Publicidade

Correio Braziliense

Espaços resistem às dificuldades para oferecer cultura

Espalhados por diferentes regiões do DF, núcleos resistem por amor à cultura e para abrir espaço para a produção local e nacional


postado em 15/09/2019 06:30 / atualizado em 14/09/2019 17:58

Este ano, o Teatro Garagem completa 40 anos de atuação ininterrupta(foto: Antônio Cunha/Esp. CB/D.A Press)
Este ano, o Teatro Garagem completa 40 anos de atuação ininterrupta (foto: Antônio Cunha/Esp. CB/D.A Press)


Era 5 de julho de 1979, e as cortinas do palco se abriram, pela primeira vez, para apresentar a história da construção de Brasília. Dirigida por Humberto Pedrancini, a peça A capital da esperança, além de inaugurar o Teatro Garagem, evidenciava a vocação artística de uma jovem cidade ávida por cultura. Desde então, são 40 anos de atuação ininterrupta de um espaço que surgiu na garagem de um prédio — o que determinou seu nome — e da vontade da classe artística. Até hoje o espaço representa a resistência da capital da esperança.

Entre o abrir e o fechar das cortinas, a história do teatro se assemelha a de outros locais do Distrito Federal. Espaços que nasceram das mãos de atores, dramaturgos, artistas plásticos, bailarinos, voluntários e amantes das artes e resistem mesmo em tempos de seca de incentivos públicos e descaso. “Ele (o Teatro Garagem) começa a partir de uma demanda da própria classe artística no final dos anos 1970. Brasília tinha espaços limitados e os oficiais, como o Teatro Nacional, não recebiam tanto a produção local. Hoje, é um espaço que faz parte da cena cultural da cidade”, lembra Ivaldo Gadelha, 54 anos, conhecido como Tarzan, técnico cultural do Sesc desde 2002.

Além de trabalhar no teatro, Ivaldo viu e acompanhou o surgimento do palco. Durante a infância e a adolescência, morou em frente ao Garagem e assistiu desde ensaios a apresentações de artes cênicas. “Foi a primeira experiência que eu tive de fruição artística”, descreve. Mesmo com as proibições do período da ditadura, o então garoto fez um acordo com o diretor do teatro para assistir aos espetáculos embaixo da arquibancada. “Foi algo decisivo. A partir dali, resolvi que aquele universo faria parte da minha vida. Queria aquela convivência. Fiz teatro, caminhei por diversas linguagens artísticas, estudei música na UnB. Tudo isso me deixou uma pessoa mais humana, mais empática”, conta Ivaldo.

Para o brasiliense, alguns fatores favorecem ao Garagem essa longevidade. Apesar de pequeno, o espaço é multiuso, as arquibancadas são móveis, o que permite criar vários layouts na sala, conta com bons equipamentos e uma equipe técnica experiente. Contudo, ressalta que o interesse da instituição em manter em funcionamento um espaço cultural é fundamental. “É um projeto, um plano estratégico de formação de plateia e fomento da produção local. O Sesc acredita que a cultura é uma poderosa ferramenta e estratégia de transformação social”, explica.

Aos 33 anos, a Casa do Cantador, em Ceilândia, se transformou na casa da população local(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Aos 33 anos, a Casa do Cantador, em Ceilândia, se transformou na casa da população local (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Atualmente, além do Garagem, o Sesc tem cinco empreendimentos localizados em diversos pontos do Distrito Federal: Sesc Estação 504 Sul (Espaço Cultural Ary Barroso), Taguatinga Norte (Espaço Cultural Paulo Autran), Ceilândia (Teatro SESC Newton Rossi), Setor Comercial Sul (Teatro Silvio Barbato) e o Teatro do Gama (Teatro Sesc Paulo Gracindo).

Entre os desafios, Ivaldo destaca, justamente, um dos propósitos do espaço: a formação de plateia. “Você criar o hábito das pessoas frequentarem o teatro é um grande desafio. É preciso manter uma programação diversificada e de qualidade, o que exige um olhar muito apurado para a cena cultural local para a gente não cair em algo palatável, fácil e comercial”, afirma. Hoje, a instituição atua com duas possibilidades de agenda, um que circula por todos os espaços Sesc e outra pontual desenvolvida para cada contexto.

Considerada o Palácio da Poesia e da Literatura de Cordel no Distrito Federal, a Casa do Cantador, em Ceilândia, também simboliza a resistência e a força de uma cultura miscigenada. “Está resistindo, porque o concreto ali é pesado, tem assinatura de Niemeyer”, resume, como um bom repentista, Zé do Cerrado, atual gerente do espaço. Inaugurada em 1986, ela abriga manifestações culturais de todo tipo, mas, sobretudo, aquelas com alma nordestina. “Cada administração se faz um formato, mas a alma da casa permanece a mesma”, afirma o gerente.

Com um amplo espaço e algumas salas, a Casa do Cantador, hoje, recebe cinco programas ocupacionais, como aulas de dança e uma orquestra infantojuvenil. “O FAC oferece atividades de segmentos diversos para lá.  A gente, que é nordestino, não deixa de ter orgulho por ter a casa construída em homenagem aos repentistas”, comenta Zé do Cerrado.

Aos 33 anos, a Casa do Cantador extrapolou as fronteiras e os sotaques e se transformou em uma “casa do povo de Ceilândia”, como descreve o repentista. “A Ceilândia é aquele caldeirão de cultura, e acho que você conta nos dedos os espaços que a população tem para fazer os seus eventos”, acrescenta Zé.

Colônia de férias Mapati: uma das formas de seguir com o espaço sem deixar de lado a essência cultural(foto: Mapati/Divulgação)
Colônia de férias Mapati: uma das formas de seguir com o espaço sem deixar de lado a essência cultural (foto: Mapati/Divulgação)

Situação nacional

Em 1991, a atriz e diretora teatral Tereza Padilha fundou a Cia. Teatral Mapati (707 Norte), companhia e espaço que se consolidaram como referências culturais em Brasília. Lutar e resistir são verbos que ela aprendeu ainda na faculdade com a professora e famosa atriz Dulcina de Moraes. “Dulcina foi minha mestra. Uma vez ela me disse: não faça teatro, mas, já que vai fazer, faça com resistência.Eu me baseei muito nela para abrir um espaço de cultura. O artista é o verdadeiro apoiador do Mapati”, conta Tereza.

A atriz confessa viver em dificuldades devido à falta de ações do poder público. “Continuamos porque somos insistentes. Cultura é uma questão de memória, de ter um trabalho no qual você vai ter uma criança que vai assistir ao espetáculo e aquilo fica na memória dela, a vivência do espaço. Como você vai fechar sonhos? Sonhos de uma comunidade e de uma cidade”, questiona Tereza.

Ator e produtor cultural do Espaço Cena (205 Norte), Chico Sant’Anna também enfrenta essa luta pela arte e cultura. “Frequentemente nos perguntamos como conseguimos, vamos levando para frente, para não desistir, não fechar, não parar. As intempéries são as piores, e as tendências não são as melhores”, pondera. Fundado em 2005, o Espaço Cena é um teatro de bolso e um centro cultural criado como uma ação permanente do Cena Contemporânea, um dos principais festivais de teatro do país.

Há alguns anos, o teatro mantém as atividades em decorrência de um apoio financeiro do edital de manutenção de espaços do Fundo de Apoio à Cultura do DF. Como contrapartida, realizam espetáculos, oficinas, mostras de cinema e palestras. “A cultura sempre foi relegada, isso em todos os níveis. Pensamos que não, mas grandes atores e diretores passam pelos mesmoss problemas”, comenta Sant’Anna. Apesar dos 14 anos de atuação, o produtor conta que até hoje recebe espectadores novos, que nunca tinham ouvido falar do espaço. “É uma perspectiva nova e outra razão para resistirmos”, afirma.

DEPOIMENTO // Pura guerrilha


“Os espaços públicos já, ao longo de alguns anos, sofreram um baque, o Teatro Nacional está fechado, o Espaço Cultural Renato Russo voltou agora, mas ficou muito tempo fechado. Eu me lembro que mesmo os espaços privados, devido a algumas crises financeiras, ou foram fechando ou ficando defasado de equipamentos. Nesse sentido, dos poucos que permaneceram abertos, como o Teatro Goldoni e o Mapati, eles se tornaram de fundamental importância para a cultura de Brasília. Percebo muitos artistas fazendo projetos dia de semana, por exemplo, a gente faz Os dramáticos há quase cinco anos, às terças-feiras, porque é o espaço que sobra.

Tem um espetáculo que a gente faz há cinco anos no Mapati que ocupa a casa inteira uma vez que o espaço estava praticamente sem funcionar como teatro, apesar de ter várias outras atividades lá. E, quando estava procurando uma pauta para apresentá-lo, não conseguia em teatro algum, uma vez que são poucos os teatros e, obviamente, eles vão priorizar teatros profissionais e não peças resultantes de oficinas.

Nesse sentido, o Mapati e o Goldoni são teatros de resistência. Até a Caixa Cultural está sofrendo sanção, tanto financeira quanto política. O CCBB, também. No caso específico do Mapati, você ainda ter um espaço administrado por duas mulheres, um casal, onde você tem a liberdade de expressão e elas, por pura guerrilha, conseguirem manter o espaço, vai saber a que duras penas, e ainda baratear o máximo possível para que os artistas ocupem esse espaço, isso é de um heroísmo sem limite. Esses são os novos heróis da cultura de Brasília junto com os artistas que criam os produtos. São verdadeiros espaços democráticos de arte. Vida longa!”

Ator e diretor Abaetê Queiroz integra a Agrupação Teatral Amacaca (ATA), grupo residência no Espaço Cultural Renato Russo.
 
 

Outros locais


Cine Brasília
• Entrequadra Sul 106/107

Espaço Cultural Renato Russo
• CRS 508

Teatro Dulcina de Moraes
• Conic, SDS Bloco C

Espaço Cultura Galpãolzinho
• Setor Central Quadra 52 - Gama

Mini Teatro Lieta de Ló
• Rua Hugo Lobo Quadra 46 Casa 790 Setor Tradicional — Planaltina

Espaço imaginário cultural
• Qs 103 Conjunto 05 - Lote 05 — Samambaia Sul

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade