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Correio Braziliense

Leandro Hassum: 'Temos o direito de protestar de todas as formas'

Humorista fala sobre os tempos esquisitos em que tudo que se fala pode se voltar contra você. Ele protagonizada a comédia O amor dá trabalho, em cartaz nos cinemas


postado em 01/09/2019 06:00

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

 
Quase todo dia, na lida com humor, o ator Leandro Hassum, um dos maiores estandartes em termos de bilheteria para o cinema nacional, admite percorrer um caminho de areia movediça. “Tudo o que você fala pode ser voltado contra você, são tempos esquisitos”, diverte-se, numa conclusão com quê de séria. Para o trabalho, Hassum, que caminha para os 46 anos, conta que se cerca de pessoas com “visão de humor” com a qual se identifique. “Busco quem entenda minha linguagem de humor, e ache graça no que venho há fazer”. Nessa linha, chegou à parceria com Ale McHaddo, que conduz a mais recente comédia, recém-estreada, O amor dá trabalho.

No filme, Hassum vive um cupido de ocasião, obrigado a fazer render o amor de terceiros, um tanto esquecido de si. Se ficou livre no set, ele destaca que havia eixo firme. “Existe improviso, mas também há uma rede de proteção que é um roteiro delicioso de fazer”, avalia.

Ainda em cartaz em Brasília, o longa Simonal traz Leandro Hassum noutro registro, na pele do produtor musical Carlos Imperial. “A comparação com alguém que existiu sempre é mais ampla, exagerada. Acho que fiz muito bem. Fui elogiado. Adoro fazer cinema, com coisas diferentes. No O amor dá trabalho há a pontuação que o público está acostumado, com comédia física e popular”, conta.

Enquanto o roteiro traz momentos de brincadeira com religiões, para Hassum, o tema é digno de reflexão. “Sou de formação católica mas, como todo bom brasileiro, se tiver que botar uma velinha acesa, acendo. Vou em todas: energia, tudo. Tudo que seja voltado para o bem. Acredito numa força maior. Sempre agradeço, quando acordo, e ainda, todo dia, quando vou dormir”. Confira a entrevista exclusiva do Correio.

Brasília é uma referência em sua carreira. Como vê a cidade e como percebe o público daqui?
Sou sempre muito bem-recebido. Há mais de 20 anos faço espetáculos. Fazíamos no Teatro Nacional, que sei que está fechado. Filmei, mas no Rio de Janeiro, com o brasiliense Matheus Souza (de Eu não faço a menor ideia) como se fosse Brasília. Já O candidato honesto (com duas partes) foi quando filmei mais tempo em Brasília. A capital tem uma luz muito boa, assim como a Califórnia. Luz e sons são muito bons para se filmar aqui. Além de ter uma paisagem muito legal. Mas, se você for perceber o pano de fundo político, numa comédia como foi a do Roberto Santucci, obviamente, você tem pano pra manga. Se as brincadeiras na tela vão ser levadas de forma sutil, a gente nunca sabe. As pessoas já não sabem se acham engraçado ou ofensivo. Eu sempre busco o humor divertido e que seja inclusivo, a fim de que todos se divirtam. Quero que todos riam da piada. Em O candidato honesto, a gente pegava e generalizava a política, exacerbando na comédia. O difícil de fazer é que, às vezes, os políticos tentam fazer mais graça do que humoristas.

Você terminou a participação em O auto da mentira do brasiliense José Eduardo Belmonte. Como será o papel?
O auto da mentira trará cinco contos. E faço parte de um deles, que é o episódio do sósia. Faço o papel de um perdedor completo, dentro de uma empresa, e sigo para um evento de convenção de negócios em que há um comediante escalado para apresentações. Sou confundido com ele. Embarco, e começo a achar tudo interessante. As pessoas ficam dizendo ‘sou seu fã, mas, você emagreceu, né...?’ Ainda no filme tem cenas do meu show quando eu era gordo. Acabo tomando o lugar dele, pelo encanto com a fama.

As pessoas realmente te chateiam com a questão da perda de peso, e ganho ou perda da graça?
Isso está no Google, e respondi mais de mil vezes, mas respondo novamente, com o maior prazer. Ouço diariamente. Não adianta eu chegar e dizer “eu acho que ainda sou engraçado”. O público é que tem que olhar e ver se eu estou engraçado. Não cabe a mim julgar. Vai ter quem diga “preferia gordo, preferia magro”. Mas é uma escolha de vida minha, né? Para minha saúde e sobrevivência, preferi emagrecer. O tamanho da roupa — isso, sim — mudou bastante (risos). Era 54, e agora é 42. Mudou bem.

Quando a piada é ruim, tem jeito de melhorar, em cena? E mais uma coisa: no novo filme, vocês lidam com piadas com religião. É muito difícil? 
Piada ruim a gente edita, e tira (risos). Nas cenas de religião, a gente tem muita gente em cena. Maria Clara Gueiros, Hélio de la Peña, Paulinho Serra, Dani Calabresa; temos o Falcão, um ícone para todos nós; tem a Ludmilla, o Murilo Couto, tem o Victor Leal, de Os Melhores do Mundo. Tentamos trazer todas as pessoas que a gente considera muito engraçadas e talentosas, para que a gente montasse a Mesa do Olimpo, em que a gente fala de todas as religiões; brinca, sem ofender, com todas as religiões. É um filme que fala sobre vida após a morte. O cara, meu personagem, volta como um cupido azarado, às avessas, e que retorna para unir um casal. Não tem como não tocar em figuras da religião. A gente tenta tratar com bom gosto. Se vai ofender ou não quem vai dizer é o público.

Há dificuldades com humor, hoje em dia?
Hoje em dia, a gente passa por um momento muito complicado: as pessoas saem em busca da ofensa. “Deixa eu ver este filme aqui — onde eu posso me ofender?” Deixam de ver o “onde eu posso me divertir”. Isso é bem chato. Mas, são novos tempos e a gente tem que aprender a lidar com isso. Faz parte. E a gente tenta se blindar ao máximo para que ninguém se sinta ofendido.

Qual o papel dos artistas que, dia desses, por exemplo, foram atacados pelo público, num festival de cinema?
A gente tem que ter direito a protestar de todas as formas. Se alguém se sente ofendido, tem que ter o direito de protestar, levantar a sua bandeira, a gritar o seu grito. Mas, ninguém tem o direito a ser agressivo com ninguém. Em ambas as partes. Eu tenho o direito de discordar de você; e você de mim. Mas agredir? Ninguém tem esse direito. Parto dessa premissa. O papel do artista sempre vai ser o de comunicar. Desde as peças de Molière, Shakespeare, e tudo mais, é por meio da comédia que você consegue se comunicar com o público. Busco comunicar ao povo. Fazer um humor em que a gente critique, de forma a explicar. Quando fiz O candidato honesto, quis trocar em miúdos situações que talvez muita gente nem tivesse percebendo.

E como resolveu?
A gente leva para o exagero, para o absurdo, para divertir. Quando faço O amor dá trabalho, brinco com o funcionário público que é um encostado — é a figura daquele cara ali, exemplificando um tipo. Não que todo o funcionário público seja assim. Muito pelo contrário: eu tenho parentes funcionários públicos que trabalham pra cacete. Brincamos com o estereótipo. Juntar um casal, por amor, é outro elemento da brincadeira. O que dá pedal para transformar alguma coisa em piada é sempre o ponto de partida. É papel do artista exemplificar o que está acontecendo. No fim, a gente confirma que o amor dá trabalho, mas ele tem que estar dentro de você, antes de mais nada.

Amar dá trabalho? E como vê a abordagem amorosa por redes sociais?
Claro que dá. A manutenção do amor é diária. Sou casado há 21 anos e meio, e é um trabalho bom de fazer: a do seu amor reconquista é diária. A gente trabalha para o amor dar certo, sempre. Para mim, tecnologia é algo muito novo, já que sou casado há 21 anos e meio, não fiz uso. Tem pessoas que conheceram outras pela internet e estão juntas até hoje. ICQ, MSN renderam, no passado, perrengues para amigos. Hoje, as coisas estão mais francas e as pessoas têm menos pudor para lidar com este tipo de coisa. E a única coisa preocupante é que as pessoas têm saído pouco de casa. Antigamente, se ia para rua para paquerar. Continuem indo ao cinema, pelo amor de Deus! Paquera, sim: mas marca de encontrar no cinema! Ir a meu filme será um sucesso. Ela(e) vai rir! E quem faz rir, faz gozar (risos)!

Faturar alto, às vésperas dos 46 anos, foi algo que tenha te mudado?
Tenho muito orgulho da minha carreira, de tudo o que construí. Tenho muito orgulho de toda a minha história. Indo para os 46 anos, acumulei 30 anos de carreira. Em tempos de vacas magras, eu era o mesmo cara. Sou o mesmo cara que ganhava R$ 25 por apresentação para comprar fralda para minha filha. O que me faz ter sucesso, ao manter minha carreira é justamente seguir sendo o cara por quem as pessoas aprenderam a gostar de ver. Não acredito em quem mude pelo dinheiro ou pelo sucesso. Você não muda com o sucesso. Ele só mascara a falta de caráter que você tem ou, se você já tem caráter, segue tendo. Se você quando ganha dinheiro se transforma num merda, é porque você já era um merda antes.

Quem te inspira no humor?
Muitos. Renato Aragão, sem dúvida, com todos Os Trapalhões. Tenho a honra de o Renato ter dado entrevista dizendo que acha que eu sou o substituto dele no cinema. Isso é um marco! Jerry Lewis, com quem trabalhei. Chico Anysio, que foi o cara que me colocou na televisão. Que me ajudou muito na carreira. Jô Soares que, até pelo físico dele, era um cara em quem mirava muito. Abbott & Costello, os irmãos Marx, o Grocuho, principalmente, Chaplin. Tenho referências contemporâneas: Steve Martin, Steve Carell, Will Farrell. Estudo, olho, presto atenção, para crescer criar, e tentar melhorar sempre.

Estamos num país achincalhado?
Não. Não acredito nisso. O Brasil sempre tem jeito: inclusive por causa dos brasileiros. Somos um povo muito alto-astral, muito com esperança A gente ri nos momentos mais difíceis. Inclusive, faço shows fora do Brasil para brasileiros, obviamente. E digo: é difícil fazer humor para brasileiro. Por si só, o brasileiro tem um senso de humor muito aguçado. Na plateia, o brasileiro já te olha assim: “você tem que ser melhor do que eu, porque eu sou muito bem-humorado”. Acho que o Brasil vai sair dessa e torço pelo país. Não torço por lados. Quero o melhor para meu país, quero que meu país fique bem. Se for com este presidente, que ele faça o melhor pelo nosso país. Se for com outro, que o outro faça o melhor pelo país. Eu não fico em torcida de lado nenhum. Talvez, fique tachado como chapa-branca; mas simplesmente não me importo. Quero que o Brasil saia dessa.

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