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Correio Braziliense

Camila Pitanga: 'Fazer arte no Brasil não é um trabalho, é uma missão'

Em cartaz na cidade com a peça Por que não vivemos?, a atriz fala sobre o que tem pensado e feito para enfrentar os momentos difíceis do Brasil de hoje


postado em 14/09/2019 06:15 / atualizado em 14/09/2019 08:17

(foto: Estevam Avellar/Divulgação)
(foto: Estevam Avellar/Divulgação)
 
Quase todos os funcionários e hóspedes no saguão de um hotel da Asa Norte percebem a presença da mulher à porta antes mesmo que ela adentre totalmente o espaço. O movimento da plateia — quase sincronizado — em direção à entrada ocorre porque Camila Pitanga é assim: visceral, uma força da natureza. A filha dos artistas Antonio Pitanga e Vera Manhães fala com a mesma intensidade sobre restaurantes naturais e sobre a atual situação do país. Camila anda preocupada com os retrocessos na política cultural brasileira, mas, ao mesmo tempo, é otimista. Em conversa com o Correio, entre outros assuntos, ela falou sobre o espetáculo Por que não vivemos? (em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), de quinta a domingo, até 29 de setembro), engajamento social, preconceitos... Camila Pitanga também fez questão de ressaltar a necessidade de falar menos, ouvir mais e agir. Duas horas após o término do bate-papo com a reportagem, ainda refletindo sobre alguns dos assuntos tratados ali, enviou um áudio em que um violeiro a quem ela chama de Mineirinho diz: “Estamos seguindo na mesma trincheira, comadre, de cabeça erguida e coração ardente. É tempo de a gente ter tranquilidade, serenidade, porque toda onda vem forte, mas quebra na praia e passa. Sempre há de vir tempo bom”. Assim, avisa Camila, ela tem seguido em frente.

Qual é a sua impressão de Brasília?

Eu já vim aqui algumas vezes, vim com espetáculos. Eu quero conhecer mais a cidade. Como as minhas sobrinhas moravam aqui, eu tinha uma coisa bem de família, uma Brasília afetiva, querida, mas eu conheço pouco. Estou devendo essa para mim mesmo.


Quando você pensa na cidade não vem logo a questão política na sua cabeça?

Aqui é o centro nervoso do Brasil, os ovos da serpente estão aqui, mas eu prefiro falar de Brasília sob esse aspecto familiar e afetivo. Eu acho que quem mora aqui também pode ser visto dessa maneira.

Traçando um paralelo entre a peça (que faz questionamentos sobre o que não foi vivido) e os dias atuais, o que você pensa sobre a sensação de impotência que permeia as questões no espetáculo?

O espetáculo convida a todos — atores e espectadores — a se perguntarem: o que a gente faz com essa impotência que não é uma realidade dada e fechada? Porque todo mundo tem a possibilidade de fazer movimentos, dentro de si ou no coletivo, por alguma coisa, alguma causa. Ao narrar o questionamento dos personagens sobre as suas impotências, a peça provoca no espectador a sua possibilidade de potência.

De que maneira?

Os personagens não estão impotentes e apaziguados com isso, eles estão se questionando. Isso faz o espectador pensar: “Se eu sou isso, não quero ser mais, não quero ter essa passividade”. A própria pergunta “por que não vivemos como poderíamos ter vivido?” é uma provocação. Não é para acharmos que estamos no fim da linha, mas de pensarmos: “Estamos em um momento tenso, difícil, de reflexão profunda, mas vamos ficar só olhando essa crise? O que podemos fazer para sair desse estado de perplexidade?”. Nesse sentido, a peça estimula as pessoas a quererem ser diferentes, a deixar essa apatia. A indignação, para mim, é desnecessária quando fica sendo apenas um fel que invade a alma e você não faz nada. Geralmente, quando ficamos indignados, apontamos o dedo para que está nos deixando daquela maneira, em vez de apontarmos o dedo para nós e questionarmos o que podemos fazer. Agora, mais do que nunca, precisamos, em vez de apontar o dedo para o outro, questionar o comprometimento que você tem com a sua vida, com o seu país, de fazer alguma coisa. E numa dimensão coletiva, mais do que numa dimensão individualista.


Você se sente impotente hoje em dia?

Não! Definitivamente, não! Eu me fortaleço nas minhas amizades, no que estou fazendo no meu trabalho. Acho que todas as pessoas, independentemente da sua área de atuação, têm voz, um olhar sobre o outro, a possibilidade de criar algum tipo de movimento. Eu acredito muito nisso. Nesse movimento interno que está me empoderando, me estudando, querendo falar com outras vozes. Nesse sentido, não sinto impotência porque não me sinto sozinha. Vejo muitas pessoas que acreditam e valorizam a democracia, que respeitam a diversidade.

Você é muito engajada, politizada. Quando isso começou? Você sempre foi questionadora?

Sempre fui e isso tem muito a ver com ser filha de Antonio Pitanga. Meu pai sempre foi um homem que usava o questionamento para um bem coletivo. Usava a voz e a arte para valorizar ideais progressistas, democráticos. Eu tenho essa inquietude na minha casa a respeito da desigualdade social no país, a respeito desse racismo institucional, que acho que é base de grande parte das mazelas que vivemos hoje, com essa base desse país que ainda é escravocrata, ainda exerce ideais racistas e escravocratas no dia a dia. Então, essa inquietude é reflexo do meu pai e dos encontros que a vida me trouxe também.


Você tem amigos envolvidos diretamente na política e comenta com frequência assuntos ligados a isso. Como você faz política no dia a dia?

Acho que faço quando respeito quem trabalha comigo, quando entendo que o feminismo pode ser uma razão, uma ideia e uma prática diária, com a maneira que lido com as mulheres no trabalho. São práticas cotidianas mesmo porque, às vezes, a gente pensa que a política está apenas na questão institucional, que é muito necessária, e nós precisamos de uma política partidária, sim, porque é necessário o surgimento de novos atores políticos para nos sentirmos representados. Mas acredito muito nessa política do cotidiano, que, às vezes, são coisas tão básicas que, para muita gente, ainda não é natural, como respeitar o outro, reconhecer a sabedoria que não está necessariamente na academia, mas em todos os extratos sociais, ter uma escuta sincera, honesta com as pessoas independentemente da classe social. Isso é algo que meu pai me trouxe e eu aplico no meu dia a dia. Isso é política. Quando você tem empatia pelo outro, quando você reconhece o valor de qualquer pessoa, independentemente de ela ser identificada com a sua história, quando você tem uma prática existencial de solidariedade. É o dia a dia mesmo.


Que tipo de preconceitos há no meio do teatro?

O ativismo negro e o ativismo LGBTQ+ cresceram por si próprio e se espraiaram em todos os lugares: institucionalmente, com a representatividade política, claro, ainda aquém de uma necessidade. Sinto que esse ativismo fez com que o próprio teatro tivesse de se repensar. Então, você tem agora um crescimento de grupos de teatros com representatividades em diversos estados brasileiros, de gente que está querendo exercer a sua voz e não está mais esperando o convite. Acho muito interessante essa atitude ativa. As próprias composições de elencos em grandes peças estão diferentes, há um pensamento sobre representatividade de um jeito que não se pensava há 10 anos. Agora isso não quer dizer que o teatro não reproduza ainda uma série de preconceitos de toda ordem. Mas é uma conquista dos movimentos e o teatro teve que acompanhar esse lugar.

Qual é a análise que você faz do desmonte da cultura no governo Jair Bolsonaro?

A gente teve um papo com a equipe na semana passada porque estamos sendo metralhados com informações de que espetáculos estão sendo cancelados, adiados, alguns no meio da temporada precisam ser interrompidos. Isso, para mim, fortalece a vocação, o sentido de a gente está fazendo uma peça de teatro. De alguma maneira, ressignifica o que a gente está fazendo aqui, estar atuando, estar dizendo as coisas que nós estamos falando na peça. Fazer arte no Brasil hoje em dia não é um trabalho, é uma missão. São inúmeras as possibilidades de resistência. Mas há de ocorrer algum tipo de reação porque não pode deixar tudo isso passar batido, não pode ficar impune.

Você chega a se perguntar que ações mais efetivas e diretas podem ser feitas, indo além do teatro, por exemplo?

Claro que me pergunto isso, mas uma coisa não pode enfraquecer a outra. Porque esse lugar onde estamos é uma trincheira de resistência. E digo isso porque, a gente, sem querer, fica se sentindo culpado de fazer e isso tem muito valor. Eu comecei a fazer uma coisa desde o ano retrasado para sair dessa bolha. Passei a ter conversas com pessoas de outros repertórios, como a galera da poesia, do Complexo da Maré… Esse tipo de troca, de convivência é muito importante. Se a gente ficar falando só para gente da nossa bolha, não adianta, ainda que isso tenha muito valor. A gente precisa se fortalecer e se ver para não se sentir sozinho. Mano Brown bem chamou a atenção ao dizer que se a gente não voltar às bases, ficaremos no mesmo lugar. É o que estou tentando fazer. Claro, ficar só teclando nas redes sociais não é suficiente, mas tem sido uma fonte de comunicação importante que não pode se apaziguar ali. Esse trabalho de formiguinha, de sair da zona de conforto, trabalhar a base, ir às escolas, cada um no seu trabalho, é fundamental. Isso não é uma questão de artista. Se cada um doar seu tempo, acho que a gente avança muito. Quando a gente teve uma crise de segurança eu perguntei: como a gente fala para as massas? Aí, o jurista Geraldo Prado me disse: “Camila, está na hora de falar menos e ouvir mais”. Eu fiz isso. Me coloquei em lugares que, talvez, se fosse só pelo meu trabalho, eu não iria, Pode ser uma roda de conversa que me empodera ainda mais, essa escuta do outro.

Na sua opinião, como o Brasil chegou a esse ponto?

Eu vi uma entrevista do Gilberto Gil e acho que faz sentido: a história da humanidade tem esses movimentos de ação e reação, fluxo e contrafluxo. E estamos nesse momento de andar para trás. Mas isso também engendra na nossa geração, independentemente da idade, um comprometimento com a vida mais consistente. Muitos dos problemas que estamos vivendo agora de maneira tão aguda pareciam que não estavam lá, mas estavam. Quando a gente passa a questionar o racismo, a intolerância etc., isso não é novidade. Faz mais sentido, para mim, ver o que podemos fazer do que ficar só lamentando o que estamos perdendo. Mas é um momento também em que podemos fazer mudanças mais consistentes para o modelo de país que queremos, de humanismo que queremos estabelecer entre nós mesmos.

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