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Correio Braziliense

Questões cruciais do feminismo estão em livros que derrubam preconceitos

Feminismo no cotidiano, O livro do feminismo e O momento de voar são títulos que tratam do tema


postado em 13/08/2019 06:33 / atualizado em 14/08/2019 16:23

Professora de estudos de gênero, Hannah McCann: consultora do 14º obra da coleção da Globo Livros em que faz um resgate histórico das lutas das mulheres(foto: Arquivo pessoal)
Professora de estudos de gênero, Hannah McCann: consultora do 14º obra da coleção da Globo Livros em que faz um resgate histórico das lutas das mulheres (foto: Arquivo pessoal)
 
 
Feminismo, palavra que causa diferentes sensações. Há quem entenda que se trata de um movimento e de uma expressão para retratar as diferentes lutas diárias das mulheres no mundo, que vão desde o direito ao voto, conquistado há alguns anos, até o constante e atual enfrentamento para a igualdade salarial no mercado de trabalho. Mas ainda há quem associe o termo a algo ruim ou pejorativo. Com a missão de atender esses dois grupos derrubando estereótipos e se debruçando em explicações chegam às livrarias brasileiras três lançamentos literários que têm o feminismo como tema.
 
Dois deles fazem parte de coleções quase didáticas: O livro do feminismo, da Globo Livros, que anteriormente abordou temas como política e ciência, e Feminismo do cotidiano, da jornalista Marli Gonçalves, o segundo da coleção da Editora Contexto que abriu a série abordando a filosofia. O terceiro é uma espécie de biografia da norte-americana Melinda Gates, presidente da Fundação Bill e Melinda Gates, que mostra nas páginas como o trabalho com o marido, Bill, na Microsoft, a fez entender sobre as questões feministas.
 
O livro do feminismo é o 14º lançamento da coleção da Editora Globo. Logo na apresentação, escrita pela colaboradora Lucy Mangan, jornalista e escritora britânica, a obra explica exatamente a sua missão: “Há muita ignorância, assim como estereótipos, hostilidade e pura confusão. O único modo de combater todas essas coisas é garantido maior informação. Para preencher com fatos o vazio que permite que medos, dúvidas e preconceitos se instalem. (...) Esse livro explica o feminismo por todos os ângulos e rechaça a ignorância em cada página. Também desempenha uma segunda função vital: dar às mulheres uma noção particular do seu lugar na história”.
 
Em mais de 300 páginas, a produção faz um apanhado histórico do movimento, contando desde as primeiras citações, que ocorreram em 1700, quase 200 anos antes de o feminismo ser considerado uma corrente, até a atual quarta onda, ainda em curso na sociedade. Para reunir uma pesquisa tão elaboradora, o livro conta com diferentes autoras em uma equipe formada apenas por mulheres com nomes como da professora de estudos de gênero da Universidade de Melbourne, Hannah McCann, que é a editora consultora do livro. “Os colaboradores da edição são profissionais com os quais trabalhamos frequentemente. Neste caso, foi natural que todas as pessoas envolvidas no projeto — com exceção do editor responsável pela coleção — fossem mulheres”, conta a assistente editorial Lara Berruezo em entrevista ao Correio.
 
Com autoras de diversas nacionalidades e com diferentes experiências, o livro tem dois capítulos escritos por uma brasileira, feitos especialmente para a edição lançada no Brasil. “A consultora (brasileira) escolhida para esta obra, Beatriz Accioly Lins, é antropóloga com pesquisa em andamento sobre gênero e sexualidade, com foco na Lei Maria da Penha. Sob sua redação constam dois capítulos exclusivos para a edição do livro no Brasil — um deles justamente sobre Maria da Penha”, destaca o editor Lucas de Sena Lima.
 
Marli Gonçalves: maior força para o feminismo(foto: Arquivo pessoal)
Marli Gonçalves: maior força para o feminismo (foto: Arquivo pessoal)
 
 
“As pessoas têm que parar de achar que feminista é a mulher toda cheia de pelos, de que feminismo é xingamento. O movimento feminista ficou muitas vezes escanteado. A gente sempre tem que esperar, ficar na gaveta. Mas o feminismo é muito simples, é isso aqui que a gente vive todo dia. É fundamental esse movimento das mulheres dando as mãos”
Marli Gonçalves, jornalista e escritora 
 
 
A ideia desse conteúdo exclusivo para o público brasileiro veio durante o processo de criação do material. “No início da produção, com a estrutura definida, eles (a editora inglesa, responsável pela produção da coleção) nos consultam para opinar sobre os tópicos. Quando o texto final chega em nossas mãos, efetuamos uma leitura ao lado de um especialista para analisarmos se há algum tipo de adaptação necessária ao nosso leitor, ou algum capítulo exclusivo que possa ser desenvolvido”, completa Lara.
 
Com um texto acessível, fácil e que referencia pensadoras, historiadoras e ativistas, O livro do feminismo divide o tema em seis grandes assuntos, separados por período histórico, que dão norte aos capítulos: o nascimento do feminismo (século 18 e início do 19); a luta por direitos iguais (1840 a 1944); o pessoal é político (1945 a 1979); a política da diferença (anos 1980); uma nova onda emerge (1990 a 2010); e combatendo o sexismo nos dias de hoje (2010 em diante). “Acreditamos que nossa coleção possa contribuir para o debate atual com o que há de mais recente no pensamento sobre as áreas abordadas. Desta forma, ela se propõe a ser o mais atualizado possível sobre a história do pensamento feminista”, analisa o editor Lucas de Sena Lima.

Contexto brasileiro

A jornalista Marli Gonçalves fez um trabalho similar em derrubar clichês e mitos em Feminismo no cotidiano — Bom para mulheres. E para homens também..., da Editora Contexto, que está disponível para venda nas lojas físicas e on-line e terá um lançamento oficial em 20 de agosto na capital paulista. Em 160 páginas, a ativista fala sobre a vida das mulheres no Brasil para retratar o feminismo como um todo. “Ele é um livro muito simples. Quis falar do dia a dia do Brasil, do sistema de saúde, das leis que existem e não são cumpridas, do comportamento machista que é preciso modificar. Não fico citando autores, sentei e escrevi. Falo do feminismo, de onde ele veio, onde ele está, das diversas nuances que ele têm”, completa.
 
Escrever a obra foi um convite recebido por Marli, que é editora do site Chumbo gordo e integrou o primeiro jornal feminista do país Nós mulheres. Depois de lançar Filosofia do cotidiano — Um pequeno tratado sobre questões menores, de Luiz Felipe Pondé, a publicação decidiu que o feminismo seria o tema para o segundo livro da coleção. Daí veio o nome da paulista, que tem envolvimento com o movimento feminista desde a adolescência. “Fui muito livre, falei do feminismo que eu vivo desde 1975, quando ainda estava na faculdade. O mais triste é perceber que, em 2019, houve avanço, mas as mulheres ainda passam pelos mesmos problemas o tempo inteiro. É uma luta constante, por isso tem muito a ver com o nosso cotidiano”, afirma.
 
Saúde, direitos reprodutivos, violência contra a mulher, depressão e feminicídio são alguns dos temas abordados por Marli, que, fez questão de fazer uma obra que fosse acessível tanto aos homens quanto as mulheres. “O feminismo é a luta pela igualdade. Se os homens não conheceram a luta, eles não vão entender. As pessoas têm que parar de achar que feminista é a mulher toda cheia de pelos, de que feminismo é xingamento. O movimento feminista ficou muitas vezes escanteado. A gente sempre tem que esperar, ficar na gaveta. Mas o feminismo é muito simples, é isso aqui que a gente vive todo dia. É fundamental esse movimento das mulheres dando as mãos. Então eu quis trazer o simples para ser compartilhado, para as pessoas pararem para ler o que as mulheres têm a dizer”, comenta a jornalista.

Vivências que mudam

A norte-americana Melinda Gates demorou para se admitir feminista. A presidente da Fundação filantrópica Bill e Melinda Gates precisou rodar o mundo vendo diferentes repressões sofridas pelas mulheres para, de fato, se enxergar feminista. É isso que a ex-funcionária da Microsoft compartilha no livro O momento de voar — Como o empoderamento feminino muda o mundo, da Editora Sextante. Em um dos capítulos do livro, ela fala sobre o assunto que a motivou a escrever a obra: “Vinte e dois anos depois (da primeira vez que perguntaram se ela era feminista), posso dizer que sou uma feminista convicta. Para mim é muito simples. Ser feminista significa acreditar que toda mulher deveria poder ter voz própria e buscar a realização de seu potencial. Também significa que mulheres e homens deveriam trabalhar juntos para derrubar barreiras e acabar com os preconceitos que ainda impedem o avanço das mulheres”.
 
Dessa convicção, Melinda escreveu o livro, em que divide com o leitor como o trabalho filantrópico a modificou e a levou a entender as diferentes perspectivas femininas. Por meio de histórias de pessoas com quem conviveu e das próprias experiências, a autora aborda a importância de métodos contraceptivos na saúde, no planejamento familiar e na vida das mulheres — a principal causa da morte entre jovens de 15 a 19 anos em todo mundo é o parto, como mostra o livro —; as ações que combateram o trabalho não remunerado (que faz a mulher ter barreiras para avançar e aumenta a desigualdade) e o casamento infantil; a luta pela presença das meninas nas escolas, nas universidades e no mercado de trabalho, além de compartilhar o que ela mesma viveu ao integrar um meio majoritariamente masculino: a informática. 
 
Para Melinda, repartir esse tipo de conhecimento é o que leva ao empoderamento feminino, como ela diz no capítulo Minha grande ideia que faltava: investir nas mulheres. “Há alguns anos, na Índia, visitei grupos femininos de autoajuda e percebi que as mulheres empoderavam umas às outras. Vi mulheres elevando uma às outras. E vi que tudo começa quando as mulheres passam a conversar entre si”.


Três perguntas // Lucas de Sena Lima, editor, e Lara Berruezo, assistente editorial, de O livro do feminismo
 
Ao longo dos anos, a coleção lançou livros sobre diversos assuntos e agora vem a edição sobre feminismo. Qual foi a motivação para agora abordar a temática?
 
Sena Lima
A coleção As grandes ideias de todos os tempos aborda não só as ciências, mas também as diversas áreas do saber e das artes, fornecendo um conhecimento basilar sobre os assuntos. O feminismo, que pode ser estudado dentro da filosofia, da política, da sociologia etc. é um campo de discussão proeminente no debate atual. Com a intenção de contribuir para a qualidade do debate de ideias, resolvemos publicar esta obra.

O livro traz a abordagem da quarta onda, apesar de não ser tão aceita pelos sociólogos. Então, como foi incluir um movimento ainda tão recente?
Lara Berruezo
Acreditamos que nossa coleção possa contribuir para o debate atual com o que há de mais recente no pensamento sobre as áreas abordadas. Desta forma, ela se propõe a ser o mais atualizado possível sobre a história do pensamento feminista.

Para vocês, qual é a importância da coleção tratar agora de um assunto tão atual e importante, como o feminismo?

Sena Lima
As pautas identitárias todas estão em discussão, e o feminismo entre elas. Além disso, percebemos que esta é uma pauta transversal, ou seja, que perpassa diferentes lados do espectro ideológico. E como se trata de um material informativo de fácil leitura e repleto de diagramas, boxes e infográficos, queremos que o conteúdo seja lido por todos os perfis de leitores, não importa a classe, a ideologia, ou mesmo o gênero.

SERVIÇO

Feminismo no cotidiano — Bom para mulheres. E para homens também...
De Marli Gonçalves. Editora Contexto, 160 páginas. Preço: R$ 33 (versão impressa) e R$ 28 (e-book).

O livro do feminismo — As grandes ideias de todos os tempos
Vários autores. Colaboração: Hannah McCann. Tradução: Ana Rodrigues. Globo Livros, 352 páginas. Preço: R$ 59,90.

O momento de voar — Como o empoderamento feminino muda o mundo
De Melinda Gates. Tradução: Alves Calado. Editora Sextante, 240 páginas. Preço: R$ 39,90 (versão impressa) e R$ 24,99 (e-book).
 

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