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Correio Braziliense

Coletânea de artigos de Eça de Queiroz revela olhar crítico do escritor

'Ecos do mundo' reúne textos do escritor português sobre múltiplos temas internacionais


postado em 21/09/2019 06:10

Eça de Queiroz investiu contra imposturas, potentados e mitos nos artigos para imprensa(foto: Ateliê Editorial/Reprodução)
Eça de Queiroz investiu contra imposturas, potentados e mitos nos artigos para imprensa (foto: Ateliê Editorial/Reprodução)

Um dos maiores escritores da língua portuguesa do século 19 — só não foi o maior porque teve do outro lado do Atlântico um rival de idêntico quilate, Machado de Assis —, José Maria de Eça de Queiroz (1845-1900) foi também um formidável jornalista que, durante 34 dos seus 55 anos de vida, colaborou com inúmeras publicações de seu país e do Brasil.

A observação implacável dos fatos, calcada em informações idôneas; a construção de perfis de grandes homens públicos; o esquartejamento impiedoso das idiossincrasias de certas nacionalidades e a análise acurada das tendências políticas e comportamentais da sua época; tudo isso, temperado por uma ironia corrosiva e elegante, marcam os textos periodísticos do criador de grandes romances, como Os Maias e O primo Basílio.

No livro que agora está sendo lançado pela Carambaia, intitulado Ecos do mundo, podemos perceber claramente o quanto o trabalho diplomático de Eça contribuiu para que se tornasse o grande articulista que glosou, com fina inteligência e implacável deboche, os principais acontecimentos do último quartel do século 19 em diferentes lugares do mundo .

Organizado por Rodrigo Lacerda, o livro traz 40 artigos, que podemos dividir em quatro grandes blocos. No primeiro, temos crônicas que fazem referência ao Brasil ou a brasileiros. No segundo, aparecem composições sobre a Inglaterra, país no qual o diplomata morou por 14 anos. No terceiro, são tratados assuntos da França, onde atuou por 12 anos. Finalmente, na quarta parte, vêm alinhados 16 escritos sobre 13 nações.

Pena implacável


Ao final da leitura, a primeira pergunta que pode ocorrer ao leitor bem informado dos nossos dias é: como Eça de Queirós pode escrever o que escreveu sem perder o emprego no Ministério dos Negócios Estrangeiros?

Sim, porque é incontável o tanto de ferozes e certeiros golpes de tacape que ele lança contra civilizações, países, potentados e culturas. Mesmo quando ele elogia alguém, como é o caso do Czar Alexandre III, Eça não deixa de ser incisivamente crítico. “Ora, o Czar é um autocrata onipotente e de uma onipotência sem igual na história, pelo menos na história da Europa civilizada. Mesmo nas grandes civilizações asiáticas, os soberanos não dispõem de um poder tão incircunstrito”.

E comenta ainda: “A Rússia é, de fato, uma velha casa asiática com uma varanda rasgada sobre a Europa... Um pouco do ar da Europa penetra então pela varanda levando o rumor de nossas ideias, de nossas inovações morais. Mas é um ar que mal passa das grades. E quando as portas da varanda se fecham, só há dentro um Oriente antigo e muito estranho, que nós não podemos compreender.”

A primeira inclinação de alguém que escreve um artigo sobre Ecos do mundo é a de pedir ao editor do jornal a simples transcrição dos trechos mais surpreendentes, certeiros e divertidos. Ocorre, porém, que esses belos achados são tão numerosos que, no fim da conta, melhor seria reproduzir o livro todo, crônica a crônica.

Estudantes do Brasil


Comecemos, pois, com a resenha. Iniciemos pelo texto mais hilariante, que vem no bloco brasileiro. Seu título: “Aos estudantes do Brasil: sobre o caso que deles conta Mme. Sarah Bernhardt”.

Deus certamente poupou a divina Sarah do aprendizado do português. Se tivesse lido essa crônica no original, ela certamente teria bebido uma garrafa de formicida. Direto no gargalo.

A grande atriz concedeu uma entrevista ao Figaro, cujo título, segundo Eça, deveria ser: “História da minha missão e da minha influência civilizadora na América do Norte e do Sul”. Candidamente, Sarah relata que na sua passagem pelo Canadá “o meu trenó andava seguido e acompanhado por todos os senadores e deputados”. Eça deita e rola: “E bem podemos, pois, pensar que as duas câmaras eletivas seguiam Mme. Bernhardt funcionando, providas do seu presidente e dos secretários, e da tribuna, e do copo de água...”

Mme Sarah passa também pela Austrália, onde morre, no palco, nas muitas peças que interpreta. Registra o português: “De tal sorte que se ela não cessasse de morrer... a Austrália seria hoje uma província da França... onde o último inglês estaria comendo o último canguru à sombra do último eucalipto”.

Vamos, então, aos brasileiros. Relata dona Sarah que, na sua visita à terra dos tupinambás, “os estudantes arrancavam os sabres e distribuíam cutiladas, porque os não deixavam desengatar os cavalos, meter os ombros aos varais e puxar eles a minha carruagem”. Fecha o tempo. Chega um policial que quer evitar o ridículo pátrio. É ferido pelos estudantes. Eça encerra: “... depois de duras cutiladas naqueles que vos queriam salvar do humilhante serviço, desengataste as éguas de Sarah, lançaste aos ombros democráticos os tirantes de Sarah, e puxastes a caleche de Sarah, trotando, talvez relinchando!”.

Mirada sobre o Oriente


Já no terreno da seriedade, optamos por um longo artigo, de mais de 10 mil palavras, que trata da guerra travada entra Japão e China pelo domínio da Coréia, em que Eça analisa em profundidade essas duas culturas milenares. Ele traça retratos caricatos desses povos, mas também os elogia e antevê o progresso que os traria ao grupo das maiores economias do planeta.

Vejamos os chineses de Eça. Iniciemos com a caricatura: “Para o europeu, o chinês é ainda um ratão amarelo, de olhos oblíquos, de comprido rabicho, com unhas de três polegadas... que come vertiginosamente montanhas de arroz com dois pauzinhos e passa a vida fazendo vênias”.

Concluamos com o elogio que Eça faz, com base no relato de europeus que haviam ido implantar uma fábrica de armas na China e que voltaram de lá impressionados com as “lições de conduta, de ordem, de respeito filial, de profunda união doméstica, de inteligente economia, de trabalho metódico, de subordinação, de pureza, de zelo moral e de toda sorte de virtudes íntimas”.

Neste fecho, levando em conta a agudeza e a atualidade da grande maioria dessas análises, se pudéssemos dar uma sugestão, nós a daríamos aos professores que elaboram as provas do Itamarati. Que tal adotar Ecos do mundo como livro a ser debatido nos próximos exames?


Capa do livro 'Ecos do mundo'(foto: Editora Carambaia/Reprodução)
Capa do livro 'Ecos do mundo' (foto: Editora Carambaia/Reprodução)

Ecos do mundo Eça de Queirós
Editora Carambaia, 445 páginas.


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