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Correio Braziliense

Multipremiado, diretor Fatih Akin fala ao Correio sobre criminoso no cinema

Valorizado em Veneza, Cannes e Berlim, o cineasta Fatih Akin disseca O bar Luva Dourada, em cartaz no DF, com exame de assassino em série


postado em 23/07/2019 07:40 / atualizado em 23/07/2019 14:45

Diretor agraciado nos festivais de Veneza, Cannes e Berlim, Fatih Akin fala sobre o filme centrado em serial killer(foto: John MacDougall/ Divulgação)
Diretor agraciado nos festivais de Veneza, Cannes e Berlim, Fatih Akin fala sobre o filme centrado em serial killer (foto: John MacDougall/ Divulgação)

 

O bar Luva Dourada: com o polêmico filme em cartaz na cidade, o diretor alemão Fatih Akin concorreu ao Festival de Berlim, sacramentando uma trajetória premiada, em prestígio grande que já rendeu troféus em festivais como os de Veneza e Cannes, além de Berlim. Com carreira iniciada em 1995, aos 45 anos, Fatih alcança o décimo longa. Em entrevista exclusiva para o Correio, o filho de imigrantes turcos — que já levou o Globo de Ouro de melhor filme, com Em pedaços, em 2018 — fala do novo filme que envolve morte de prostitutas, violência desregrada e degeneração completa de um protagonista, que, sim, existiu, e assombrou a Hamburgo (Alemanha), dos anos 1970. Morto em 1998, Fritz Honka foi o seu nome.


O Bar Luva Dourada
Sempre busco cutucar a ferida: tenho a sensação de quando vou acertar, dou o pontapé com uma obra. Encaro os filmes com os sentimentos. Lia o romance escrito por Heinz Strunk (que deu base a O Bar Luva Dourada), enquanto preparava Em pedaços (longa vencedor do Globo de Ouro de melhor filme, ano passado). Interessei-me demais pela temática. Fiquei tentado de ver se, como real desafio, eu alcançaria a possibilidade de transcrever para a tela todo aquele conteúdo. Teria eu a capacidade? Sou cineasta o suficiente para lograr o êxito? Gosto realmente de trabalhar com o Jonas Dassler (do longa Nunca deixe de lembrar). Gosto, na verdade, de encarar mudanças no que seja esperado de mim, como artista. O bar Luva Dourada não foi um filme muito caro de ser realizado e pude contar com minha equipe regular.

Genet e Fassbinder
Claro que li muito do que foi escrito por Genet. Li-o na minha juventude e acho que esse tipo de leitura é o que traz mais profundo impacto na vida de qualquer leitor. Genet, Louis Ferdinand Céline, William S. Burroughs, Charles Bukowski, Jack Hoffman (de Run run run) e, claro, Fassbinder exerceram muita influência no meu trabalho. Revi muitas obras do Fassbinder por ter obsessão em recriar com autenticidade os anos de 1970 que ele tão bem representou e que dão estofo para O bar Luva Dourada. Para revelar a Alemanha do período a melhor chave para as artes germânicas, no pós-guerra, ficara a cargo de Fassbinder. A fim de atingir as cores do período, revi bastante, em especial, O mercador das quatro estações (1972). Muito do sumo do meu filme saiu deste filme: é uma espécie de o O Poderoso Chefão ante o que eu pretendia.

Lars von Trier
De verdade, não tenho e nem pensei em comparações. Eu até tinha ouvido que von Trier estava fazendo um filme sobre um serial killer (A casa que Jack construiu) — até hesitei em fazer meu filme; daí disse: quem se importa! Há, por exemplo, uma cadeia sistemática de filmes de terror, e as pessoas seguem prestigiando nas bilheterias. Às vezes, adaptam até os mesmos livros, simultaneamente! Tive a certeza de que eu faria meu filme completamente diferente. Além da estética, perseguimos motivações diversas. Foi coincidente ainda o fato de ter conhecido Matt Dillon (astro de A casa que Jack construiu) justamente enquanto eu filmava meu longa. Dillon tinha acabado de chegar de Cannes. Fiquei amigo dele. Lars e eu somos da mesma geração de cineastas. Eu era um tanto mais jovem e admirava bastante o filme de Trier. Ondas do destino e Melancolia seriam dois entre 10 filmes que eu levaria para um recolhimento para ilha isolada. Adoro as mulheres do universo do Lars. Eu faria qualquer coisa entretanto para realizar um filme de serial-killer com uma pegada muito diferente da de Lars.



Preparação dos atores
Há, sim, um momento em que uma das personagens reage à violência, dando um chute no saco do agressor. Ela atinge o protagonista na masculinidade. Não quis com o filme a representação de um pervertido, ao enfocar o criminoso. Ele não mata as pessoas, pelo fato de ter ereções, de estar excitado: é justamente o contrário. Ele mata as mulheres exatamente por ser incapaz de ter ereções. Ele joga no campo das frustrações sexuais.

Tabu da mutilação
Não há necessidade de alguma mulher mutilá-lo em busca de vingança: ele está mutilado, desde o princípio do filme. Alertei o ator de que seria necessário que o público notasse esta incapacidade de manter ereções. Ele me disse que não tinha o menor problema de mostrar o pênis na tela, mas que o grande problema estaria justamente se, ao rodar a cena, ele de fato ficasse completamente ereto. Precisava dele meia-bomba.

Pé na cozinha
Lidar com comida e cozinha é algo extremamente visual e desperta este sentido. Preparar comida é algo feito por todos, e traz uma intensidade sempre, daí ser atrativo: estar na cozinha é belo, visualmente. Quanto ao dado da violência, gosto de filmes do alemão Michael Haneke (Amor e Caché) e de Lars von Trier, gosto de filmes coreanos. Não vejo O Bar Luva Dourada como um filme pesado. Na verdade, ele se dedica a mostrar a verdade: minha percepção e ênfase visual acerca do cinema é difícil de ser verbalizada. Acho que o cinema tem que trazer densidade nas discussões. O cinema deveria ser físico, junto ao público: machucá-lo, tocá-lo, deveria te agredir. Deveria ser algo para gerar interatividade com o público. Mas essa idealização tem me deixado muito solitário na estrada. Vejo o triunfo da comédia, dos filmes da Marvel. O cinema deixou a telona: migrou para as plataformas digitais. Lugares onde não se nota a radicalidade salta na telona do cinema. Espero estar errado quanto a isso, mas vou insistir no tipo de material que produzo.

Filho de turcos
Do outro lado, The cut e Contra a parede — filmes como esstes mostram que há alguns anos trato do universo turco. Mas se posso fazer um filme como O bar Luva Dourada, ele se mostra igualmente importante. Tornei-me um nome globalmente conhecido pela repercussão dos meus primeiros filmes, que tinham traços das raízes culturais dos meus pais. Eram filmes atrelados a minhas questões étnicas. Com The cut (2014), atingi o máximo. Em pedaços (2017) não faz parte mais desta fase. O racismo não é um tema que deixe a mim apenas em estado de alerta: deve ser uma preocupação de todos os alemães. A personagem de Em pedaços era casada com um turco. A mistura traz o lado da miscigenação que é comum aos alemães. Colocar essa perspectiva de entender como um tema (o racismo, em Em pedaços) — e isso de fato aconteceu junto à parte da crítica — aí, sim, denota um racismo. Agora, com o O bar Luva Dourada, não busquei heranças culturais. Mas as pessoas não querem perceber isso: insistem em ver a trajetória do diretor empenhado em mostrar o filme da muçulmana que foge de casa (Contra a parede).
 

 

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