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Correio Braziliense

Daniel Paiva: 'A discografia de Nara Leão é uma história de nossa música'

Em entrevista ao Correio, o pesquisador Daniel Saraiva fala sobre a personalidade tímida, silenciosa, carismática e corajosa de Nara Leão


postado em 14/09/2019 06:01 / atualizado em 13/09/2019 19:03

Nara Leão transitou pelos principais movimentos da música popular brasileira(foto: Letra e voz/Reprodução)
Nara Leão transitou pelos principais movimentos da música popular brasileira (foto: Letra e voz/Reprodução)
Nara Leão era tão tímida que, no primeiro show ao vivo, ela cantou de costas. Mesmo assim, à revelia, ela se tornou musa e líder da bossa nova. E sua ação extrapolou o movimento. Inquieta, curiosa e corajosa, ela transitou por múltiplas vertentes da música popular brasileira. Gravou com Caetano e Gil, quando a Tropicália era contestada, subiu ao morro para resgatar o samba de Zé Keti, participou do primeiro disco de Fagner e fez um disco com o repertório de Roberto e Erasmo Carlos.

Mas ela estabeleceu também uma conexão surpreendente com Brasília. Conheceu os irmãos piauineses Clodo, Climério e Clésio, se apaixonou pela música deles, gravou canções no álbum Romance popular, de repertório mais dançante. Na verdade, Nara gostou tanto dos irmãos piauienses que compôs a única canção de sua carreira, intitulada Cli-Cle-Clô, em homenagem aos amigos brasilienses, numa parceria com Fagner e Fausto Nilo.

O historiador Daniel Saraiva reconstitui a trajetória da cantora da bossa nova na biografia Nara Leão — trajetória, engajamento e movimentos musicais. Ele enfatizou a dimensão de pesquisadora intuitiva, que circulava livremente pelos principais movimentos dos anos 1960 e 1970. E, nesta entrevista, Daniel fala sobre alguns aspectos da personalidade tímida, audaciosa, corajosa, silenciosa, carismática, contraditória e fascinante de Nara Leão.

Nara já havia sido biografada por Sérgio Cabral. Qual a perspectiva da biografia que você escreveu?

A minha ideia é escrever uma biografia diferente da usual. Sérgio Cabral já havia escrito uma biografia muito completa, mas faltou o lado de pesquisadora e questionadora da injustiça social.


Por que Nara participou dos principais movimentos musicais do seu tempo?

Acho que além de uma intérprete, ela é uma pesquisadora da música brasileira. Quando estava consagrada, ela vai para a música engajada. Participou da Tropicália. Não tinha preconceitos musicais, o que encontrava com qualidade, tinha vontade de gravar. A discografia dela é uma história de nossa música, de Ary Barroso até os compositores novos. Ela participou do primeiro disco de Fagner e, praticamente, lançou Chico Buarque.


De onde vinha esse gosto de pesquisadora?

Ela não tinha formação acadêmica específica, mas era uma intelectual. Intuitivamente, conseguia desbravar a música brasileira. Ela conviveu muito com a intelectualidade, com os músicos e os historiadores. A Nara era curiosa e estava sempre pesquisando. Tem um disco de 1968, em que ela foi atrás de compositores mais antigos. Regravou Assis Valente e Ary Barroso. Ao ouvir os seus discos, a gente mapeia a música popular brasileira. Você encontra até Roberto e Erasmo Carlos.

Como foi a relação dela com a Tropicália, que era bastante contestada no surgimento, na virada final da década de 1960?

Com certeza, estava sendo totalmente contestada, Dory Caymmi, Chico Buarque e Sérgio Ricardo tinham restrições ao movimento. Neste momento, ela participou de uma reunião sobre a Tropicália e defendeu o movimento. Inclusive, Caetano e Gil compuseram a canção Lindoneia por sugestão de Nara. Mostra que, enquanto colegas ficavam receosos de se posicionarem, ela não tinha medo de participar de nada. E os artistas da Tropicália estavam em começo de carreira.


Como avalia a participação de Nara na bossa nova? Em que medida ela abriu uma nova vertente dentro do movimento?

Ela se junta com Carlos Lyra e Sérgio Ricardo traz a bossa nova para o engajamento político. Inspirou muito a Chico Buarque. O grupo se reunia no apartamento dela. Ela é uma figura central no movimento, era uma mulher em um movimento praticamente masculino. Musicalmente, o jeito intimista dela de cantar foi, durante toda a carreira bossanovista. Se João era a referência masculina da bossa nova, ela era a referência feminina. Fernanda Takai reconheceu a influencia de Nara e gravou dois discos com repertório de bossa nova.

Nara era uma tímida e, ao mesmo tempo, uma musa e uma líder. Qual a explicação para uma personalidade tão contraditória?

Ela era a antiestrela total. Ela tinha uma preocupação com a carreira, mas não gostava de ser famosa. Era uma dubiedade. Mas também não deixava de cantar. É algo complexo, tentava não ser famosa, várias vezes dizia que ia parar de cantar. Formava uma figura contraditória; era avessa à fama, mas sabia a importância dela na cultura brasileira. No início, rechaçou completamente a fama. No final, ela lidou melhor com isso.

Como se deu a conexão de Nara com o morro e qual a importância da mediação dela para o samba?

Primeiro, por influência do Carlos Lyra, começa participar do Zicartola, o famoso bar de Dona Zica e do Cartola. No primeiro disco, queriam bossa nova e ela quis gravar os sambistas. Essa mediação contribuiu para que compositores importantes, como é o caso de Zé Keti e Cartola, saíssem do ostracismo. Depois disso, Zé Kéti grava os próprios discos, o Cartola. Ele dizia: “a Nara ter gravado samba era muito importante para a gente”. Ajudou a dar visibilidade aos sambistas. O espetáculo Opinião foi feito com base no disco da Narra: João do Vale representava o homem nordestino, Zé Keti, o morro, e Nara, a classe média brasileira.

Nara com Zé Kéti e João do Vale no histórico show Opinião(foto: Letra e Voz/Reprodução)
Nara com Zé Kéti e João do Vale no histórico show Opinião (foto: Letra e Voz/Reprodução)


A voz de Nara foi contestada no início da carreira. Mas, depois, ela ficou em vigésimo segundo lugar em enquete da revista Rolling Stone sobre as 100 maiores vozes da música popular brasileira. Por que  isso ocorreu?

Eu explico porque a Nara conseguiu mostrar que uma grande voz não se dá apenas pela extensão vocal. Ela sabia escolher o repertório. Não é possível pensar em grandes artistas da música brasileira sem a presença da Nara. Ela convidou Bethânia para o show Opinião. Conseguiu conquistar o público com o jeito intimista e com o repertório.

Em que medida Nara foi uma feminista?

Sempre tive muita dúvida. Isabel, filha de Nara, fala que a mãe não era feminista de participar de grupos. Mas sempre foi uma mulher à frente do seu tempo. Estava em um grupo predominantemente masculino. As suas entrevistas eram muito polêmicas, pois ela expunha as opiniões com franqueza. Em 1966, ela critica abertamente a ditadura. O seu comportamento era de um mulher à frente do seu tempo.

(foto: Letra e Voz/Reprodução)
(foto: Letra e Voz/Reprodução)


Nara Leão: Trajetória
200 páginas/Ed. Letra e Voz

Encontro com os irmãos piauienses em Brasília


Nara Leão gravou o disco Romance popular, com um repertório mais dançante, produzido por Fausto Nilo. Ele a apresentou aos irmãos piauienses/brasilienses Clodo, Clésio e Climério. Ela ficou encantada com a delicadeza, o senso de humor e o talento deles. Trocaram muitas figurinhas sobre música popular brasileira, comeram “Maria-Izabel” (um prato tipicamente piauiense), articularam planos e ficaram amigos.

Gravou várias canções dos irmãos piauienses no disco Romance Popular. Eles ficaram em êxtase: era de uma importância enorme serem gravados por uma cantora do tamanho de Nara Leão. Mas ela foi além. Certo dia, apareceu com o rabisco de uma letra de canção em homenagem aos amigos brasilienses, sob o título Clô, Clé, Cli.

Fagner harmonizou o violão e Fausto Nilo improvisou a letra a partir da frase: “Ciclamem, meu bem, me chame/No céu azul para chover”. Ficou assim: “Cli, eu penso em quimera/Clô, acabado, fechado/Clê, passarinho quero-quero/Ciclamem, meu bem me chame, chame o meu nome/No meio do prazer/Aquela voz pode ser/Me ame, meu bem, me ame/Me espere, vou com você”. Os irmãos piauienses/brasilienses inspiraram a única canção composta por Nara Leão: “Dá para a gente aguentar uma coisa dessas?”, pergunta Climério.

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