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Correio Braziliense

Grupo ATA de Hugo Rodas completa 10 anos e celebra a arte

Comandada pelo diretor, a orquestra de atores da Agrupação Teatral Amacaca (ATA) reafirma a intensidade, a diversidade, a democracia e a arte


postado em 16/09/2019 06:05

(foto: Sartoryi/Divulgação)
(foto: Sartoryi/Divulgação)

“Brasília precisa saber o que é um grupo e o que é ser um operário do teatro”, afirma o diretor uruguaio brasiliense Hugo Rodas. Cercado por sua orquestra de atores da Agrupação Teatral Amacaca (ATA), ele construiu uma família. “Dessas famílias tipo commedia dell arte, que se une em torno do circo, da apresentação, da arte”, complementa o ator André Araújo. E, como toda grande família — ao todo, são 17 integrantes — há divergências e convergências. Ao mesmo tempo, é essa intensidade de convívio, de troca, de experimentações que torna o coletivo único, dentro e fora do palco.

Este ano, a ATA e Rodas celebram 10 anos de um trabalho que nasceu em meio as aulas de Técnicas Experimentais em Artes Cênicas, disciplina ofertada pela Universidade de Brasília (UnB) e que tinha o diretor como professor. Maestro de um coletivo heterogêneo, com diferentes gerações e experiências, Rodas também concretiza com essa formação um trabalho de mais de 40 anos. Um grupo musicante, que une exploração vocal, muscular, gestual, estudo de instrumentos musicais e ritmos.

Da mesma forma que, em 1977, a encenação de Os Saltimbancos pelo Pitú, grupo também dirigido por Rodas, marcou uma fase importante na cena artística brasiliense, a remontagem realizada pela ATA comprovou o que Brasília precisa saber: a potência e a identidade de um coletivo. Desde julho, quando estrearam no Centro Cultural Banco do Brasil , foram 27 espetáculos, em diferentes regiões do DF, e um público de 7 mil pessoas. “Os Saltimbancos está colocando o grupo em outro patamar. A ATA ainda está se construindo. Talvez seja mais sólido com as individualidades, mas, como grupo, Os Saltimbancos colocou a gente em outra rota”, comenta o ator Iano Fazio.

A decisão de inserir no repertório da trupe o texto de Chico Buarque, contudo, não foi unânime. “No começo, teve gente que não queria falar de Saltimbancos”, cutuca o diretor. “Mas as épocas estão muito parecidas, a necessidade de abrir a boca para dizer algo, mesmo sendo uma peça infantil. São sentimentos humanos, políticos, simples e nada é melhor do que o simples”, acrescenta. A divergência dessa escolha é apenas uma dentro de um caldeirão de sentimentos, ideias, crenças e vivências de 17 pessoas diferentes.

“Esse convívio é intenso em todos os aspectos, porque já são 10 anos. A gente vive essa relação que já se torna bem familiar e nos alimenta muito. Nas adversidades, nos grandes desafios, na falta de criatividade, no cansaço extremo, nas vezes que a gente não quer estar aqui, isso acontece. Tudo isso, de alguma forma, alimenta e movimento o nosso trabalho”, comenta a atriz Juliana Drummond. Hoje, a ATA colhe os frutos de um trabalho árduo. “Já tivemos momentos que não tínhamos projeto, não tínhamos apoio. É um desafio diário a manutenção da relação independente se tem ou não dinheiro, se tem ou não espaço. A gente inventa e une forças”, pontua Dani Neri.

Depois de 10 anos na estrada, a ATA passou por mudanças e renovações. Para Camila Guerra, foi preciso resistência para construir a unidade que o público aplaude nas apresentações. “Um time é composto por várias pessoas. Não importa muito o que você sente pelo outro, mas o quanto está disposto a ajudar para atingir um resultado comum. Existe esse pensamento que construímos, não só de família, mas como se fossemos um time, uma orquestra”, comenta Fazio. “Mas, na balada somos os inimigos do fim”, complementa aos risos Araújo.
 
A trupe da orquestra teatral resiste a todas as intempéries e brilhou no espetáculos 'Os Saltimbancos'(foto: Diego Bresani/Divulgação)
A trupe da orquestra teatral resiste a todas as intempéries e brilhou no espetáculos 'Os Saltimbancos' (foto: Diego Bresani/Divulgação)
 

Exercício de democracia


Os aprendizados do “zoológico cármico sem grades”, como define a atriz Rosanna Viegas extrapolam os limites do palco e dos ensaios. “A gente vive uma experiência louca de democracia dentro do grupo, pluralidade de pensamentos, lugares de fala, olhares. Ao mesmo tempo em que a gente dialoga bastante e tem algo que nos une profundamente, às vezes bate uma pauta muito simples para o grupo discordar, discutir. O que é comum na democracia, o que nos ensina algo de cidadania e empatia”, avalia Gabriela Correa. Ao descobrir como interagir no meio de algo tão heterogêneo, os membros da ATA praticam não só os ensinamentos teatrais de Hugo Rodas, mas colocam em prática a escuta. “É um exercício político, democrático e transcendental”, finaliza Gabriela.

Para o diretor, a dificuldade é a mesma enfrentada nos casamentos e relacionamentos amorosos. Estar com a mesma pessoa de manhã até a noite; cozinhar, acordar, namorar. “Sempre que você faz algo com alguém novo é como um grande descanso, porque você não tem conflito. Ao mesmo tempo, só esse tipo de união que é a que provocou o grupo e que permite que trabalhemos”, afirma. Por isso, Rodas se declara um monogâmico, porém infiel. O diretor e os próprios atores do grupo realizam trabalhos com outras pessoas, fazem residências, intercâmbios, mas permanecem unidos nessa grande orquestra de atores.

A união, para Rodas, vem do trabalho. O que os atores discordam e logo fazem cara feia. “Não temos uma formação purista. Individualmente, somos formados por possibilidades cênicas diferentes. Junta os treze e vira uma conta exponencial surreal. O que é muito rico se você tem uma pessoa com a inteligência e o bom gosto do Hugo para amarrar tudo isso”, justifica Abaetê Queiroz. Além da direção que já tem sua assinatura, o uruguaio-brasiliense sabe extrair o potencial máximo de cada profissional. “Como ele te provoca, dá as ferramentas, te capacita e te coloca para bater o pênalti”, completa Queiroz.

Em ano comemorativo, além de Os Saltimbancos, a agrupação prepara mais um espetáculo, Poemas. Algo diferente de tudo o que já apresentaram, mas que tem estampado o selo da união familiar: ATA e Hugo Rodas. Com ensaios semanais no Espaço Cultural Renato Russo, onde são o grupo residente, eles não param de trabalhar. “É um trabalho de desenvolvimento constante, de fluidez do movimento, da consciência corporal. Porque com toda a nossa diversidade, a gente precisa virar um corpo só”, declara Dani. “Vai embora e cria seu grupo de guerra”, acrescenta e finaliza Hugo Rodas.

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