Publicidade

Correio Braziliense

Festival Cara e Cultura Negra debate a contemporaneidade afrodiaspórica

O evento utiliza shows, seminários e exposições com o objetivo de derrubar estereótipos e clichês sobre a África


postado em 09/09/2019 07:45 / atualizado em 09/09/2019 10:23

Professor Nelson Inocêncio é o curador da nova edição do Festival Cara e Cultura Negra, além de mediador de mesas do evento(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Professor Nelson Inocêncio é o curador da nova edição do Festival Cara e Cultura Negra, além de mediador de mesas do evento (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 
“Quando se refere à população negra, a tendência é se remeter apenas à escravidão. De um modo geral, há um senso comum e uma dificuldade de entender que as populações negras das Américas e do mundo têm suas formas de estarem em sintonia com o mundo contemporâneo”. Foi a partir dessa premissa que o professor e pesquisador Nelson Inocêncio, curador deste ano — e um dos homenageados de 2013 — do Festival Cara e Cultura Negra, pensou na temática da 15ª edição do evento: a “Contemporaneidade Afrodiaspórica”.

Sob essa perspectiva, Inocêncio montou uma programação que começa hoje e segue até 23 de setembro, com apresentações musicais, exposições, mesas de debate, sarau, desfile de moda e oficinas que se concentram no Teatro Nacional Claudio Santoro (Esplanada dos Ministérios) e no Espaço Cultural Renato Russo (508 Sul), com entrada franca. “Esse conceito do festival é para tentar derrubar os famosos clichês sobre a África. A gente luta muito para vencer essa visão do exotismo. A intenção do Cara e cultura negra é afirmar isso, a partir do que estamos oferecendo ao público, como o Encontro Nacional Pensamento Negro Contemporâneo (que será de 18 a 20 de setembro), mostrar, inclusive no pensar, como combater o racismo nesse mundo contemporâneo”, afirma Inocêncio.

Até por isso, a programação mescla nomes bastante conhecidos — como Zezé Motta — com artistas que passaram a ser reconhecidos tardiamente — a exemplo de Mateus Aleluia — e personalidades ligadas ao pensamento contemporâneo, como o pesquisador Sebastião Fernando Silva, que estuda a ciência e a filosofia da religião, e o músico e escritor Nei Lopes. Ao todo, 24 palestrantes estarão em sete mesas de debate, com diálogos sobre raça, gênero e cultura, entre outros temas.

“Todo mundo conhece a Zezé Motta, mas poucas pessoas sabem do projeto de valorização ao artista negro que ela tem e é importantíssimo. Mateus Aleluia, felizmente, começa a ter uma visibilidade, mas no tempo de Os Tincõas pouquíssimas pessoas sabiam quem era o grupo. Nei Lopes é conhecido como compositor, um artista do mundo do samba, mas ele é um pesquisador com grande relevância”, lembra e emenda: “Quero reconhecer e valorizar o trabalho dessas pessoas. A ideia geral é conversar com essas pessoas e que isso sirva de evidência de que as populações negras estão antenadas com a contemporaneidade. Eles vivem sua africanidade e condição afrodiásporica de forma contemporânea e sintonizada, por exemplo, com as redes sociais”.
 
Mateus Aleluia é uma das atrações da abertura do festival. Nesta terça, ele ainda faz palestra na programação(foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
Mateus Aleluia é uma das atrações da abertura do festival. Nesta terça, ele ainda faz palestra na programação (foto: Vinicius Xavier/Divulgação)
 
 
Lançamento

A abertura do festival será hoje, a partir das 19h30, no Teatro Nacional Claudio Santoro. O lançamento do festival terá três shows: Filhos de Dona Maria, Sambadeiras de Mestre Bimba e Mateus Aleluia, que traz o espetáculo Aclamação à Olorum. No mesmo dia, será lançado o Museu Digital da Memória Negra do DF, uma proposta que, agora, começa a tomar forma. “Essa ideia existe há alguns anos. Temos como parceiro Sebastião Fernando da Silva, que há tempos vem querendo dar forma e conteúdo para o Museu da Memória Negra. A ideia é pensar as referências negras aproveitando que existem outros museus digitais do tema, como no Rio de Janeiro e na Bahia”, revela Nelson Inocêncio.

Na programação musical, o evento recebe, ainda, Luedji Luna, no dia 21, e Rosa Luz, no dia 14. As oficinas passam por temas como fotografia e culinária afetiva afro. Até o encerramento do festival, quatro mostras ficam em cartaz no foyer do teatro: Diáspora africana — Travessias femininas, Contemporaneidade afrodiaspórica, Cores em mim (Willian Santiago) e Estrelas do Blues (Ronaldo Ferreira). “No caso das exposições, elas vão nesse sentido de propor um diálogo com o público para colaborar com a superação dessa ideia estereotipada de que a diáspora e os herdeiros dos povos africanos são lidos e interpretados como primitivos, estando em algum lugar do passado”, explica. Durante os 14 dias, a programação tem ainda apresentações musicais, estão confirmadas Rosa Luz e Luedji Luna, oficinas, palestras, bate-papos, sarau e desfile de moda.

Festival Cara e Cultura Negra 
A partir desta segunda (9/9) até 23 de setembro. Com shows, oficinas, bate-papos, saraus, exposições e mesas de debate. Entrada franca. Classificação indicativa livre.

» Programe-se

Zezé Motta faz show e participa de mesa de debate em 18 de setembro

Shows
  • Segunda (9/9), a partir das 19h30, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Com Filhos de Dona Maria, Sambadeiras de Mestre Bimba e Mateus Aleluia (Aclamação à Olorum). Livre.
  • Sábado (14/9), às 21h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Com Rosa Luz (Contra o encarceramento em massa). Não recomendado para menores de 16 anos.
  • Quarta (18/9), às 20h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Com Zezé Motta (Atendendo a pedidos). Livre.
  • Sábado (21/9), às 21h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Com Luedji Luna (Um corpo no mundo). Livre.

Exposições 
De 9 a 23 de setembro, das 9h às 21h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Livre.
  • Diáspora africana — Travessias femininas
  • Contemporaneidade afrodiaspórica.
  • Cores em mim, de Willian Santiago.
  • Estrelas do Blues, de Ronaldo Ferreira.

Oficinas
  • Até 20 de setembro, às 9h30, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Oficina Básica de Fotografia promovida pela Escola de Cinema Social Cine Braza. De 12 a 18 anos.
  • Até 20 de setembro, das 15h às 16h e das 17h às 18h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Oficina de máscaras de Álèmássà. A partir dos 10 anos.
  • Quarta (11/9), às 19h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Culinária afetiva afro baiana com afrochef Jorge Washington. Classificação indicativa: 15 anos.

Bate-papo
  • Terça (10/9), às 15h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. O personagem negro na cena teatral com Cris Sobral e Jorge Washington.
   
Palestras
  • Terça (10/9), às 16h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Afrobarroco em palestra musical — O canto dos recuados, com Mateus Aleluia. Livre.
  • Sexta (13/9), às 19h30, no Coworking Comoequetalá (407 Norte, Bl. B, Lj. 17). Vida de ilustrador freelancer com Willian Santiago. Classificação indicativa: 16 anos.
  • Quarta (18/9), às 18h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Evolução do blues, com Ronaldo Ferreira e Conexão Chicago. Livre.

Moda
  • Quarta (18/9), às 19h, no Teatro Nacional Claudio Santoro. Coleção Adornos, de Fernando Cardoso.
  • Pesquisador e músico Nei Lopes é um dos destaques da programação de debates

Encontro Nacional Pensamento Negro Contemporâneo
De 18 a 20 de setembro, das 9h às 22h, no Teatro Nacional Claudio Santoro.
  • Quarta (18/9), das 9h às 22h. Estéticas visuais e cênicas. Com Nelson Inocêncio, Zezé Motta, Edileuza Penha, Denise Camargo e Jonas Sales.
  • Quarta (18/9), das 14h às 17h. Estéticas literárias. Com Pedro Ivo Silva, Cristiane Sobral, Jorge Amâncio e Lucia Barbosa.
  • Quinta (19/9), das 9h às 12h. Perspectivas políticas e acadêmicas. Com Lia Maria dos Santos, Nicea Quintino, Joaze Bernardino e Renísia Garcia.
  • Quinta (19/9), das 14h às 17h. Dimensões históricas do ativismo negro. Com Renata Melo, Ana Flávia Magalhães, Guilherme Lemos e Vinicius Dias.
  • Quinta (19/9), das 19h às 22h. Exuzilhamentos anscentrais de negritudes e dissidências sexo-gênero. Com Nathália Vasconcellos, Tatiana Nascimento, Fran Demétrio e Carú Seabra.
  • Sexta (20/9), das 9h às 12h. Mesa 6: Filosofias africanas e afro-brasileiras. Mediação: Tata Ngunz’tala. Palestrantes: Denise Botelho, Sebastião Fernando da Silva e Wanderson Flor.
  • Sexta (20/9), das 14h às 17h. Mesa 7: Ancestralidade e contemporaneidade. Mediação: Nelson Inocêncio. Palestrantes: Nei Lopes, Deise Benedito e Givânia da Silva.
  • Sexta (20/9), às 19h, Sarau da Padê, no Espaço Cultural Renato Russo. Encerramento do Encontro Nacional Pensamento Negro Contemporâneo.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade