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Correio Braziliense

Conheça a escritora portuguesa que é um fenômeno da autopublicação

Sofia Silva fez sucesso primeiro no Brasil para depois ser reconhecida na terra natal


postado em 17/08/2019 06:25 / atualizado em 17/08/2019 10:17

Sofia Silva aborda temas tabus em série de romances conhecida como Quebrados(foto: Editora Valentina/Divulgação)
Sofia Silva aborda temas tabus em série de romances conhecida como Quebrados (foto: Editora Valentina/Divulgação)
 
Uma plataforma de autopublicação e a língua portuguesa foram os facilitadores da entrada da escritora lusitana Sofia Silva no Brasil. Em dezembro de 2014, a autora decidiu iniciar a publicação de uma ficção na internet, por meio da plataforma Wattpad, comunidade em que os escritores postam obras gratuitamente, seja em formato completo, seja capítulo a capítulo, e os leitores ainda podem interagir com os autores. Assim surgiu a série Quebrados, que está em sua terceira edição, cujo nome é Destinos quebrados, disponibilizada no Wattpad e também disponível em versão física e em e-book no Brasil pela Editora Valentina.

“O Wattpad foi fundamental para o que sou hoje. Por ser uma plataforma que dá liberdade ao autor de escrever o que quer e como quer, nós podemos criar aquilo que realmente gostamos e não o que o mercado literário está à procura. Acaba por validar a nossa essência como escritor”, conta a escritora em entrevista ao Correio.

O Brasil foi o primeiro país em que Sofia virou fenômeno. O sucesso nas terras tupiniquins levou a autora a finalmente conseguir ser publicada por um grupo editorial português. Até por isso, a portuguesa faz questão de sempre voltar ao Brasil. Ela esteve pela primeira vez em 2017 e, neste ano, retorna mais uma vez para participar da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. 

Em sua terceira obra da saga, Destinos quebrados, Sofia Silva volta a abordar perspectivas sob pontos de vista pouco explorados, como o luto e as diferentes formas de lidar com o sentimento. Para isso, a história acompanha Leonardo e Rafaela, que tiveram um romance conturbado e se reencontram 10 anos depois. Os personagens foram apresentados no primeiro livro, quando os dois ajudaram nos dramas de Emilia, uma brasileira que foi internada numa clínica para lidar com uma tragédia familiar, e Diogo, um militar português sobrevivente de um ataque terrorista no Afeganistão que e acaba conhecendo Emilia em uma sala de bate-papo virtual, os protagonistas da primeira obra.

“Nesse livro, abordo muitos os nossos erros humanos e como os nossos preconceitos e decisões tomadas com raiva podem alterar drasticamente a nossa vida”, completa a portuguesa.

A literatura sempre fez parte da vida de Sofia Silva. A principal motivação de escrever veio de retratar histórias pouco representadas nos livros que lia. “Enquanto leitora ávida, sentia falta de romances românticos com pessoas que não eram absolutamente lindas, perfeitas e de bem com a vida. Acredito que podemos ter grandes histórias de amor mesmo com a nossa vida ainda por consertar.”

Especificamente sobre a abordagem do luto, ela diz ter sido inspirada pela forma como a sociedade tem dificuldade de lidar com o sentimento. “Ainda existe muito o olhar desaprovador de quem não usa preto durante um longo período de tempo, parece que temos um prazo para chorar a pessoa perdida. Não pode ser pouco tempo, ou somos classificadas como frias, nem tempo em demasia, porque aí já nos estamos a vitimizar. Quero que o leitor compreenda que sofrer pela morte ou decidir aproveitar a vida são duas formas válidas de sentirmos a dor do outro. O importante é a empatia pela dor do outro”, explica.

A violência sexual será o tema do quarto e último livro da saga, Heróis quebrados, previsto para ser lançado em 2020. Esse tema fará parte do enredo de Cauê, personagem que apareceu no segundo volume. “O leitor o conhece ainda jovem e nesta história vai compreender melhor a sua aversão ao toque.  A meu ver, a série teria de terminar com o personagem mais quebrado de todas e que renascerá como o mais forte, pois nenhum herói o é sem ter vivido no inferno durante algum tempo”, analisa.

Com o fim de Quebrados, Sofia Silva começa a trabalhar em outras obras. Ao Correio, ela revelou que está escrevendo continuação de uma história sobre uma mulher que perde o filho adolescente de forma misteriosa e, anos depois, se apaixona pelo melhor amigo do filho e uma outra narrativa inédita. “Tenho outra obra, que não sei ainda o seu destino, sobre um homem que viu a sua vida mudar em segundos. Será um drama romântico em que o leitor, mais uma vez, conhecerá alguém que no cotidiano passa várias vezes e nunca pensa: como será a vida desta pessoa? Por que está neste lugar? Enfim, virão mais histórias com muito amor e muita dor. Reais como a nossa vida”, acrescenta.


Destinos quebrados
De Sofia Silva. Editora Valentina, 248 páginas. Preço médio: R$ 39,90 (versão impressa) e R$ 29,50 (e-book).

 
Escrita empreendedora 

 
A portuguesa Sofia Silva é só mais um exemplo de como as plataformas de autopublicação estão revolucionando o mundo da literatura. O reconhecimento da escritora aconteceu graças ao Wattpad, site que também lançou a escritora Anna Todd, responsável pela trilogia After, que ganhou uma adaptação nos cinemas em abril deste ano. Criado em 2006, o aplicativo permite o compartilhamento de textos em uma rede com mais de 80 milhões de leitores. Qualquer usuário pode compartilhar e ler obras no acervo, que tem acesso gratuito.

Apesar do Wattpad ser um dos mais populares no mundo, a internet está repleta de opções do formato. No Brasil, por exemplo, a plataforma pioneira em autopublicação é o Clube de Autores. Lançada há cerca de 10 anos, a empresa entrou no mercado como alternativa para os escritores que não tinham como bancar publicações em grandes editoras. “Num mundo evoluído, não poder viabilizar por não poder pagar, isso não existe. O Clube de Autores nasceu dessa maneira e tem crescido no mercado no boca a boca”, avalia Ricardo Almeida, CEO do Clube de Autores.

Hoje, o site possui mais de 70 mil livros em seu acervo e, a cada dia, o número aumenta. “Temos as mais diversas obras, de ficção a livros de física quântica. Há liberdade de publicação”, revela. Recentemente, o grupo fechou uma parceria com as principais redes do país, como Amazon, Estante Virtual e Livraria Cultura, para a distribuição de versões físicas dos livros que foram publicados primeiramente no Clube de Autores. “97% das pessoas ainda leem livro impresso. É onde está esse mercado. Faltava a distribuição do livro. Mas firmamos parceria com grandes livrarias para conseguir essa distribuição na mesma medida”, completa Almeida.

Em relação ao crescimento da autopublicação no país, Ricardo Almeida diz ficar feliz que a plataforma brasileira possa ter tido um papel importante nesse aumento. “Antes não tínhamos a menor ideia desse mercado, era inexistente. Mas ter o tanto de autores e de leitores que temos, pra gente, é uma surpresa positiva, ainda mais contribuindo para esse crescimento".

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