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Correio Braziliense

Diretora Ishtar Yasin investiu no mundo da artista Frida Kahlo em novo film

Concorrente no Festival de Gramado, ela investiu no mundo da pintora mexicana, para o filme 'Dos Fridas'


postado em 24/08/2019 06:20

Uma celebração surrealista reveste o longa 'Dos Fridas'(foto: Aldo Gutiérrez/Astarté Producciones)
Uma celebração surrealista reveste o longa 'Dos Fridas' (foto: Aldo Gutiérrez/Astarté Producciones)

Gramado (RS) — Na disputa pelos prêmios Kikito, a serem entregues neste sábado à noite, pelo 47º Festival de Gramado, há uma diretora cosmopolita, quase onipresente no mundo: viajante e viajada, Ishtar Yasin Gutiérrez, há 11 anos, entrou para o mapa do cinema mundial, com O caminho (coprodução entre Nicarágua, França e Costa Rica, vencedora de 17 prêmios internacionais), tendo como bússola o destino dos filhos de refugiados. “Já me disseram que nasci com asas nos pés (risos). Não sou cronológica, no pensar e no ser, talvez pelas origens”, conta Ishtar, que domina línguas como espanhol, russo, inglês, francês, italiano, além de “um pouco” de árabe.

Nascida na União Soviética, foi levada ao Chile pouco antes do golpe sofrido por Salvador Allende, seguiu para a Costa Rica, e aos 17 anos, frequentou o Instituto de Cinema — “o mais antigo do mundo, criado há 80 anos, por Serguei Eisenstein”. Aos 42 anos, a filha de artistas seguiu para o México, com a finalidade de explorar um mundo: vida e obra da pintora Frida Kahlo. Resultou daí o longa Dos Fridas.

Há 27 anos, Ishtar Yasin Gutiérrez, imersa no teatro, estuda Frida Kahlo. “Descobri a personagem da vida real, a enfermeira Judith Ferreto (María de Medeiros, na telona), há mais de 20 anos. Martha Zamora (do livro Cartas apaixonadas de Frida Kahlo) esteve com Judith e a entrevistou, depois de a enfermeira ter tido um acidente, com fraturas similares às sofridas por Frida Kahlo. Numa fotografia de hospital, se vê Judith com muitos anéis dados por Frida. Até a morte de Frida, em julho de 1954, Judith a cuidou e ainda tratou de Diego Rivera (o viúvo) até 1957. Em 1985, Judith sofreu um acidente de automóvel e, na Costa Rica, passou a ser cuidada pela sobrinha, uma testemunha e colaboradora do nosso roteiro”, conta a diretora.

Dos Fridas teve primeira versão de roteiro, em 1996, ainda sem permissão para o uso do nome Frida Kahlo. “Parte da família registrou a imagem e nome de Kahlo como uma marca. Imagina, há uso do nome até em cerveja! Me deram permissão e direitos, de graça. Eles já ganham tanto dinheiro! E viram que era obra de arte, longe das fórmulas do cinema comercial”, explica Ishtar. No longa, a diretora e atriz vive o papel da pintora, enquanto María de Medeiros revive a enfermeira. “Judith sentia as dores de Frida; se pintava com a sobrancelha cerrada, tinha um cachorro parecido e se vestia aos modos de Frida. Houve como um espelho, uma incorporação”, observa a diretora.

Até um beijo, ao fim de Dos Fridas, dado por uma Dama do Véu (uma das centenas de nomes para a morte, no México), o longa referenda ao menos duas obras de Frida: O Moisés e A mesa ferida (obra extraviada na Polônia). “O primeiro foi inspirado em livro de Sigmund Freud, que aparece no longa, ao lado de Karl Marx, outro dos pilares do surrealismo, e que transformaram o século 20. No outro, Frida aparece pintada ao lado da morte. Ela pretendia mandar presente para Stalin, mas ele não gostou, já que ela se inspirou num mundo subterrâneo, no inconsciente, e na realidade interior dela. Stalin seguia um realismo socialista...”, pontua Ishtar.

Leon Trotsky, redator do terceiro manifesto surrealista ao lado de André Breton, comparece em cena de Dos Fridas. “Me pergunto o que o organizador do Exército Vermelho tinha a ver com isso?!”, comenta, aos risos, a diretora. A pintora Jacqueline Lamba (esposa de Breton e amiga de Kahlo), a fotógrafa italiana Tina Modotti, o astronauta Iuri Gagarin (paixão platônica de Judith Ferreto) e a pintora Carmen Lyra também “estão” em cena. “Juntei eles à figura do dramaturgo Antonin Artau, que embasou um tetro revolucionário, a partir do contato com os indígenas tarahumaras. No filme, há ainda a Morte, saída da arte popular mexicana. Busquei rituais muito particulares, inspirada em repetições e narrativas circulares”, conta Ishtar.


Três perguntas /  Ishtar Yasin Gutiérrez 


Como percebe a Frida Kahlo emblemática, aquela que é um motor para o feminismo?

Estive em Chicago (Estados Unidos), apresentando o filme. Foi lá que nasceu a Frida como símbolo de feministas, das mulheres artesãs, dos imigrantes que cruzaram fronteiras, nos anos de 1980. Os imigrantes, aliás, compareceram em peso à exibição. Gente que viveu coisas muito fortes. Como espectadores, ver algo relacionado a Frida os dignifica. Nos EUA, são explorados, e ela traz valor a eles — por isso é ícone, emblema e os representa. Pela dor, eles se veem conectados. Frida é ligada à sublimação da perda. Na cultura pop, no mercado, com o sistema, tudo — até o ser humano — vira produto. Isso gera o comércio, que se afasta da comunicação, a base para a arte. Temos que diferenciar a Frida mercantilizada e a Frida que nos representa, que aporta nosso ser, como mulher.

O filme não seria um produto? E como o público mundial tem reagido a ele?

Ganhamos prêmios com ele, em São Petersburgo (Rússia) e em Cuba. Conquistamos um prêmio da Casa de Artes Sergei Rachmaninoff, onde poderei compartilhar minhas obras de cinema. Estreamos o filme na Casa Azul — em que Frida nasceu, viveu e morreu. Improvisamos uma tela no jardim, como pedido de permisão, ou mesmo presente para Diego Rivera e Kahlo. Participamos de festivais, no Egito, no Líbano, na China e na Estônia. Lá fui a única mulher diretora, defendendo um filme de autor com 18 diretores homens. Vejo o trabalho como minha própria alma, meu próprio ser: ainda é custosa a questão das mulheres. Mas, estamos abrindo caminhos. Talvez o pensamento linear seja mais masculino. O feminismo pontua nossa sensibilidade, afetando o formato utilizado na narrativa e escolhas estéticas. O sentir é outro: espiral, circular ou cíclico. O filme teve proposta arriscada, numa construção mais poética, e custou US$ 600 mil.

Há outros filmes sobre a pintora. Inclusive um com Salma Hayek... Muitas diferenças entre os registros?

É absolutamente um outro tipo de ponto de vista. Há o longa de Paul Leduc, Natureza viva (1983); já o filme com Salma Hayek é muito hollywoodiano. A minha obra tenta “ver o filme” com os olhos da Frida. O passado, na Casa Azul, é visto a partir da memória dela. Daí vem a carga de liberdade criativa. Não posso  nem quero imitar o passado. Quero acrescentar dados. Quis ir às fontes de Frida, tocando as pinturas e vida. As fontes dela contemplam os retablos mexicanos, ela tinha uma coleção desta arte popular e folclórica: isso a influenciou muito, trazendo projeções simultâneas de etapas distintas, com tempo fluido e descrição embasada na mitologia indígena, dentro de uma racionalidade mágica, mística. Frida dizia que pintava o próprio mundo, “sem inventar”; no que Diego Rivera encarava como “realismo monumental”: nisso, nos registros, você entra dentro de você, da sua memória.

O repórter viajou a convite da organização do evento.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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