Publicidade

Correio Braziliense

Filme local estreia no Festival de Gramado com enfoque na violência social

Filme do diretor brasiliense Iberê Carvalho, O homem cordial abre a mostra competitiva do Festival de Gramado, e coloca no centro das discussões o justiçamento social


postado em 14/08/2019 07:05 / atualizado em 16/08/2019 19:23

Os irmãos Iberê e Maíra Carvalho no set: nem tudo é um mar de rosas(foto: Marcello Vitorino/ Divulgação)
Os irmãos Iberê e Maíra Carvalho no set: nem tudo é um mar de rosas (foto: Marcello Vitorino/ Divulgação)

 

O filme brasiliense O homem cordial, que, na próxima sexta, abre a mostra competitiva do Festival de Gramado (RS), tem música e um tom de enredo no qual pesa a agressividade. “Não temos ideia de como vai chegar no público”, conta Maíra Carvalho, a produtora e responsável pela direção de arte do longa assinado por um dos irmãos dela, o diretor Iberê Carvalho (do multipremiado O último cine drive-in). Junto com os curtas Invasão espacial (de Thiago Foresti) e O véu de Amani (de Renata Diniz), O homem cordial traz uma amostragem do sucesso recente alcançado pelo cinema da capital no circuito dos festivais de cinema.

 

“Estamos na hora de colheita. É tudo resultado da política de fomento para as artes, implantada há muito tempo no Brasil. O momento é muito interessante, a gente percebe que o retorno em cinema pode não ser imediato, mas chega. Com o Fac (Fundo de Apoio à Cultura) e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) podemos produzir filmes com mais recursos. É o resultado de uma política nacional, criada há 14 anos. Antes, se contava com o Fac, e agora, cerca de 30 % de todos os editais de cinema trazem a inclusão das regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste (o chamado Conne)”, explica Maíra, que chegará à Serra Gaúcha tendo nas mãos o prêmio Kikito, vencido há quatro anos por O último cine drive-in.

 

“O filme O homem cordial traz o oposto do que foi visto em O último cine drive-in, em todos os sentidos”, comenta Maíra. Saem a delicadeza do retrato da retomada da relação entre um pai e filho, com resgate de um amor incondicional, sai a simplicidade e há aumento no risco da carga dramática. Na trama, se afirma uma encruzilhada para o personagem Aurélio (Paulo Miklos), aos 60 anos, petrificado pela reação de uma plateia de show investida de ódio gerado por fator político.

 

Execrado pela repercussão de um vídeo, ele desperta o interesse de uma jornalista empenhada pela busca da verdade, no exame da origem do material que traz contexto violento. “O filme tem 90% das imagens em noturnas, com câmera na mão. Reina um clima de intolerância e de ódio, não é nada solar, brinco que é um filme lunar, mas energético”, explica Maíra, uma das produtoras. Thalles Cabral, Murilo Grossi, Bruno Torres, Fernanda Rocha, André Deca e a rapper MC Sofia estão no elenco.

 

Além do irmão Iberê, Maíra contou com a parceria profissional da irmã Jana Ferreira, designer gráfica do longa-metragem. “Há o amor enorme, mas nem sempre trabalhar junto é fácil — há o lado bom da confiança plena, mas intimidade em excesso pode ser prejudicial”, avalia a diretora de arte, há 17 anos ligada profissionalmente ao irmão. Rodado em São Paulo, “pela necessidade de um cenário de metrópole com arranha-céus e intensidade de vida”, O homem cordial ainda serviu de ponte para maior internacionalização dos profissionais de Brasília: conta com a colaboração de Pablo Stoll, celebrado roteirista uruguaio.

 

“O mercado do audiovisual está longe de ser o de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas temos tido investida em qualidade nos filmes que dá saltos pelo know kow adquirido”, conta Maíra Carvalho. Em Cuiabá, depois de 11 anos sem filmagens de longa, ela (que participou do recentemente premiado Teoria do ímpeto) foi acionada para a equipe de Loop, de Bruno Bini. Com filmes como Marés, A espera de Liz e New Life S.A. no currículo, Maíra comemora outro flanco de internacionalização: com Ecos do silêncio, tomou parte, com o diretor André Luiz Oliveira, de circuito de coprodução entre Índia, Argentina e Brasil.

 

 

Três perguntas // Iberê Carvalho

 


Seu filme explora o agravamento do linchamento público. Qual a grande perda humana, entre tantos justiçamentos empreendidos pela sociedade?

 

A grande tragédia que todo esse processo de descrença nas instituições e de institucionalização da violência que estamos vivendo é sem dúvida o do extermínio de jovens negros da periferia. Ainda em 2015, quando iniciei a pesquisa para o filme fiquei horrorizado com a quantidade de vídeos de casos de linchamento que é possível encontrar na internet. Todos com grande requinte de crueldade e em que os autores se justificavam pela culpa do agredido. Não existe pena de morte em nosso código penal, e se existisse seria necessário um julgamento. Linchamento não é e nunca foi um ato de justiçamento. É barbárie. Quando estávamos gravando o filme ocorreu um caso terrível aqui em Brasília, (muito parecido com o que ocorre no filme) durante um show no Parque da Cidade. O Vitor Martins Melo, de 17 anos, foi linchado até a morte após ser ser acusado de ter roubado um celular. Lembro que as notícias nos jornais locais estampavam em suas manchetes que ele era inocente e tinha sido confundido com os verdadeiros ladrões. O escândalo dos jornais não era um menino ter sido linchado, mas o fato de terem linchado um inocente. Ora, quer dizer que se ele tivesse roubado o celular isso de alguma maneira justificaria sua morte? Esse discurso é muito perigoso e de alguma maneira ajuda a normalizar o absurdo. É preciso que voltemos, e a mídia tem um papel fundamental nisso, a nos horrorizar com a violência, com o absurdo de em pleno século 21 ainda termos linchamentos, milícias e homenagens a torturadores.

 

A justiça tem funcionado no Brasil?

 

Acho que nunca houve uma verdadeira democracia no Brasil. Somos um país extremamente desigual, uma herança terrível da escravidão que até hoje não conseguimos superar. Temos mais de 50% de nossa população exercendo atividade semiqualificada. Junto com essa desigualdade, herdamos também um ódio de classe patológico que tem se transformado em política de governo, agravando ainda mais a desigualdade. Depois da redemocratização vivemos um curto período de crença de que havia uma certa autonomia dos Três Poderes de forma a garantir alguns preceitos democráticos. Desde 2016, está cada vez mais claro que a Justiça na verdade tem atuado apenas para a manutenção de uma histórica relação de poder.

 

Que agenda acredita ser relevante para discussão em Gramado? Vocês estão mobilizados para algum movimento?

 

Acho que é inevitável e urgente que todos que trabalham no audiovisual nesse país se posicionem de forma firme e didática para qualificar e aprofundar o debate a respeito das políticas públicas de fomento ao setor. E Gramado é uma baita vitrine para esse debate. É preciso aproveitar toda oportunidade para informar as pessoas que o setor do audiovisual brasileiro injeta mais de R$ 25 bilhões por ano na economia (mais do que a automobilística e farmacêutica). São mais de 13 mil empresas, mais de 300 mil empregos (superando o setor do turismo). Para cada R$ 1 real investido pelo Estado, o audiovisual gera um retorno de R$ 2,6 reais em impostos. O FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), maior fonte de recursos do audiovisual brasileiro, é abastecido por um imposto que é do próprio setor audiovisual. Ou seja, não é recurso do imposto pago pelo contribuinte. Todos os países grandes investem no seu próprio audiovisual. Sabem que é um setor estratégico, não apenas para formação de uma identidade nacional, mas porque a nossa própria cultura é a única coisa que apenas nós podemos vender. É um de nossos bens mais preciosos.  

 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade