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Correio Braziliense

Para além dos museus: espaços inusitados em que a arte se faz presente

Acostumadas a ocupar salas de galerias, as artes plásticas estão dando novos sentidos a espaços inusitados


postado em 08/09/2019 06:03

'A pessoa consome de uma forma mais orgânica', avalia Daniel Moreira, da Dane-se(foto: Daniel Moreira/Divulgação)
'A pessoa consome de uma forma mais orgânica', avalia Daniel Moreira, da Dane-se (foto: Daniel Moreira/Divulgação)

O caminho é inverso. Familiarizadas a ocupar paredes e salas de museus e galerias e aguardar a vinda do público, as artes plásticas estão conquistando e dando novos sentidos a espaços inusitados. Fábricas abandonadas, estações de trem, espaços esquecidos da cidade, cafés, restaurantes e lojas de roupa e de mobiliário. Sai de cena a teoria do cubo branco, da neutralidade da sala expositiva, para uma interação próxima ao dia a dia do espectador.

Há 13 anos, Carlos Alberto Oliveira une a história do mobiliário brasileiro com a produção artística local na Hill House, sua loja no CasaPark. Tudo começou com um empréstimo de parede, como o empresário descreve. “São vários fatores. Primeiro que a história do mobiliário brasileiro sempre caminhou junto com a arte. Depois, estava aparecendo em Brasília um grande número de novos artistas muito talentosos e sem espaço, um deles era meu filho. Vendo a convivência dele com os amigos, vi que poderia oferecer uma abertura para a arte local, a cultura local”, explica.

O que começou pequeno ganhou corpo e novos braços: como a chegada de colecionadores, como Carlos Lim e Marília Panitz. “É uma forma de incentivar que a arte seja um assunto mais frequente em todas as rodas de Brasília, de reconhecer nossa arte, emergente e de qualidade e de apresentar para a cidade essa capacidade de produção”, avalia Oliveira. Para o empresário, durante anos, aprendemos a olhar para as obras de arte com as duas mãos para trás, respeitando os limites e as regras das salas expositivas. Ao sair desse lugar convencional, a relação das pessoas com os trabalhos se transforma. “As pessoas passam a perceber que é para todo mundo, pode fazer parte da vida delas, da casa delas”, acrescenta.

Com dois filhos e uma mulher artista, até Carlos passou a enxergar a arte com outros olhos. “Me aguçou a emoção, a percepção. É bom para todo mundo. Podia ser que nem gripe que todo mundo pega”, brinca. Contudo, o empresário faz uma ponderação. “Não quero adornar ou decorar a loja. Fazemos com o carinho e o cuidado que são necessários. Contratamos um curador, montamos a exposição de maneira correta, produzimos um catálogo. É a vida de cada pessoa que está ali naqueles trabalhos. Precisamos olhar para a arte com o respeito que ela merece”, pontua.

Foto da exposição Brasília 60 - Novas candangas na Piscina com Ondas(foto: Zuleika de Souza /Divulgação)
Foto da exposição Brasília 60 - Novas candangas na Piscina com Ondas (foto: Zuleika de Souza /Divulgação)
Para o produtor cultural Sandro Biondo, as galerias de arte e os museus têm seu espaço sacralizado na evolução das culturas, e assim permanecerão. “Mas há que se ter também a descentralização da arte, e isso passa por ocupar a rua e outros lugares”, avalia. Como realizador de eventos na cidade, Biondo sempre quis trazer para seus projetos algo relacionado às artes plásticas. Agora, na Ocupação Contém na Piscina com Ondas, ele acredita que alcançou o ponto que queria. “Recebo, em média, por semana, oito mil pessoas. E posso oferecer a essas pessoas um olhar cultural, artístico, dentro do laser delas. É uma espécie de pulo do gato, unir o útil ao agradável”, afirma.

Com a experiência, ele percebeu que dava para unir a festa e o entretenimento à cultura. A festa funciona como mote, e o bar como maneira de reunir as pessoas. Primeiro, Biondo trouxe as instalações e a cenografia. “Agora, chegamos aonde a gente queria, que é ocupar os espaços internos abandonados da Piscina com Ondas do jeito que eles são. Pego as construções antigas, como vestiário, banheiro, bilheteria e transformo em galeria de arte. Estamos recebendo mais de uma dezena de artistas plásticos da cidade”, descreve. Para isso, o produtor aposta na ressignificação dos locais. Nada de maquiar o que de fato eles são, mas trazer um outro olhar, uma nova abordagem. “E surpreender o público, trazer a arte mais para perto da realidade dele. O que era ruína vai virar galeria”.


Dia a dia


No Antonieta Café, na Asa Norte, João Filipe Mazocante de Medeiros e a mãe, Auristela Mazocante Silva, criaram um espaço colaborativo que, hoje, conta com cafeteria, estúdio de tatuagem, fábrica de chocolate e espaço expositivo. Inicialmente, meio que ao acaso, os dois apresentavam o trabalhos de amigos artistas e fotógrafos. A procura e a adesão do público revelaram outras potencialidades para aquelas exposições. Atualmente, o café expõe, em parceria com Mateus Lucena, sócio-proprietário da A Pilastra Galeria, os trabalhos dos oleiros Xibi Rodrigues e Pablo Johson. “Gera um fator novidade e tem gente que vem só pela mostra, o que atrai um outro público. Também é uma forma de desconstruir a ideia da arte como elitizada, principalmente aqui em Brasília, e trazer para o cotidiano das pessoas”, afirma João Filipe.

“Acredito que também está associado a uma busca mundial das pessoas estarem consumindo várias coisas ao mesmo tempo”, avalia Mari Braga, uma das responsáveis pelo projeto Hidden. Todos os anos ela e Pedro Henrique Gaspas inseriam obras de arte na ocupação. “Porém, de uma forma mais tímida. Este ano, apesar de menos paredes, tivemos uma procura maior dos artistas para expor seus trabalhos”, acrescenta. Para ela, disponibilizar o espaço para exposição faz toda a diferença.

“Criamos um ambiente de convívio, que vai muito além do consumo”, descreve Daniel Moreira, um dos sócios da Dane-se. Este mês, a marca inaugurou uma loja conceito na Asa Sul que reúne tudo aquilo que os sócios acreditam e está inserido no universo da Dane-se. Além da loja e de uma cafeteria, eles abriram uma galeria de arte: Dgallery!. Além de espaço expositivo, o local foi pensando também para promover encontros e lançamentos de livros. “Para a gente, sempre foi muito próximo. Tudo que a gente faz e cria tem algo que puxa para a arte”, afirma Daniel. Não à toa, constantemente, as criações da Dane-se trazem referências de Brasília, arquitetura, Athos Bulcão e urbanismo. Desde que anunciaram a abertura da galeria, vários artistas entraram em contato para expor suas obras. “É um espaço da cidade. Às vezes a pessoa nem gosta tanto de arte, mas vai consumir de uma forma orgânica e acabar se apaixonando”, avalia.

Quatro perguntas / Cinara Barbosa


Como avalia a inserção das artes plásticas em lugares que não sejam galerias convencionais e museus?

É interessante também do ponto de vista desses espaços. Ao se abrirem para esse campo, entendo que avaliam como importante se associar às artes, percebem o valor agregado que uma boa arte traz para o espaço, o capital simbólico, a potencialidade.


E na visão de quem atua na área artística?

Pela perspectiva de quem trabalha com arte é também uma forma de ajudar na formação de público. Ao levar a arte para esse espaço, com a produção de um artista que está produzindo na cidade, atuante, tem fundamento de pesquisa, acaba ajudando a formar o olhar das pessoas que vão ao espaço. O público vai ao local pela sua primeira necessidade, mas vai olhar aquela obra de uma outra forma e passar a se interessar. É uma iniciativa bem produtiva.

Como idealizadora do BSB Plano das Artes, projeto que dá visibilidade à cena produzida pelos espaços de arte do DF, como nota o surgimento desses “lugares não convencionais” de consumo da arte?

O que eu percebi com a terceira edição é que não só se confirmaram os lugares que tinham na primeira edição, como outros espaços interessados em participar, com outras configurações. Agora ainda é cedo para dizer, mas talvez no futuro, haverá um nicho para se pensar esses outros espaços que não são exclusivos de arte, mas que resolveram assumir a arte dentro da proposta.


Como é construir uma curadoria para esse tipo de espaço?

Existem muitas diferenças, mas tem uma questão primordial que eu acho que é o montante da pesquisa que é feita. A pesquisa de certa forma atravessa, no meu modo de operação, o trabalho curatorial. Contudo, a intensidade disso será diferente, até dado o tempo que temos para executar a exposição. Também deve se levar em consideração a vocação do lugar, o público que ele atrai e ter um diálogo muito sincero com os artistas e o proprietário do espaço para atender o desejo com aquela exposição.

Locais e exposições em cartaz


Quintal f/508
• Em cartaz: exposição Revérbero, da artista visual Monica Nassar, com curadoria de Humberto Lemos, e acervo fixo com obras de 13 artistas atuantes em Brasília. Endereço: CLN 413 Bloco D sala 113 (1ºandar) - Asa Norte

Projeto Hidden
• Em cartaz: exposição Ritmos e repetição, de Eduardo Bechepeche e trabalhos dos artistas Lila Sobral e Fátima Feijó. Endereço: Ilha do Parque da Cidade, estacionamento 10

Antonieta Café
• Em cartaz: exposição RA XIV, com trabalhos dos oleiros Xibi Rodrigues e Pablo Johson. Endereço: SCRN 708/709 Bloco G loja 20, Asa Norte

Mercado Cobogó e Galeria Baixo Cobogó
• Em cartaz: Dia 10, abre a exposição Íntimo, Reflexões Visuais, do artista André Zottich. Endereço: SCRN 704/705 Bloco E Lojas 51/56 - Asa Norte

Hill House
• Em cartaz: exposição Coleção Fernando Bueno — Artistas de Brasília. Endereço: CasaPark, Piso Térreo, lojas 125/126

Ocupação Contém
• Em cartaz: exposição Brasília 60 - Novas Candangas, com curadoria de Renato Acha. Endereço: Piscina com Ondas, estacionamento 7 do Parque da Cidade

Castália
• Em cartaz: exposição A engrenagem orgânica, da artista Isabella Pina. Endereço: CLN 102 Bloco D Lojas 64/74 - Asa Norte

Magrella
• Em cartaz: obras dos artistas Ralph Gehre e Betty Bettiol. Endereço: SHIS CL QI 03, Comercial, Bloco F - Lago Sul

Dane-se e D! Gallery 
• Em cartaz: exposição de fotografias da Fundação Athos Bulcão. Endereço: CLS 210 Bloco C Loja 6 - Asa Sul

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