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Correio Braziliense

Rosa Luz estará em cartaz no MAM e no Masp

Nascida no Gama e criada em Santa Maria, ela vive agora em São Paulo, mas sente saudades do cerrado


postado em 21/08/2019 07:00 / atualizado em 21/08/2019 16:34

(foto: @Membranv/Divulgação)
(foto: @Membranv/Divulgação)
“A primeira vez que entrei numa galeria de arte foi quando eu era caloura na universidade, em 2013, estudando história da arte. Até então, eu nunca tinha imaginado meu corpo ocupando esse espaço e as inúmeras possibilidades de criação e questionamentos que seriam desencadeados nessa ruptura”, escreveu a rapper, youtuber e artista visual Rosa Luz, em 9 de agosto, em sua página no Facebook, ao anunciar que participaria do 36º Panorama de Arte Brasileira do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) como expositora.

“A curadoria é da @juliareboucas e eu não sou a única travesti expondo, né, @vulknik?”, acenou a rapper oriunda do Distrito Federal para a colega paulista, comemorando o fato de duas artistas trans ocuparem um espaço em geral excludente. Até 15 de novembro, Rosa Luz estará em cartaz, junto a Vulcanica Pokaropa e mais 27 artistas, exibindo o videoclipe Rosa Maria, codinome Rosa Luz, primeira música do EP de estreia, lançado em 2017.

Além de comparecer como expositora, a rapper ainda dividiu o palco com os grupos Z’África Brasil e Oz Guarani, em um show único de 1h30, na abertura da exposição. “Nunca toquei com banda antes, e agora vou ter uma banda grandona. A Malka vai tocar piano de calda e violino”, anima-se Rosa. Malka, responsável pelo selo Trava Bizness, está produzindo o material do novo EP de Rosa Luz, que será lançado com três músicas em uma única obra audiovisual.


Mudanças

Entre o primeiro e o próximo EP, muitas mudanças se processaram na vida de Rosa Luz. Começando pela de estado. Quando recebeu uma proposta de emprego de uma agência publicitária em São Paulo, em 2018, Rosa não tinha muitas perspectivas de vida profissional e não sabia o que seria do amanhã. Embora acabasse de estrear em um grande documentário nacional, Chega de fiu fiu, do coletivo Think Olga, tivesse sucesso em seu canal do YouTube, Barraco da Rosa, a carreira como rapper começasse a engatar e já trabalhasse em comerciais para a Avon, Rosa permanecia desempregada e vivendo com a grana de um mês de cada vez.

O emprego na agência publicitária não durou muito. Em pouco mais de um mês, estava pedindo as contas da empresa. Uma vez fixada em São Paulo, porém, começou a pegar alguns trabalhos como freelancer. “Já consigo me garantir por três meses agora”, comemora. “Vim para trampar e não deu certo, e comecei me jogando nos freelas. Tenho trabalhado nessa vibe, dando palestras, trampando como influenciadora. Às vezes chegam as marcas convidando para fazer algum comercial”, lista.

Ela também adianta que voltou a se dedicar às artes plásticas e está negociando com uma galeria de artes exclusiva para mulheres para representá-la comercialmente. “Estou atirando para todos os lados, enquanto ainda tenho energia para tentar viver das artes”, confessa. O caminho parece promissor. A partir desta sexta-feira, a artista estará em cartaz também no Museu de Arte de São Paulo (Masp), na exposição Histórias feministas: artistas depois de 2000. Lá, até 17 de novembro, ela estará presente com a projeção da performance Afrontando ideias.


Vivências

Entre um trabalho e outro, fazendo amizades e conexões, Rosa se dedica à gravação de seu próximo EP, Contra o encarceramento em massa, produzido por Malka e acolhido pelo selo Trava Bizness, que reúne e dá visibilidade a artistas trans. “É um material que comecei a produzir aqui no começo do ano. Baseando um pouco nas minhas vivências e mudanças de Brasília para São Paulo. Falo sobre estar presa em sentido mais subjetivo. Mas vou explorando o tema e vai ficando cada vez mais pesado, indo para o lado político do encarceramento em massa nas cadeias e de como a sociedade prende nossos corpos”, descreve.

Com lançamento esperado para alguma data entre setembro e novembro, o EP já está pronto, mixado e masterizado. “A gente se encontra todos os dias (Rosa e Malka) e trabalhamos juntas. É um processo melhor que do último EP. Acompanhar toda a produção e tal. Pra mim, é um processo muito maior. Eu me senti muito mais conectada com a música. Estou até estudado um pouco mais de teoria musical, coisa que eu nunca achei que podia fazer”, conta Rosa, comparando com a produção, um pouco mais simples, do primeiro EP, que contém a música Rosa Maria, codinome Rosa Luz. “É o primeiro som do meu EP. Eu gravei em Santa Maria e fala das minhas vivências”, conta a rapper, que nasceu no Gama e foi criada na cidade de Santa Maria.
 
Saudades

Rosa confessa que tem saudades do Planalto Central. “Acho que eu vou ficar rica e comprar um lote na Chapada (dos Veadeiros)”, sonha. “Sinto muita saudade do DF. Se eu pudesse, estaria aí. Sinto falta do cerrado, da natureza em Santa Maria. Aqui em São Paulo é branquitude para tudo que é lado. Aqui estou muito mais exposta à homofobia e à transfobia”, lamenta.

Mas não sabe se vai voltar, nem quando. “No próximo ano, talvez”, projeta, sem sinal de esperanças reais. A verdade é que a residência em São Paulo permite que Rosa abrace uma série de oportunidades que não teria na capital do país. Por exemplo, foi escalada recentemente para fazer uma ponta em uma série da HBO. “É só uma ponta, mas me garantiu grana para passar o mês”, contabiliza. A trama da série? Rosa descreve: “É a história de uma trans não binária que vai a São Paulo para sobreviver”.
 
*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira 

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