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Correio Braziliense

Bandas de fora do Plano Piloto mantêm viva a cena underground da capital

Locais alternativos estão espalhados em diversas cidades, onde o rock corre solto


postado em 14/08/2019 07:00 / atualizado em 14/08/2019 09:39

(foto: Juliana Marota/Divulgacao)
(foto: Juliana Marota/Divulgacao)

Durante a década de 1980, Brasília ganhou o rótulo de capital do rock. O Brasil cantava e dançava ao som de Legião Urbana, Capital Inicial e outras bandas candangas. Passada toda essa euforia, o rock ainda circula nas veias da cidade, principalmente fora do Plano Piloto. Grupos musicais mantêm a atitude e a verve de lendas como Renato Russo. “Eu acho que o verdadeiro rock de Brasília está nas regiões administrativas”, destaca Henrique Janssen, vocalista da banda Brazattack. Isso ocorre, segundo ele, porque as cidades do DF e do Entorno são carentes de cultura, espaços públicos, como teatros, e de apoio — muito parecido com os anos 1980.

Mesmo assim, o rock resiste nessas regiões. É a cena undergound! Locais alternativos estão espalhados em diversas cidades, onde o rock corre solto. A baixista do grupo Sons of Rage, Fabi Azevedo, concorda com Janssen. Para ela, a cena underground passa longe do centro da cidade. “A galera fora do Plano Piloto é mais unida, se ajuda mais”, acrescenta Fabi.

Brazattack toca hardcore. O som mais pesado, com letras que vão da crônica do cotidiano a temas sociais, como a vida dos assalariados e o deslocamento entre casa e trabalho, das mazelas dos grandes centros urbanos. O grupo circula em palcos de quase todas as cidades do DF, além de Anápolis e Goiânia. Fizeram até uma miniturnê em São Paulo.

O próprio nome da banda, criada em Brazlândia, é uma forma dos membros se identificarem com a cidade em que moram. “A gente (o grupo Brazattack) nasceu em 2016 quando teve o impeachment (da presidente Dilma Rousseff). A gente mora numa cidade meio conservadora e queria ir contra isso”, pontua o vocalista.

Outra banda underground da cidade é a Zumbido, que prefere não se rotular para ter mais liberdade na hora de compor. Surgido em 2013, também em Brazlândia, o grupo acredita que a identificação com o local onde se mora é fundamental. “Se você não reconhece o lugar de onde vem, é bem provável não saber para onde vai, e isso é um passo para o fracasso como músico”, analisa o vocalista Pedro Cavalcante.

Criada em 2015, a Sons of Rage faz parte da vertente do trash metal na capital. As músicas são pesadas e agressivas: falam, por exemplo, sobre guerras, violência e corrupção. Os integrantes moram entre Santa Maria, Núcleo Bandeirante, Luziânia e Jardim Ingá. O grupo lançou o primeiro EP, Light and 
darkness (2016), com cinco faixas, e está gravando o primeiro CD para este ano, ainda sem nome. Fazem shows em cidades do DF e pegaram a estrada rumo a Goiânia e a Vitória da Conquista (BA).


Bilheteria

A baixista Fabi Azevedo reforça a bandeira de que faltam apoio e políticas públicas. Por isso, trabalha para que os shows fiquem lotados e que tenham bilheteria para se capitalizarem. No entanto, a realidade nem sempre é assim: como muitas apresentações ainda são gratuitas, as bandas é que precisam correr atrás para arrecadar dinheiro e/ou realizar parcerias para viabilizar a produção.

A falta de retorno financeiro é uma das dificuldades e não acomete apenas os grupos. Proprietário do Toinha Rock Pub (Samambaia e SOF Sul), Fábio Alves de Lima acredita que o fato de, muitas vezes, não cobrar ingresso desvaloriza o trabalho das bandas autorais. “Tem que ter conscientização do público, das bandas e das casas, onde eu me incluo, mas não me sinto culpado, porque eu preciso sustentar meu negócio”, analisa.

Vocalista da banda Penúria Zero, Tuttis — nome artístico de Tuane Souza — reforça: “A cena ainda tem muito a melhorar, as casas têm que abrir mais as portas, as bandas têm que se unir mais”. Surgido em Luziânia em 2005, o grupo de punk rock viveu um hiato de cinco anos. Retornou aos palcos em 2011 e participou do Porão do Rock três anos depois. Atualmente, faz shows no DF e Entorno.

Criado em Samambaia em 2009, o Toinha Rock Pub passou a migrar as apresentações de grupos autorais e independentes para covers. “Infelizmente, a galera não consegue ver o autoral como profissional, como um trabalho que tem custo. Às vezes, eu recebia bandas maravilhosas, mas o público não comparecia”, lamenta Fábio Alves.


Girl power no rock

Para as mulheres do rock underground, os desafios vão além da questão financeira: falta não só espaço, mas também representatividade. “A cena é dominada por homens”, afirma Tuttis. No entanto, uma ajuda a outra a continuar e se fortalecer no meio roqueiro. “As mulheres que têm me influenciaram muito”, continua. Para ajudar a mudar esse cenário, a vocalista realiza a 7º edição do festival Sinta a liga, no qual cada banda convidada a tocar precisa ter uma ou mais mulheres na formação: além de Penúria Zero, participam ainda Sons of rage, Xavosa e Mitsein.

*Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira



VII Sinta a liga
No Saloon Red Rock Alternativo (Qi 616, cj. 2, lt. 1, Samambaia), no sábado (7/9), às 20h. Entrada: R$ 10.



Onde ouvir 

Alcatraz Pub 
(Av. Floriano Peixoto, Q. 61, lt. 15A, Planaltina; 3389-4000), aberto às sextas, sábados e vésperas de feriado, das 20h à 2h. O valor da entrada varia conforme o evento. Não recomendado para menores de 18 anos.

Surgido em 2016, Alcatraz Pub tem capacidade para receber 198 pessoas que buscam entretenimento variado. “Infelizmente, só o rock não sustenta o negócio”, lamenta o proprietário Wesley Thomás dos Reis, que se define como “apaixonado por música e arte”. O empresário atribui isso ao fato de o mercado de rock autoral e independente em Brasília ser pequeno e restrito. Por isso, a casa também recebe eventos de cover, funk, sertanejo e DJs. Em novembro, o local vai realizar o festival Planalrock, com bandas de rock underground de Planaltina.


Ragnarock Cultura Underground
(ADE, Q. 1, cj. C, lt. 21, subsolo, Ceilândia; 98430-4879), aberto de terça a quinta, das 21h às 2h e às sextas e sábados das 21h às 4h. O valor da entrada e a classificação indicativa variam conforme o evento.

Fundado em 2016, o Ragnarock Cultura Underground recebe eventos de soul, jazz, blues, eletrônica, covers e, claro, rock autoral e independente. O espaço — que tem capacidade para 400 pessoas — é cedido às bandas, que também escolhem se e como cobrar a bilheteria. “A gente não faz distinção se a banda é famosa, se é recente… Nossa ideia é abrir para bandas que não tem espaço”, afirma o sócio Wesley Lima.


Saloon Red Rock Alternativo
(Qi 616, cj. 2, lt. 1, Samambaia Norte; 99178-8942), aberto às quartas e quintas das 19h às 2h, às sextas e sábados das 17h às 4h e aos domingos das 17h à 1h (horário de funcionamento sujeito a eventuais alterações). O valor da entrada e a classificação indicativa variam conforme o evento.

“Somos o local que mais abre espaço para o rock underground no DF”, define o proprietário Paulo Atos. Fundado em abril de 2016, o Saloon Red Rock Alternativo já recebeu bandas locais, nacionais e até internacionais dessa vertente, como da Finlândia. Com capacidade para 600 pessoas, o estabelecimento realiza festivais e concursos para esse estilo de música e já recebeu duas seletivas para o Porão do Rock. “O ponto de vista do Saloon não é de um pub cotidiano. A gente é um espaço de resistência do underground. Nossa ideia é fomentar essa cena”, finaliza o empresário.
 
 
 
 


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