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Correio Braziliense

Peça com Andréa Beltrão abre a 20ª edição do Cena Contemporânea

Com direção de Amir Haddad, a tragédia de Sófocles abre hoje o programa da 20ª edição do Cena Contemporânea


postado em 20/08/2019 06:00 / atualizado em 19/08/2019 19:40

Amir Haddad e Andréa Beltrão idealizaram a versão de 'Antígona' que abre hoje a 20ª edição do Cena Contemporânea.(foto: Fernando Young/Divulgação)
Amir Haddad e Andréa Beltrão idealizaram a versão de 'Antígona' que abre hoje a 20ª edição do Cena Contemporânea. (foto: Fernando Young/Divulgação)


Na imaginação de Amir Haddad, devia haver muito artista contando as histórias dos mitos nas esquinas das cidades da Grécia antiga. “A mitologia é uma coisa muito simples. O mito antigo era um mito como o saci do Brasil, como qualquer desses mitos brasileiros. A mitologia grega fazia parte do cotidiano do povo grego e corria de boca em boca”, explica. Com essa ideia em mente, ele e Andréa Beltrão idealizaram a versão de Antígona que abre hoje a 20ª edição do Cena Contemporânea.

Haddad e Andréa quiseram descomplicar a tragédia de Sófocles e destrinchar cada pedaço do texto para permitir um acesso completo do público. “Em vez do mito para o teatro, fui do teatro para o mito. Durante a peça, fala-se do deus tal e do deus tal, tudo que era farofa de ovo para os gregos, eu e Andréa fomos estudar e fizemos um levantamento do que sustenta o imaginário popular da tragédia Antígona”, explica o diretor, que trabalhou em cima de tradução de Millôr Fernandes. “E o que fizemos foi reescrever e falar para o público atual incluindo a história da Antígona no meio disso tudo. Tem gente que fala que, pela primeira vez, entendeu Antígona. É muita referência.”

No palco, Andréa conversa com o público como se fosse uma contadora de histórias da Grécia antiga. Antígona foi escrita em 441 a. C. e nasceu da vontade de Sófocles de levar para o teatro o mito bastante conhecido da descendente de Tebas que enfrenta o rei para conseguir uma sepultura para o irmão. A versão de Haddad faz o caminho contrário: aqui, o teatro vem antes do mito. “Através das histórias, o teatro vai entrando. No final, é puro teatro, fica só o texto do Sófocles”, avisa Haddad. No total, foi necessário um ano de trabalho para chegar ao formato da peça, e o diretor brinca que tem vontade de dizer que é tudo mérito de Andréa. “Ela trabalha muito”, garante.

Atuação


Para a atriz, o trabalho começou na incerteza. “Trabalhamos bastante, mas sem saber como daríamos forma à peça. Nem sabíamos se esse trabalho viraria uma peça. Estudamos muito juntos, também pelo prazer de entrar em contato com essas histórias que ainda são tão vivas. A encenação aconteceu naturalmente das dificuldades e descobertas. O trabalho se estendeu durante um ano, e quando nos demos conta, estava lá”, lembra Andréa, que levou, pela atuação, o prêmio de melhor atriz da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Tanto o diretor quanto a atriz enxergam em Antígona uma atualidade assombrosa. Há muito da realidade contemporânea na tragédia de Sófocles. O irmão da protagonista, para o qual ela reivindica um tratamento justo por parte do poder público, é herói de guerra. E Tebas, na visão de Haddad, pode ser vista como um Brasil contemporâneo. “A peça é de uma atualidade gigantesca. Relações do poder com o indivíduo, o cidadão e o Estado. Num estado adoecido como o nosso, o problema do cidadão fica muito mais grave, como a gente abaixa a cabeça para um estado desse? Os seres humanos têm necessidades maiores do que os homens que estão no poder. É totalmente agora. Não tem uma palavra para trazer o significado para agora, mas a plateia jura que a gente escreveu pensando nisso”, garante Amir Haddad.


Antígona

Direção: Amir Haddad. Com Andréa Beltrão. Hoje, às 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)


Entrevista / Andréa Beltrão

Para a atriz, a tragédia grega pode nos ensinar tudo hoje em dia(foto: Fernando Young/Divulgação)
Para a atriz, a tragédia grega pode nos ensinar tudo hoje em dia (foto: Fernando Young/Divulgação)

Qual a atualidade de Antígona? O que essa peça, escrita há 2.500 anos, nos diz sobre os dias de hoje? 

Atualidade aterrorizante e lamentável. Ela nos diz tudo. Não somos nós quem lemos ou ouvimos a peça. A tragédia grega sabe muito mais de nós do que podemos imaginar.


Por que essa — e outras tragédias gregas — nunca deixam de ser encenadas? 

Porque precisamos nos lembrar de onde viemos. E para onde caminhamos. Espero que não tenhamos o mesmo fim de Tebas... a destruição total...


Pode contar a sua própria história com essa peça? Você queria fazer há muito tempo? Por quê? Que lugar ela ocupa no teatro para você? 

Sempre amei este texto. E não sei por quê. E não procuro saber. A tragédia é ação. O ato em si. O herói trágico é totalmente responsável. Ele caminha para o fim sabendo disso. É esse o lugar. Falar do fim, com coragem.


Há semelhanças entre Tebas e o Brasil de hoje? Quais? 

São tantas as semelhanças assustadoras... prefiro deixar que o público encontre essas semelhanças. Esse é mundo maravilhoso do teatro.


O que a tragédia grega pode nos ensinar nos dias de hoje? 

Tudo.


Qual aspecto da personalidade de Antígona que você mais admira? 

O amor e a coragem de ser ela mesma. E fazer tudo que faz por amor. Sem medo das consequências.
 
 

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