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Correio Braziliense

Livro esmiúça investigação que deu origem à série 'Inacreditável'

Dupla de jornalistas detalhou a investigação de crime estupro desacreditado pela polícia


postado em 19/09/2019 06:30 / atualizado em 19/09/2019 10:29

Ken Armstrong: desafio de pedir às pessoas que evocassem experiências dolorosas(foto: Steve Ringman/Divulgação)
Ken Armstrong: desafio de pedir às pessoas que evocassem experiências dolorosas (foto: Steve Ringman/Divulgação)

 
Ken Armstrong prestou atenção no caso de Marie, uma garota de 18 anos que foi estuprada perto de Washington, em 2011, quando uma reviravolta na investigação para prender um estuprador em série trouxe de volta o rosto da adolescente aos jornais. Dois anos antes, Marie havia sido acusada de mentir para a polícia sobre o estupro que teria sofrido dentro de casa. A menina foi pressionada a escrever uma declaração assumindo uma falsa acusação, e o caso foi encerrado. Do outro lado dos Estados Unidos, no Colorado, o repórter T. Christian Miller acompanhava as investigações de um caso de estupros em série que abalou o estado. Foram necessários apenas alguns meses para a polícia conectar os crimes de Washington com os do Colorado, mas, antes disso, Miller e Armstrong perceberam que trabalhavam na mesma reportagem e decidiram unir forças para um trabalho comum. 

Assim começaram a tomar forma as matérias publicadas, na época, nos sites Project Marshall e e ProPublica, que mais tarde se transformaram no livro Falsa acusação – Uma história verdadeira. Recém-publicada pela Leya, a reportagem inspirou Inacreditável, série que estreou na Netflix na última sexta-feira, um conjunto de oito episódios sobre as investigações para prender Marc O’Leary, estuprador em série cuja crueldade e métodos espantaram a polícia de dois estados. 

Miller e Armstrong já haviam ganhado o Pulitzer, em 2016, pela publicação da reportagem A inacreditável história de um estupro, que também foi tema de uma série de podcasts no site This american life, sob o título Anatomy of doubt. Na mesma época, os autores foram procurados por produtores de cinema e televisão interessados em roteirizar a história. Foi Marie quem escolheu transformá-la em minissérie e vender os direitos para a Netflix. “Foi uma decisão tomada, principalmente, por ela, que analisou qual a melhor opção. Uma das vantagens de deixar que a Netflix fizesse foi que a história não seria confinada em duas horas de filme. É uma história complicada, é uma narrativa dupla, uma metade se passa no estado de Washington, a outra no Colorado, e contar isso em oito partes permitiu dar conta da complexidade, muito mais do que daria em um filme”, garante o jornalista. Além de Marie, detinham os direitos da história o ProPublica, o Marshall Project e o site This american life.

O livro foca, principalmente, na história de Marie Addler, e na própria investigação. Criada em lares adotivos, egressa de uma família disfuncional e ela mesma vítima de abusos desde a infância, Marie não apresentou, durante o depoimento, o que os investigadores, todos homens, consideravam ser o comportamento de uma pessoa que foi estuprada. Os detalhes durante o relato do ocorrido à polícia, eles alegaram, não batiam e o passado instável da vítima contribuiu para uma prática muito comum nesse tipo de investigação: desacreditar quem sofreu a violência com base observações superficiais e discriminatórias. 
 
Inacreditável: série reconstitui o caso de um estupro desacreditado pela polícia(foto: Netflix/Divulgação)
Inacreditável: série reconstitui o caso de um estupro desacreditado pela polícia (foto: Netflix/Divulgação)
 

Dois capítulos foram dedicados ao perfil de O’Leary, sobre o qual Miller e Armstrong evitaram falar nas reportagens. “Foi uma decisão muito consciente”, explica Armstrong, que acumulou três horas de entrevista com o criminoso e teve acesso a uma gravação de quatro horas feita pelo FBI. “Nos episódios de This american life não queríamos dar voz ao criminoso porque seria uma distração e poderia, de alguma forma, desviar da mensagem principal da história. No livro, como tivemos mais oportunidade de contextualizar, sentimos que havia uma oportunidade de explorar um pouco mais o perfil dele”, diz o jornalista, que conversou com o Diversão&Arte, pelo telefone, sobre a confecção do livro e a investigação dos crimes.


Falsa acusação – uma história verdadeira
De T. Christian Miller e Ken Armstrong. Tradução: Daniela Belmiro. Leya, 334 páginas. R$ 49,90


Vítimas de uma cultura

O descrédito diante da vítima, a noção de que é preciso desconfiar das mulheres e os julgamentos que levam a resultados catastróficos também são tema de As bruxas – Intriga, traição e histeria em Salem, livro-reportagem de Stacy Schiff, outra vencedora do Pulitzer, publicado pela Editora Zahar. Na obra, a autora investiga as denúncias e o pânico coletivo que se instalou em Salem no século 17, quando várias mulheres acabaram na forca após serem acusadas de bruxaria. 

Focado em caso mais recente, mas, ainda assim, cercado de segredos e acobertado por uma cultura que combina poder e machismo, She said: breaking the sexual harassment story that helped ignite a movement, da Random House, é assinado pelas jornalistas Jodi Kantor and Megan Twohey, ambas vencedoras do Pulitzer e responsáveis pelas primeiras matérias que denunciaram o produtor Harvey Weinstein por assédio sexual. Publicada em outubro de 2017, a reportagem de Jodi e Megan trazia entrevistas com atrizes e ex-empregados de Weinstein sobre como uma rede ajudou a dissimular uma série de crimes de assédio e violência sexual cometidos pelo produtor mais rico e poderoso dos Estados Unidos. No livro, as autoras exploram os meandros dessa história e suas consequências. She said teve os direitos comprados pela Companhia das Letras e deve chegar ao Brasil no primeiro semestre de 2020.  


ENTREVISTA: KEN ARMSTRONG

Quando você ouviu falar na história de Marie pela primeira vez e quando se deu conta de que havia, aí, uma reportagem?
Eu moro em Seattle, Washington, que é perto de onde Marie foi atacada. E vi a história pela primeira vez nos jornais. Vi a história de que ela havia sido acusada por não dizer a verdade, e depois teve uma reviravolta porque ela estava dizendo a verdade. Li uma matéria sobre a prisão do estuprador e sobre a história de Marie. E achei que faltava, nessas histórias, a voz de Marie, suas considerações pessoais. E algo que contasse a investigação da polícia detalhadamente. Eu esperava que a Marie talvez quisesse compartilhar o que ela passou e que eu pudesse reconstituir a investigação policial para mostrar os erros que cometeram, como as dúvidas começaram, como isso se espalhou e como chegaram onde chegaram.

E qual foi o maior desafio em reconstituir essa história?
Acho que o maior desafio foi pedir para as pessoas falarem sobre uma das coisas mais dolorosas que já passaram. Eu pedi a Marie que me contasse sobre o ataque duas vezes, sobre ter sido sexualmente atacada e sobre terem duvidado dela. E pedi aos pais adotivos de Marie para falar sobre algo de que eles se arrependeram profundamente, que foi sobre as dúvidas que tiveram, e também sobre as dúvidas das pessoas. E tivemos que lidar com todas as emoções que emergiram disso. Falei com a polícia também. Muitas vezes, a polícia tem dificuldades em pedir desculpas pelos erros que comete e em falar sobre isso. Nesse caso, a polícia fez os dois, pediu desculpas e falou sobre o que aprendeu com os erros. Acho que a coisa mais difícil foi pedir às pessoas que falassem sobre algo muito doloroso. 

Como vocês selecionaram o que entrou no livro e o que ficou para a matéria? São muito diferentes os dois textos em termos de informação?
O livro nos deu oportunidade de avançar mais profundamente na história e de dar mais contexto. Uma das coisas que T. e eu realmente queríamos enfatizar é que o caso de Marie não é único. Mesmo que seja inimaginável, há outros casos assim em todo o país, em que uma mulher é atacada sexualmente e se duvida dela. E não apenas isso, ela é acusada de crime por mentir, mesmo que as evidências mostrem que ela está dizendo a verdade. No livro, queríamos falar de outros casos e queríamos entrar na história do sistema legal americano para mostrar como esses equívocos e preconceitos estão entranhados no sistema. Por anos, o sistema americano legal basicamente estabeleceu essa presunção de que é preciso duvidar das mulheres quando elas dizem que foram atacadas. Nós não temos um conjunto de instruções, somos instruídos a sermos céticos em relação a ataque sexual. O livro permite contar melhor a história e dar o contexto.

Isso está mudando?
É uma pergunta difícil. Acho que, em alguns departamentos, está melhorando. O de Lynwood, que atendeu ao caso de Marie, é um exemplo: os detetives recebem um treinamento melhor e uma prevenção para não acontecer novamente. Mas é difícil. Algumas agências estão melhor treinadas para atender aos casos de violência contra a mulher, mas algumas, infelizmente, não fizeram ainda as mudanças necessárias. Ainda podemos encontrar muitos equívocos sobre como se comporta uma pessoa com trauma, ainda há muitos policiais que acreditam que há apenas uma maneira de reagir quando você é atacado, e alguém que não reage dessa maneira perde credibilidade e se torna suspeito. 

No livro, há um capítulo dedicado a Marc O’Leary, o estuprador. Por que decidiram dar um capítulo a ele? 
Penso como o FBI, que achou fundamental entrevistá-lo para aprender o máximo com ele, porque ele oferece uma oportunidade de aprender, de sabermos como ele se organizou para escapar por tanto tempo, quais eram os passos que tomava para evitar ser identificado. O livro é uma oportunidade de mostrar como ele, basicamente, reconheceu as falhas no sistema e tirou vantagem disso. Quanto mais se entende isso, melhores são as escolhas para prevenir o próximo Marc O’Leary de escapar. Durante a entrevista com ele, foi nisso que focamos: como ele sabia como a polícia trabalhava e como sabia que, se cometesse um crime em uma jurisdição e outro em outra, teria menos chances de ser pego. 

Como foi sua participação na série da Netflix? 
Não participamos na escritura do roteiro, mas como consultores. Encontramos Susannah Grant e Michael Chabon, o produtor executivo, desde o início. O que fizemos, basicamente, foi mostrar a eles os registros públicos, explicar como coletamos as informações para que pudessem ter uma ampla compreensão de como aconteceu. E tentamos ter certeza de que as perguntas fossem respondidas, perguntas sobre criminologia, sobre a time-line. Mas não participamos do roteiro. Somos jornalistas, não roteiristas. E gostamos muito de ter essa linha divisória. Compreendemos que estávamos ali para dar qualquer informação que pudéssemos, para que eles pudessem fazer tudo da maneira mais real possível. 





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