Entorno. “O primeiro evento que fiz foi um protesto por um amigo que tinha sido morto por homofobia, e o Sinta a liga é a mesma coisa. A única forma que eu sei de protestar é com a música”, explica Tuttis.

Bruxaria

A multi-instrumentista Sara Abreu conquistou seu lugar no mundo do rock com muito esforço. Moradora de periferias como Taguatinga e Samambaia, comprou sua primeira guitarra vendendo amendoim no semáforo, pois a mãe a proibira de fazê-lo, afirmando que guitarra e violão eram coisas de vagabundo. Conheceu as colegas de banda por meio do Orkut, tamanha era a dificuldade em encontrar meninas musicistas, e assim surgiu a Estamira, banda de hardcore/metal na qual é guitarrista. “Quando eu comecei, as pessoas negras eram sempre preteridas no rolê. Para mim, é uma questão de representatividade. A arte não tem como ser só uma coisa bonitinha. Tem que ser revolução, é uma forma de protesto, de colocar a cara a tapa pelo que a gente acredita”, afirma Sara.

Sara observa que, desde aquela época, as coisas melhoraram, mas ressalta que mudam muito lentamente. Há um ano está procurando musicistas negras para formar um projeto de rapcore. Em 2016, Sara e as garotas da cena de metal e hardcore passaram a organizar o festival Bruxaria, cuja premissa é ter apenas mulheres em todas as etapas de produção: da bilheteria e da técnica até a fotografia e as bandas.

Riot Grrrls

A baixista e vocalista Arthemys faz parte da mais nova geração do underground feminino brasileiro. Em 2018, tocou no elenco do festival Bruxaria com a recém-formada Brutal Mary, que mantém viva a chama do movimento punk feminista Riot Grrrl. Aos 15 anos, Arthemys já tinha uma banda, com a qual tocava todo fim de semana e ganhava algum dinheiro.

Pouco depois, decidiu formar uma banda só com meninas e, para encontrar as demais integrantes do grupo, fez um post no Instagram. Um amigo em comum marcou a guitarrista Ana e, desde então, as meninas têm feito muito barulho juntas. Estão gravando a primeira demo que será lançada em agosto, em show com as potiguares da Demonia. As meninas estão à frente também de um grupo de garotas que tocam e se reúnem para fazer jams e trocar informações. “Recentemente, admitimos um garoto, pela primeira vez. Eu vi que minha banda de minas ia acabar e fiz essa concessão, mas só topei porque o número de minas é majoritário”, diz Arthemys.
 
* Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco. 
 

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