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Correio Braziliense

Cineastas criticam fim do troféu Câmara Legislativa, no Festival de Cinema

Alegando contingenciamento de despesas da Câmara, a entidade optou pelo corte de prêmios da ordem de R$ 240 mil para os realizadores locais, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


postado em 23/08/2019 19:34 / atualizado em 23/08/2019 20:02

Os troféus Candango não terão companhia, pela primeira vez, em 24 anos, do troféu Câmara Legislativa do DF(foto: Carlos Moura/ CB / DA Press )
Os troféus Candango não terão companhia, pela primeira vez, em 24 anos, do troféu Câmara Legislativa do DF (foto: Carlos Moura/ CB / DA Press )
A 52ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro não contará com premiações, por determinação da mesa diretora da Câmara Legislativa do DF. Argumentando uma economia de R$ 240 mil (originalmente prevista para sustentar premiações em 13 categorias), houve dissolução do montante associado ao 24º Troféu Câmara Legislativa do DF. Vale destacar que, na Mostra Brasília, destinada a pinçar o melhor da produção em cinema da cidade, há projeção e descobertas de talentos da cidade. Há indicativos de que estará assegurada.

A inexistência dos prêmios em 13 categorias do Troféu Câmara Legislativa entraria, segundo comunicado oficial, na cota "de contribuição com o esforço coletivo de otimizar os recursos disponíveis para manutenção dos serviços públicos básicos". Cineastas como Vladimir Carvalho, José Eduardo Belmonte e Adirley Queirós (de Ceilândia) — de alcance nacional e internacional — figuram como vencedores de prêmios em edições anteriores do mais prestigiado festival nacional de cinema do Brasil. Sem o prêmio, 13 categorias e troféus Câmara Legislativa ficam comprometidos até segunda ordem. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro tem previsão de ocorrer entre 22 de novembro e 1º de dezembro de 2019.
 
A extinção do Troféu Câmara Legislativa de Cinema pegou os funcionários atrelados ao setor cultural de surpresa. Independente de gastos da ordem de mais de R$ 29 milhões em publicidade e de quase R$ 4 milhões em serviços de postagens ligadas aos Correios, em valores dispostos na casa presidida por Rafael Prudente (MDB), uma economia de R$ 240 mil (com despesas orçamentárias aprovadas no ano de 2018) teria sido o fator alegado para a não-realização do 24º Troféu Câmara Legislativa do DF.
 
Filmes produzidos em regiões administrativas como Recanto das Emas (A menina de barro), no Paranoá (UrSortudo) e em Taguatinga, O patinho feio, foram alguns dos vencedores de troféus, em edições anteriores. Entre outros feitos, filmes de cineastas locais como Iberê Carvalho chegam a festivais prestigiosos com o de Gramado que, na 47ª edição, selecionou Um homem cordial, para competir por troféus Kikito, na noite de amanhã.
 
A retomada da edição do troféu estaria condicionada à confiança "na melhoria dos indicadores econômicos e sociais do DF", segundo divulgado pela Câmara dos Deputados. Os dados foram contestados por parlamentares como Arlete Sampaio, deputada pelo PT, que reclamou da decisão da mesa diretora. Ao exaltar os gastos citados acima (relacionados à publicidade e aos Correios), em nota pública, Arlete destacou que o prêmio corresponde a 0,043% do orçamento da Câmara Legislativa e seguiria caminho de despesa "absolutamente segura e rentável".
 
Profissionais que atuam em âmbito nacional, caso do diretor José Eduardo Belmonte, que teve parte da carreira avalizada pelo troféu Câmara Legislativa, condenaram o corte. "O prêmio é um estímulo para a produção local que precisa sempre existir. Lamento demais o corte — é muito negativo". Um grande peso para o cancelamento, pelo que defende parcela de cineastas, está atrelado aos moldes conservadores da casa, cuja presidência tem alinhamento partidário com o atual governador. "Não vejo possibilidade de reversão imediata: não sabemos exatamente com quem falar, dada a falta de diálogo", conta a organizadora da amputada 24ª edição Cleide Soares.
 
Realizador local independente que, em sete anos, gerou três longas (documentais da série O renascimento do parto), Eduardo Chauvet acredita no viés de cunho político. "O governador e Bolsonaro têm algo de queijo e goiabada: representam o que vive o Brasil. A censura de obras, pela exploração de temáticas, crava recuo de ordem intelectual, e deve ser questionada desde sempre. Hoje o Brasil vive o retroagir de alguns séculos. As cartas estavam marcadas na mesa e traziam a atrocidade como base", comenta o diretor.

Filmes selecionados para anos anteriores da Mostra Brasília (a ser mantida, sem premiação) como O mistério da carne, Rosinha e Afronte — internacionalmente reconhecidos — dimensionam a projeção da capital em âmbito global. Sem consulta ou mesmo estudos para revisão de valores, os funcionários públicos que organizam o segmento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (o mais antigo e respeitado festival de cinema do país) ficaram desnorteados. "Estávamos totalmente seguros da publicação do edital, aprovado pelo setor jurídico", comentou Cleide Soares.  

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