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Correio Braziliense

Festividades do aniversário de 15 anos do Seu Estrelo começa nesta quinta

A programação segue até sábado com convidados


postado em 18/09/2019 07:00 / atualizado em 18/09/2019 12:00

(foto: Webert da Cruz/Divulgação)
(foto: Webert da Cruz/Divulgação)
Quando deu os primeiros passos para criar uma brincadeira com cara de cerrado, Tico Magalhães e os 14 integrantes do Seu Estrelo tinham na cabeça algumas coisas definidas. “A ideia, desde o começo, era essa coisa do descolonizar um pouco: a partir da gente a gente brinca, a partir da gente a gente se faz. Então, a gente tinha essa coisa de assumir nosso local, nossa comunidade, o cerrado. Era muito a proposta do grupo”, conta. Hoje, quando olha para trás, o brincante até acha que soava pretensioso, mas a ideia vingou e criou raiz no chão seco do cerrado para completar 15 anos com uma tradição (seu estrelo hoje é tema de vestibular), uma sede e até uma escola.

As festividades começam amanhã (19/9) com uma série de oficinas e culminam, no sábado, com festa cuja lista de convidados especiais inclui a participação da Família Salú, da Orquestra Alada Trovão da Mata e do grupo Guarda de Moçambique de Santa Efigênia. Amanhã, acompanhado de cinco irmãos e dois sobrinhos, Manoelzinho Salú também faz uma aula-espetáculo para contar como o pai, o mestre pernambucano Salustiano, ensinava as brincadeiras para os filhos e como tudo começou.

Tico Magalhães conta que, no início, quando o convidaram para participar da brincadeira havia uma expectativa de que ensinasse maracatu. “Quando me convidaram, eu estava voltando de Recife e era para fazer uma oficina de maracatu. E, desde o primeiro momento, falei ‘maracatu tá lá, a força dele tá lá’, e contei que a ideia era criar uma brincadeira pra cidade, juntar a invenção da cidade com a invenção da cultura popular”, lembra. “Para gente, é muito legal como a cidade também tomou conta da brincadeira, a gente fez pra ela mas, ao mesmo tempo, a cidade se apropriou da brincadeira.”

Assim nasceu o Mito do calango voador e as dezenas de outras histórias que foram dando cara e forma ao Seu Estrelo, uma entidade protetora do cerrado nascida de uma a paixão entre o rio e uma moça. A história veio acompanhada de outra invenção, o samba pisado, um ritmo inspirado nas brincadeiras nordestinas do cavalo-marinho, mas com cara de cerrado. “O samba surge quando me toquei da história, quando a gente começou a brincar com ela”, garante Magalhães. “As figuras eram novas, tudo era muito novo, senti que a brincadeira precisava ter um coração próprio. Não dava para ser o que já existia, precisava criar algo e veio a ideia de criar esse ritmo, o samba pisado.” O ritmo tem como base a pisada do cavalo-marinho, como os brincantes dançam, e junta instrumentos do afoxé, do maracatu virado e do maracatu rural.

As brincadeiras, hoje típicas do cerrado, formam a base da programação do Centro Tradicional de Invenção Cultural, criado há quatro anos para abrigar as atividades do grupo e também uma escola. No total, são 30 alunos de percussão e 30 de teatro, além do projeto Casa de Fita, voltado para o ensino do mito do calango do cerrado para as crianças. “A gente passa o samba pisado. E o legal, hoje, é que, desde o começo a galera vinha pra querer brincar com as figuras do Seu Estrelo”, conta Tico Magalhães.

Se a aula-espetáculo de Manoelzinho Salú e irmãos é destinada aos ensinamentos de mestre Salustiano, fundador do maracatu rural Piaba de ouro, a apresentação de sábado é uma homenagem, também, ao Seu Estrelo. Manoelzinho conta que o pai. morto em 2008, era amigo do pai de Tico e que o capitão, durante a infância e fase adulta frequentava a casa do mestre pernambucano para brincar e absorver a cultura popular. “Tico ia para aprender não só a cultura do baque solto e do cavalo-marinho, mas a vivência, a linguagem. Ele passava a noite lá bordando com a gente. E meu pai também tinha admiração grande pelo pai de Tico, eles se tornaram grandes amigos. Depois os meninos começam a criar as festas deles e a convidar a gente, e essa amizade dura até hoje”, lembra Manoelzinho.

Para ele, o fato de Seu Estrelo ter conseguido criar uma linguagem própria, com o samba pisado, o mito do calango e os personagens locais, é prova de que está perpetuando e fortalecendo uma cultura que dialoga com todo o Brasil. “Eles já têm uma história”, aponta o brincante. “É a luta da resistência. A cultura popular é uma coisa que não nasce na faculdade, mas no terreiro, com a resistência dos mestres. Mostra que a gente está vivo. A cultura popular sofre muito porque não é uma cultura de mídia, mas, por outro lado, a cada dia que passa a gente se fortalece.”

15 anos de Seu Estrelo
Amanhã (19/9), às 19h, aula-espetáculo para adultos com Manoelzinho Salú. Sexta, às 17h30, aula-espetáculo para crianças com Família Salú. Sábado, a partir das 19h, festa de 15 anos do grupo Seu Estrelo. No Centro Tradicional de Invenção Cultural (SCES 813 sul). Entrada: gratuita.

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