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Correio Braziliense

Nena Inoue atua em espetáculo sobre mulheres históricas

Ela mergulha num universo feminino pontuado por experiências viscerais


postado em 21/08/2019 07:00

(foto: Elenize Dezgeniski/Divulgação)
(foto: Elenize Dezgeniski/Divulgação)

No palco, a narradora não se move. Imóvel, ela desfila histórias de mulheres. Algumas são conhecidas, outras não. E todas trazem narrativas particulares ancoradas em experiências nas quais a condição de gênero acaba por se tornar relevante. A atriz e diretora Nena Inoue foi buscar no livro Mulheres, do uruguaio Eduardo Galeano, as histórias traduzidas no espetáculo Para não morrer, em cartaz hoje no Cena Contemporânea.

Com dramaturgia de Francisco Mallmann, que introduziu referências contemporâneas brasileiras ao texto de Galeano, a peça fala de temas que, na visão de Nena, não podem ser esquecidos. “A mesma sensação que tive ao descobrir as histórias, queria que as pessoas tivessem”, conta a atriz e diretora.

Para dividir a criação, ela convidou a preparadora vocal Babaya Morais, que trabalhou com o Grupo Galpão e com nomes como Renata Sorrah e Letícia Sabatella. A ideia era dividir a direção, mas Nena acabou por tocar o projeto ela mesma e Babaya ficou como parceira de criação. Para não morrer estreou em 2017 e hoje conta com mais de 200 apresentações vistas por 25 mil pessoas, segundo a diretora. No ano da estreia, Nena ganhou o Troféu Gralha Azul, concedido pelo Governo do Estado do Paraná e, em 2019, o Prêmio Shell, ambos de Melhor Atriz. “Era a única indicada que não era carioca. Na minha cabeça, era uma zebra, estava concorrendo com gente muito boa”, lembra.

Para narrar as histórias das mulheres, Nena criou uma figura arquetípica que carrega uma ancestralidade de “uns 200 anos”, segundo a atriz. “É uma pacha mama, uma avó, uma bruxa. Para essa narradora, é muito vital contar as histórias, e o espetáculo é desprovido de grandes aparatos cênicos e recursos. Na apresentação, me recolhi um pouco, mas não é uma construção simplista”, avisa. Nena fez questão de incluir na dramaturgia histórias de mulheres latino-americanas, porque acredita que o Brasil fica um pouco apartado dos acontecimentos do continente. “O recorte foi com histórias que dessem teatro, que tivessem imagens, que fossem mais assimiladas pelo público hoje”, explica.

Assim, figuras universais como Joana D’Arc, Sherezade, Olga Benário e Rosa Luxemburgo dividem o palco com Marielle Franco e Maria Bueno em uma interpretação visceral da exteriorização dos sentimentos. “Trago a memória, porque lembrar é resistir, e fui entendendo que as histórias são muito densas, então eu vou contando uma atrás da outra”, avisa. Vez ou outra, ela para para beber água e refletir, mas também para estabelecer uma conexão com o público. Para isso, a narradora se permite esquecer e tropeçar e, aos poucos, derruba as paredes que a separam dos espectadores. Esse modo de atuação foi introduzido a cada encenação, gradualmente. “O espetáculo está vivo”, garante a atriz, que tem um currículo de 40 anos de teatro.


Performances

Várias referências norteiam as performances Meu abismo e É permitido chorar, que a atriz Renata Caldas realiza hoje no Espaço Cultural Contemporâneo. Na primeira, as referências mais importantes estão no trabalho do artista pernambucano Daniel Santiago e nas fitas de Moebius que aparecem nas obras do holandês Maurits Cornelius Escher.

Também há muito de Brasília, das curvas da arquitetura de Oscar Niemeyer e das formas criadas por Athos Bulcão na performance na qual a artista desliza por uma fita infinita até que seja resgatada pelo público. Em É permitido chorar, as referências estão em uma pesquisa sobre placas proibitivas que resultaram em performance-instalação na qual Renata abre espaço para o choro e para as emoções.

A performance surgiu da observação do público durante uma exposição sobre cultura visual, gênero e sexualidade na Universidade Federal de Pernambuco, na qual a atriz cursa o mestrado em Artes Visuais. “E vi as pessoas chorarem nessa exposição. E o contexto político dá vontade de chorar mesmo. Percebi um choro meio sufocado, porque a gente tem que tocar a rotina, se não desaba. E fiz a performance em cima disso. É um trabalho bem delicado”, conta.

Nas paredes do espaço, ela pendura lenços que podem ser usados pelo público, e ela própria deposita os lenços utilizados em um objeto que chama de depósito de lágrimas. “A ideia é quebrar a fronteira e provocar a confusão. E é uma performance muito verdadeira”, avisa a atriz que, às vezes, precisa explicar ao público que não é terapeuta. “Tem gente que senta para conversar, que chora junto, daí explico que não sou terapeuta e que o choro está ali como uma fonte de renovação energética e dialogando com contexto.”

Para Renata, os dois trabalhos dialogam com a realidade brasileira contemporânea. “O contexto em que estamos é muito presente, dialoga com as duas performances, porque é meu abismo, mas é o abismo de cada um. E nenhuma é igual à outra, então são caminhos que vou criando. Nunca ensaiei a performance”, avisa, que também lança o livro O romance-em-cena de Aderbal Freire-Filho, resultado de uma pesquisa sobre técnica desenvolvida pelo diretor cearense.

No livro, ela se debruça sobre três~ peças dirigidas por Aderbal – A mulher carioca aos vinte e dois anos (texto de João de Minas), O que diz Molero, (de Dinis Machado) e O púcaro búlgaro (de Campos de Carvalho) — para falar sobre a importância do método criado pelo diretor.  “Ele inventou um jeito único de fazer teatro, e essa maneira pode ser aplicada por qualquer diretor ou estudante, serve como exercício e como fim. Nessa técnica, ele mistura o que seria o drama do teatro dramático e o teatro épico. Ele não adapta os romances, o que seria narração e diálogo, então não transforma. O romance é bastante narrativo, e ele diz que faz uma adaptação absoluta, porque extrai toda a dramaturgia sem mudar uma linha do texto. É muito teatral”, explica a atriz.




Para não morrer
• Com Nena Inoue. Hoje, às 20h, no Teatro Galpão do Espaço Cultural Renato Russo. R$ 40 e R$ 20 (meia).

É permitido chorar e Meu abismo / Lançamento de livro
• Performances de Renata Caldas. Hoje, às 18h, no Espaço Cultural Renato Russo 508 Sul. Praça Central.

O romance-em-cena de Aderbal Freire-Filho
• De Renata Caldas. Ed. Multifoco, Selo NotaTerapia, 366 páginas. R$ 30



Programe-se
Amanhã no Cena Contemporânea

Tropeço
• Com Tato Criação Cênica. Às 19h, no Teatro de Bolso Robson Graia, no Espaço Cultural Renato Russo

O desmanche das musas
• Com La Zaranda. Às 20h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil

Para não morrer
• Com Nena Inoue. Às 20h, no Teatro Galpão do Espaço Cultural Renato Russo

Prometea, abutres, carcaças e carniças
• Com Grupo Desvio e Hugo Rodas. Às 20h, no Teatro Garagem da 913 Sul Furacão Carmen
• Com Murilo Grossi e António Revez. Às 20h, no Teatro Sesc Newton Rossi (Ceilândia)
 
 
 
 
 
 
 

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