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Correio Braziliense

'Melhor é ficar quieto e agir', diz Carla Camurati sobre o cinema atual

Homenageada do Festival de Gramado, Carla Camurati fala sobre a atual situação do audiovisual brasileiro e dos projetos que vem tocando


postado em 20/08/2019 06:00 / atualizado em 19/08/2019 19:38

(foto: Agência Pressphoto/Festival de Gramado)
(foto: Agência Pressphoto/Festival de Gramado)

Gramado (RS) — Pelas artes, a atriz e diretora Carla Camurati assume que já fez “filmes operísticos e óperas cinematográficas”. No dia a dia, em tempos de alerta para a classe do cinema, ela, entretanto, desvia dos gestos largos e dos vozeirões chorosos que pontuam ópera: “Agir pontual e certeiramente, sem desgaste, é importante. Acho que reclamar é a pior coisa. Melhor é ficar quieto e agir — é fundamental ser assertivo nos nossos objetivos”. Dois longas documentais são as atuais metas; um tenta revolver parte da história política do país, enquanto outro trará religião e feminismo.

Ao ser homenageada como musa e liderança na retomada do cinema nacional, em meados dos anos de 1990 com Carlota Joaquina — Princesa do Brazil, no 47º Festival do Gramado, Carla Camurati, 58 anos, teve palanque para palavras de consenso e para rememorar carreira e amigos constituídos desde os anos de 1980. “Aquela época foi muito divertida. Por exemplo, no Cidade oculta, adaptação com clima de quadrinhos, a gente só filmava à noite: eu ia para maquiagem às 18h e só voltava do set na outra manhã. São Paulo dormia, e só a equipe da filmagem ocupava a Avenida Paulista. Eu corria risco, pulava sob o Tietê, em cima de prancha de metal”, lembra, aos risos.

Da época do improviso, de filmes com figurinos tirados do armário e de cenografia recolhida das casas da equipe, ficou a lembrança, ao lado da memória de amigos como Rubens Ewald Filho (morto recentemente) e o falecido diretor José Antônio Garcia, “ainda o amigo número um”, com quem lia Clarice Lispector antes de dormir.

Como espectadora, Carla conta que documentários têm sido a compulsão. Admira filmes como Wild, wild country (sobre a comunidade do indiano Bhagwan Shree), e todos os documentários brasileiros sobre política. Na corrente da luta por “dar direito ao outro a ser diferente, a gostar de outra coisa, sem que isso nos afete”, Carla chega com entusiasmo, para falar de Histórias do tempo presente, em finalização, com prêmio de bilheteria conquistado por longa sobre Getúlio Vargas. No todo, vira um painel de escândalos, com “personagens que, às vezes, são uma loucura, incompreensíveis”. “Tudo começa quando Ulysses Guimarães fecha a Constituição, dizendo: ‘Que Deus nos ajude, que isso se cumpra’”, conta.


Você representou vanguarda e avanços no cinema nacional. Diante disso, como encampa o feminismo?

Meu próximo filme, outro documentário (A raiz do sagrado feminino), tratará do papel das mulheres dentro das cinco religiões: hinduísmo, judaísmo, cristianismo, budismo e islamismo, aliás, essa é a que mais cresce no mundo atual. Não dá para discutir feminismo, sem olhar para as religiões. Quando você começa a estudar as religiões é i-na-cre-di-tá-vel o que existe neste universo. Ninguém sabe de nada: vocês sabem por exemplo que talibã é estudante? Duvido (risos). Mostro o papel das mulheres desenhado pelas religiões. Raízes profundas envolvem a questão feminista. Na história se tem uma escrita por homens e para homens. Falta lugar de entendimento.


Há um documentário político seu a caminho, Histórias do tempo presente. Qual a intenção?

Estou finalizando o filme, feito de uma série de caquinhos, de imagens coletadas em fontes diferentes, para a construção de um grande mosaico da história do Brasil. Trabalho compulsivamente na costura destas imagens. Quero fazer um filme diferente do da Petra Costa, do feito pela Maria Augusta Ramos. Pretendo fazer um retrato do que nós vivemos politicamente. Um filme que, como diz meu cineasta predileto Jorge Furtado, seja um recorte. Quero o recorte dos fatos e da emoção. Não quero saber de pontos de vista, mas quero ressaltar fatos. Deles é que brotam o que está nos acontecendo. A gente tem que ser consequente com as atitudes que a gente toma. No mundo das imagens, a história se constrói assim. É tão rico o conteúdo do material que tenho que a beleza (das imagens) pouco importa. São pérolas desde o momento das Diretas já até a posse do atual governo. Passamos por oito presidentes! Ao invés de apontar dedos, colher denúncias, escolher lados; busquei ver todo mundo e o que nos aconteceu. Precisamos rever história, sem elipses de tempo. O mais difícil nesse documentário está em procurar colocar emoção em tudo. Tenho registro de todas as ordens, de muitas televisões, nacionais e internacionais. Da imprensa escrita. Até a mídia se transforma em 35 anos.

Ao trabalhar com imagens de arquivo para os documentários, como percebe o cuidado reservado ao segmento?

Há algumas lacunas. Você tem televisões e jornais que têm a história gravada. Mas, depois do digital, é impressionante como você já não se tem registro. Tem coisas que você acaba tendo que recorrer à Biblioteca Nacional. Na média, há pontos em que a gente teria que dar mais atenção. Há toda uma área cinematográfica e do audiovisual que merece mais cuidado. Há, por exemplo, o acervo da TV Manchete, maravilhoso e importantíssimo, e ninguém sabe direito do paradeiro.

A atriz Carla Camurati e o ator Tony Ramos na novela Livre para voar(foto: Rede Globo/Divulgação)
A atriz Carla Camurati e o ator Tony Ramos na novela Livre para voar (foto: Rede Globo/Divulgação)


Como você lida com sua imagem e com aspectos da beleza?

Eu não me vejo, nas obras. Não gosto de me ver. Tenho um fã-clube, o Eternamente Carla. Conseguem coisas incríveis: tem cenas que nem eu lembrava de ter feito. Mas não sento para assistir a uma novela que tenha feito. Não consigo. Começo a reclamar de mim mesma. Quanto à beleza, tenho uma relação saudável. Nunca fiz plástica, mas não por preconceito. Sou feliz ainda com a cara que eu tenho. Ainda estou em harmonia com meus sentimentos (risos). Pode ser que, mais um pouco, eu perca isso e meu medo (risos). Eu tenho medo: não gosto da ideia de cortarem meu rosto. Alterar. Mistura medo com questões filosóficas. Quanto a cuidados, uma das coisas que mais faço na vida é ioga. Duas coisas me mudaram: floral e ioga. Transformaram minha vida, ao longo do tempo.

Como se dá a multiplicidade da Carla Camurati no cinema?

Desde os 7 anos de idade tenho uma relação muito especial com o cinema. Em qualquer função dentro do cinema, fico feliz. Por isso, produzi, distribui, escrevi roteiro, atuei. Faltou figurante, no set? Logo digo: “Ok — me dá a roupa, que eu faço”. Fiquei, de costas, aliás, numa cena do Carlota Joaquina, como figurante, e ninguém percebeu. Procurei sempre salvar a situação que se apresente como problema. Eu me divirto fazendo o inesperado. Cinema, para mim, é algo muito cotidiano. Assisto a muita coisa. Tenho uma relação delicada com o cinema, por isso, não suporto violência. A escala das imagens, dentro de mim, exercem enorme poder. Se vejo cenas de muita violência, elas se repetem demais, na minha tela mental. Mesmo sabendoconhecer todas as relações técnicas de uma cena.


Há discursos radicais quanto ao andamento do cinema brasileiro. Como percebe o momento?

Ando querendo fatos. É a eles que devemos reagir. Não gosto de ficar reativa e de me expor mais do que precisa. Há leis para serem cumpridas, e ações para serem respeitadas. O cinema vive um momento especial, muito rico. É uma fonte muito poderosa de economia. Oitenta por cento da comunicação no mundo passa e é feita de imagens. Ninguém, no mundo, está fora do audiovisual. Investimento em audiovisual é estratégico. Não tem como dizer: não queremos cinema! O mundo andou e temos que estar em sintonia. Menos briga e mais ação talvez seja o melhor caminho. Mais conversa. Raiva é uma coisa que deixa a gente burra.


Como foi trabalhar pela imagem do Brasil em situações como a do comando do Theatro Municipal carioca ou como diretora de cultura dos Jogos Olímpicos? Que retorno trouxe?

É muito emocionante você ficar à frente de um equipamento como é o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Mesmo você estando dentro de uma gestão pública. É muito diferente da iniciativa privada. Há coisas que não fazem o menor sentido e estão associadas à gestão pública. Gostei, no final de associar a energia do trabalho a algo público. É algo de todo mundo: não era meu filme, meu roteiro, minha história. Estive ligada ao bem comum, para a cidade aproveitar um teatro que esteve tão abandonado. Nos Jogos Olímpicos, exaltamos como o Brasil é tão rico e tão especial. Quis trazer gente do Brasil inteiro para os jogos. É de uma riqueza, de uma criatividade. Eu tenho tanto orgulho da gente! Eu nunca quis sair do Brasil. De coração, eu sempre quis conquistar o Brasil, poder trabalhar para que as coisas aqui melhorassem. Para que o teatro estivesse bem, para que as pessoas pudessem levar a família para o cinema. Sou muito feliz por estes ideais.

Como percebe as novas plataformas do audiovisual? Voltaria a atuar como atriz?

Adoro o fato de termos muitas telas (celular, computador, tevê, cinema). Temos uma quantidade de material muito extensa e não perecível. O conteúdo precisa de espaço. Há obras-primas que não morrem, como no caso de Toda a nudez será castigada (Arnaldo Jabor). Isso dá ao cinema um lugar especial: há espaço para todo o conteúdo bárbaro produzido. Nunca abandonei a carreira de atriz; não disse “não quero mais ser atriz”. Na tevê, há uma forma em que você é enquadrado. Precisava sair da forma de boazinha, aquilo me incomodava — ter o mesmo personagem na mão. Precisava falar de alguns assuntos, por isso precisava dirigir. Voltaria a atuar, sem o menor problema. Só ainda não achei personagens bacanas de serem feitos.

* O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado

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