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Correio Braziliense

Conheça Kobra: um dos grandes nomes da arte de rua no mundo

Apesar da fama, ele não esquece a origem num bairro pobre de São Paulo


postado em 14/08/2019 07:00

(foto: Brenda Turteltaub/Divulgação)
(foto: Brenda Turteltaub/Divulgação)


Nos últimos quatro anos, Eduardo Kobra, paulista do Jardim Martinica, bairro pobre da zona sul de São Paulo, circula pelo mundo. Dos 12 meses do ano, ele passa oito viajando e quatro na capital paulista. Em 2019, inclusive, o artista de rua, muralista, brasileiro e perfeccionista com o trabalho bateu o recorde de convites internacionais: 40 diferentes países desejavam ter, em suas ruas, o olhar humano, muitas vezes colorido, do artista.

Entre julho e agosto, Kobra esteve em duas cidades norte-americanas: New Orleans e Buffalo. Na primeira, ele realizou uma obra, com 13 metros de altura por 12,65 metros de largura, sobre o cantor e trompetista Louis Armstrong. Uma homenagem ao músico e grande ícone de jazz no contexto de seu aniversário.

Em Buffalo, mais uma surpresa para o muralista. “Foi um museu que me convidou, um dos seis mais antigos dos Estados Unidos — a Albright-Knox Art Gallery. É uma abertura histórica e relevante quando museus começam a convidar artistas de rua para fazer intervenções nas ruas. São os artistas urbanos. Para mim, foi a primeira vez”, conta Kobra. No local, o brasileiro retratou a amizade de Mark Twain com o afrodescendente John T. Lewis.


Não é a primeira e, provavelmente, nem será a última vez que Eduardo Kobra manifesta artisticamente questões ligadas à diversidade e ao racismo. “Não gosto de ações aleatórias”, resume. “Tudo o que eu faço nas pinturas tem a ver com aquilo que acredito e vejo. E, muitas vezes, são temáticas que me incomoda. É uma forma de me expressar, de me comunicar. É como se eu falasse por meio dos painéis”, acrescenta o artista.

A motivação e a inspiração para suas criações vêm dos lugares onde pinta, pois sempre faz uma pesquisa anterior sobre histórias e memórias daquela região, mas, sobretudo, perpassam as vivências de viagens pelos cinco continentes e pela sua infância. “Vendo diferentes culturas, tradições, religiões, como se relacionam, isso acaba me motivando a ver que ainda existe tanta violência e tanto racismo no mundo. Isso desperta em mim a motivação. Também vivi em um bairro com muita droga, muita violência. Vou transformando isso no tema dos meus painéis”, detalha.


Flexibilidade e liberdade conduzem o trabalho do muralista. “Não gosto de ficar preso a um tema”, esclarece. Aos 44 anos, suas obras traduzem questões históricas, sociais, políticas, ambientais, além de personalidades e até rostos anônimos. “Hoje, tem algo para mim que é mais importante que a pintura, é qual a mensagem por trás daquilo”, afirma. Segundo ele, cada artista sabe o que é melhor para si. Perfeccionista e dedicado, Kobra gosta de inovar, de buscar novos materiais, novos temas, é inquieto. “Para um painel chego a criar mais de 10 ou 15 rascunhos diferentes”, conta.
Da mesma maneira como se relaciona com os temas de seus desenhos, o paulista se conecta com as cores. Apesar de a vivacidade dos tons ter se tornado uma marca registrada, Kobra esclarece que tudo varia de acordo com o que será retratado. Tanto cores como formas geométricas estão conectadas ao personagem e à temática. “Por exemplo, no mural do Oscar Niemeyer, na Avenida Paulista, as formas que estão dentro do seu rosto são obras dele. Têm mais de 10 obras naquelas formas. Da mesma forma no desenho da Anne Frank. As cores e as formas são as capas dos diários. Faço outras pesquisas para ver o que é mais adequado. Tem partes que ainda permanecem em preto e branco”, explica.

Origem

Desde que conquistou seu lugar na mídia e nos mundos artístico e urbano, a trajetória do paulista foi crescente. “Eu me vejo da mesma forma de quando comecei, com outras proporções, mas o desafio continua o mesmo. Tenho que pesquisa, me dedicar em prol dos meus objetivos, evoluir no trabalho. Sempre acreditei nisso”, avalia. E complementa: “Fui convidado por 40 países e até hoje não falo inglês perfeitamente, por conta da minha história, de onde eu vim. Se isso funcionou para mim, funciona para qualquer pessoa que tenha determinação, coragem, boa vontade e se esforce em prol do seu trabalho, seja ele qual for”.

Autodidata, o muralista cita várias vezes, no decorrer da entrevista, a rua não só como principal suporte para suas manifestações artísticas como também escola da vida e da profissão. Conhecido no mundo inteiro, o artista de traços singulares entrou, pela primeira vez, em uma galeria de arte aos 30 anos. Nomes como Basquiat, Banksy e Diego Rivera são referências, assim como clássicos como Michelangelo e Rembrandt. “Gosto de pintar lugares a que nunca fui, não importa se pobre ou rico. Gosto da experiência de estar em lugares novos”, compartilha. Hoje, se pudesse escolher, mesmo que efêmero, daria um toque da sua personalidade às colunas vermelhas do Museu de Arte de São Paulo (Masp).



Três perguntas / Kobra


Qual a relação da arte de rua com museus e galerias? 
Cada um tem uma função diferente. Museus e galerias cumprem um papel, a questão histórica, as pinturas que podem ser transportadas de um local para o outro, o tipo de montagem. O mural, ele tem a característica de ser efêmero, está sujeito às condições climáticas. Durante  anos, as pessoas se posicionaram com certo preconceito com relação a arte feita nas ruas. Como se esse tipo de manifestação pudesse ser inferior. Mas, conforme foi passando o tempo, mostra-se que esse conceito está mudando. Nunca existiu esse muro que divide as galerias, os museus e os artistas de rua. Na verdade, tudo é arte. Eu escolhi o caminho da rua pela liberdade que proporciona. Cada dia mais está abrindo as portas dos lugares antes mais tradicionais e conservadores, estão vendo que se perdeu tempo com isso.  O que não é válido é você abandonar suas origens, esquecer sua história.


O que pensa sobre os traços de Brasília?
Brasília é o coração do Brasil de certa forma. Uma cidade construída como uma obra de arte. Uma cidade planejada, modelo, bem organizada, principalmente, nessa parte central. Um desenho arquitetônico que acho fantástico.


Como avalia a situação do Brasil e do mundo? O que se fala sobre o nosso país no exterior?
O povo brasileiro é muito bem-visto fora do Brasil. As pessoas têm um carinho muito grande na Europa, nos Estados Unidos. Eles sabem do esforço, do trabalho, mas, obviamente, que todos falam a mesma coisa sobre a questão da corrupção. Muita gente também não tem noção do tamanho do país. O que fica na cabeça das pessoas é a questão do crime, da violência, da corrupção e, ao mesmo tempo, falam da beleza do país e do esforço do povo brasileiro.



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