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Correio Braziliense

A ascensão dos drag kings em peça no Espaço Cultural Renato Russo

Quatro atrizes da peça 'A resistível ascensão de Arturo Ui' falam sobre os seus processos criativos


postado em 17/09/2019 06:15 / atualizado em 17/09/2019 07:47

As quatro atrizes em cena: Nininha Albuquerque, Ana Quintas, Larissa Souza e Fernanda Alpino(foto: Nina Quintana/Divulgação)
As quatro atrizes em cena: Nininha Albuquerque, Ana Quintas, Larissa Souza e Fernanda Alpino (foto: Nina Quintana/Divulgação)

A atriz Nininha Alburquerque, do Grupo Liquidificador, estava com o braço engessado. Mas nem por isso as sessões do espetáculo A resistível ascensão de Arturo Ui, apresentadas nos dois últimos fins de semana no Espaço Cultural Renato Russo, foram canceladas. Pelo contrário, desde a estreia, a atriz aproveitou o inconveniente a seu favor para usá-lo como artifício cênico. Ao dar vida ao drag king Little Big, que interpreta o personagem Jivola, um mafioso meio serial killer, a atriz usou o gesso como se fosse uma metralhadora.

Baseado em um texto de Bertolt Brecht dos anos 1940, o espetáculo do Grupo Liquidificador satiriza o Brasil moderno da mesma forma que o texto original parodiava a ascensão de Hitler ao poder, colocando personagens do universo gangster de Chicago em cena. Ao todo, o roteiro original tinha 29 personagens e, se fosse seguido à risca, a montagem teria quase três horas de duração. O Liquidificador queria muito encenar este texto, então realizou cortes drásticos, mas cirúrgicos.

“A gente nunca tinha feito uma adaptação, e surgiu esse desejo. Lemos vários textos, mas quando a gente leu esse, ‘bateu’ pra todo mundo”, explica a atriz Fernanda Alpino, fundadora da companhia. “É um texto muito político, que vai falar da ascensão desse gangster (Arturo Ui) ao poder, uma luta destes homens poderosos tentando trazer os valores de uma moral tradicional. O texto pareceu muito urgente, não só no Brasil como no mundo”, justifica a atriz.

Para trazer a peça para uma dinâmica atual, cortes se fizeram necessários. “A gente quis muito se apegar à história, e mantivemos a maioria das cenas, como elas são, só que reduzidas, com cortes e simplificações, porque queríamos trazê-la de uma maneira que pudesse ser compreendida com facilidade. Os detalhes estão lá, mas a história é muito complexa. A gente queria reduzir o tempo e trazer coisas nossas.”, explica a atriz.

Diante dos “cortes”, da “escassez de mão de obra” da companhia, cuja formação atual conta com quatro atrizes e um diretor, as atrizes tiveram que colocar sua versatilidade à prova e se desdobrar em muitas para interpretar os 17 personagens, a maioria masculinos, da versão final do texto. Deste modo, decidiram criar uma performance em duas camadas: as atrizes incorporam drag kings, uma versão masculina das drag queens, e esses drag kings é que interpretam os personagens da peça.

“O universo da peça é masculino. Essa violência, essa busca por poder, é absolutamente masculina. As coisas só acontecem dessa maneira porque são homens nesse universo masculino. Como seria essa história contada por essas quatro atrizes? De cara, trouxemos a questão do drag king. Não seria o caso fazer esses personagens ignorando que somos performers mulheres. Trouxemos os drags pra assumir que somos mulheres performando esse personagem masculino”, explica Fernanda Alpino.

Assim, Ana Quintas é Enzo Dmx, Larissa Souza é Walter Waleiro, Nininha Albuquerque é Little Big e Fernanda Alpino é Clint Esparradão, interpretando os personagens principais e secundários da peça, com o reforço do diretor Fernando de Carvalho, participação especial de Adriana Lodi e trilha sonora de Kino Lopes. “Ele trabalha com improvisação, uma cacofonia de sons que acompanham ou contrastam com as cenas. E como um quinto performer”, descreve Fernanda.

Adriana Lodi, por sua vez, salienta o caráter metalinguístico do trabalho ao dar vida a Mahonney. “É uma atriz fazendo um ator ensinando o Arturo a atuar. Ela entra em cena pra me dar uma aula de atuação, o que, de certa forma, acontece de verdade”, ressalta Fernanda. A reportagem do caderno Diversão & Arte convidou as quatro atrizes do espetáculo para falarem sobre seus respectivos drag kings, personagens, processo criativo e explicar o que é um drag king, afinal. Confira!

Atrizes na pele dos personagens



(foto: Nina Quintana/Divulgação)
(foto: Nina Quintana/Divulgação)
Atriz: Fernanda Alpino
Drag king: Clint Esparradão
Personagens: Arturo Ui e Cartel da Couve Flor
• De camisa xadrez vermelha e chapéu de cowboy, o drag king que dá vida ao personagem-título da peça é um grande fã de música sertaneja, assim como Fernanda Alpino. “O sertanejo é uma coisa que eu recentemente percebi que curtia, e tive várias revelações. O Clint Esparradão é do Rolê do country, do sertanejo; é de boa família, cristão. Ele é pegador, mas é come quieto”, conta Fernanda. “É um lugar de crítica a essa masculinidade tóxica que a gente vê não só no dia a dia, mas também na política”, considera. “Para mim, o drag king é único. Não é um personagem. Ele é meu, vem de mim, parte de questões minhas, fantasias estéticas minhas”.


(foto: Nina Quintana/Divulgação)
(foto: Nina Quintana/Divulgação)
Atriz: Ana Quintas
Drag king: Enzo DMX
Personagens: Ernesto Roma, Dogsborough, Ignatius Dullfeet e Cartel da Couve-flor.
• O nome de Enzo DMX oculta duas piadas internas que lançam luz sobre sua personalidade. “Ele é o mais moleque dos quatro, o mais sem noção, o mais zoeiro, com o Walter. Ele é funkeiro, tem uma família massa que o apoia. Aí, tem uma brincadeira com esse nome. É isso: a classe média alta anda chamando seus filhos de Enzo”, diverte-se Ana. O sobrenome é uma referência à segunda profissão da atriz, que é iluminadora. “É o cabo mais importante de um sistema de iluminação”.


(foto: Nina Quintana/Divulgação)
(foto: Nina Quintana/Divulgação)
Atriz: Larissa Souza
Drag king: Walter Waleiro
Personagens: Emanuele Giri, Dogsborough, Betty Dullfeet, Promotor O’Casey, Sheet, Mulher e Cartel da Couve-Flor.
• Superalegre, superenérgico, bastante preocupado com sustentabilidade, recursos naturais e consumo de carne e bastante emotivo. É assim que Larissa Souza descreve sua versão drag king. “O Walter tem características pertencentes a mim, mas também tem traços que eu não tenho mas que acho importante dar luz. Mas também é uma forma de expurgar situações de machismo pelas quais, eu, Larissa, já passou”, salienta.  Não é um personagem. São traços que a própria pessoa que está performando considera relevantes, mas surgem também como um código do que é compreendido universalmente como masculino, essa masculinidade tóxica”, conclui.


(foto: Nina Quintana/Divulgação)
(foto: Nina Quintana/Divulgação)
Atriz: Nininha Albuquerque
Drag king: Little Big
Personagens: Giuseppe Givola, Bowl, Dogsborough Filho e Cartel da Couve-Flor.
• Por trás da fachada de um homem negro latino-americano, meio carioca, meio galanteador, metrossexual e boêmio, oculta-se um assassino cruel e sádico. Para compor o alter ego Little Big, além dos exercícios de corpo e improvisação que originaram os demais drags, Nininha Albuquerque foi a campo. “Comecei a pesquisar nesses universos masculinos dentro do hip hop e do funk. Estive no Rio, então peguei muita coisa desse estilo”, relata Nininha, cujo drag faz o personagem Jivola.
 
 
 
*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco
 
 
 

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