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Correio Braziliense

Releitura de Marcio Abreu traz Tchekov para os tempos modernos

'Por que não vivemos?' está em cartaz no CCBB


postado em 12/09/2019 06:30

Por que não vivemos?: obra da crise dos valores e da transição para um futuro desconhecido(foto: Bob Sousa/Divulgação)
Por que não vivemos?: obra da crise dos valores e da transição para um futuro desconhecido (foto: Bob Sousa/Divulgação)

 
Marcio Abreu é um diretor, dramaturgo e ator reconhecido internacionalmente. A influência no mundo das artes é tamanha que criou a Companhia Brasileira de Teatro, com sede em Curitiba, onde realiza projetos de pesquisa e criação de dramaturgia própria, releitura de clássicos e produz encenação de autores contemporâneos no país.

Brasília entra nesta história ao receber a mais nova peça do diretor, Por que não vivemos?. O espetáculo que entra em cartaz no CCBB hoje é uma releitura de uma obra inacabada do dramaturgo russo Anton Tchekhov, escrita em 1878. Por contar com muitos personagens inacabados e opções de continuação, a obra se torna maleável e um local para que a imaginação de Marcio Abreu se desenvolva.

“Esse texto fala sobre juventude. O que eu fiz foi resgatar um projeto antigo, que existe desde 2009. Tem 10 anos que venho tentando realizar uma peça a partir desse texto, que é bastante permeável e se transforma através das épocas, do movimento dos tempos. Originalmente é inacabado, mas é um grande escrito, muito poroso e rico de conteúdo”, explica o diretor.

A primeira exibição da obra de Tchekhov, que não recebeu um título do autor, foi realizada na década de 1920, na França, em dois atos. Agora, em 2019, Marcio Abreu traz novidades na concepção da peça. A inclusão de um ato adicional e a mudança de perspectiva do público observador para um público livre, que interage e acompanha o desenvolvimento do espetáculo são as principais revoluções, estimulando a percepção audiovisual e melhorando a questão sensorial de quem assiste.

“Um ato radical de convivência com as pessoas. É uma peça interativa, porque existe uma espécie de cumplicidade na ocupação do espaço, que é para todo mundo. Nele, temos uma troca de afetos, compartilhamento de inteligência e pensamento coletivo, sem exercício do poder de nenhuma natureza. É liberdade e vivência no sentido público e coletivo”, conta Marcio Abreu.

Trabalhando com um texto que se moderniza automaticamente, encaixando-se nas diversas épocas da humanidade, o diretor brasileiro conta que não precisou fazer procedimentos de aproximação com a realidade em Por que não vivemos?, apenas trouxe características mais brasileiras para a cena – que, segundo Marcio Abreu, não estão relacionadas com mudanças sonoras e/ou visuais, como “a inclusão de um samba ou uma floresta”.

“Brasilidade tem a ver com consciência do múltiplo e do diverso. O Brasil não é uma coisa só, então não quis ceder aos clichês que existem a respeito do conceito. O importante é entender e ter a consciência do local em que vivemos, da nossa história, e das histórias não contadas. A peça é bastante brasileira e universal, no sentido de ser percebida em qualquer circunstância. É combativa, consciente do atual Brasil”, completa.

Mesmo com duras críticas ao atual momento do país, no qual os governantes realizaram cortes nas verbas destinadas às produções artísticas, Marcio Abreu reuniu um elenco robusto e composto com muita qualidade — com a ilustre presença de Camila Pitanga, para produzir um grande espetáculo e mostrar a força de resistência do teatro.

“Um país sem arte e cultura é um país morto. É uma obra generosa, que gera empregos, pluralidade de público e insere-se na economia de uma maneira importante. Nós, como artistas, não vamos retroceder em nenhum aspecto. Não podemos abrir mão da liberdade de expressão individual e não podemos ceder no modo de produção. Vamos resistir a este movimento obscuro e conservador que tenta anular a importância da arte e da cultura”, defende o dramaturgo. “Os parâmetros que orientam nossa vida em sociedade e as bases da democracia estão sendo pulverizadas e destruídas. Essa violência que vivemos hoje nos coloca, necessariamente, diante de um futuro a ser inventado na perspectiva da convivência, da diversidade e do plural, com uma consciência a respeito do outro e uma visão mais coletiva das coisas”, completa.

*Estagiário sob a supervisão de Severino Francisco



Por que não vivemos?
CCBB (SCES Tc. 2). De quinta a domingo, das 19h30 às 22h0. Exibição da peça Por que não vivemos?. Ingressos a partir de R$ 15 (meia-entrada). Não recomendado para menores de 16 anos. Em cartaz até o dia 29 de setembro.
 
 

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