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Correio Braziliense

A febre é o filme da brasileira Maia Da-Rin, diretora destacada em Locarno

Festival de Locarno segue até o próximo dia 17, entre as atrações do festival suíço está o filme da brasileira Maia Da-Rin que propõe fita centrada em questões indígenas


postado em 13/08/2019 07:02

A diretora brasileira acredita na necessidade de mais produções atidas a questões indígenas(foto: Massimo Pedrazini/ Divulgação)
A diretora brasileira acredita na necessidade de mais produções atidas a questões indígenas (foto: Massimo Pedrazini/ Divulgação)

 

Locarno (Suíça)

 

Maia Da-Rin, cujo sobrenome nada comum, é carioca de origem italiana, levou ao Festival Internaciona de Locarno o filme A febre, que trata, ao mesmo tempo, da integração do indígena na sociedade e da a liberdade de retornar às suas origens na floresta e também de continuar vivendo segundo as tradições ancestrais num contato direto com a natureza.

 

“A febre é um filme que conta a história de duas gerações, um pai e uma filha que vivem em Manaus, uma cidade que cresceu muito nos últimos anos. Uma cidade que tinha 200 mil habitantes nos anos 1960 e hoje tem dois milhões. Cerca de 80% da população do Amazonas vive em cidades, uma população muito urbana, que me interessou contar uma história que se ambientasse nessa paisagem”, destaca Maia. O Festival de Locarno ocorre até dia 17.

 

ENTREVISTA / Maia Da-Rin

 

O filme é sobre a preservação da tradição indígena, mas também sobre a integração dos indígenas na sociedade, com a filha do personagem principal, qualificada para fazer medicina em Brasília. Estamos vivendo atualmente no Brasil uma situação dramática, onde o governo quer integrar os índios à força e eliminar os que não se integrarem, como vê essa situação?

 

Esse projeto não é novo, ele vem da época da ditadura militar, projeto integracionista, pelo qual os indígenas deveriam ser assimilados à identidade nacional. Na verdade, havia outros interesses por trás desse discurso de integração. Era o interesse do agronegócio de abrir as reservas indígenas e também para se explorar os minérios. Existe um interesse econômico muito forte por trás do discurso de que somos todos iguais e que os índios não se diferem dos outros brasileiros. Isso preocupa muito, porque toca no fim de direitos alcançados com muita luta e incluídos na Constituição de 1988 e agora ameaçados.

 

O filme é falado em tucano, um dos idiomas indígenas. Então, será legendado em português?

 

É falado em tucano e em português. Os diálogos em tucano serão legendados. Há cenas que deixam bem visíveis a questão do desmatamento da Floresta Amazônica... São interesses muito fortes. Faz parte da história das Américas. Os interesses econômicos estão sempre na frente, movendo tanto os projetos sociais como os econômicos. Os dados oficiais do desmatamento neste ano são quatro vezes maiores que as dos anos anteriores. A situação se torna preocupante. As reservas indígenas estão ainda preservadas, e isso as torna muito mais importantes, porque elas são o lar onde vivem diferentes povos brasileiros, com suas culturas e seus idiomas. É muito importante que esses povos tenham o direito de viver com suas línguas e culturas.

 

Como vê a situação da Ancine e a ameaça de filtro ou censura prévia para os filmes brasileiros?

 

Vivemos uma situação preocupante com as declarações de Jair Bolsonaro sobre a Ancine, sobre filmes que não devam mais ser realizados ou que a Ancine não deva mais permitir a realização de filmes que não vão mais na linha dos bons costumes. Vivemos isso no Brasil e sabemos do que se trata. Mas não é só a Ancine, há muitas áreas da cultura que estão sendo ameaçadas.

 

 

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