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Correio Braziliense

Dois vencedores do Prêmio Marcantonio Vilaça tem obras expostas em Brasília

São as mostras 'Vaivém' e 'Em três tempos, viagem, memória e água' de Dalton Paula e Aline Motta


postado em 22/09/2019 06:03

Um dos principais prêmios de arte do país contempla, pela primeira vez, três artistas negros. Dois deles, Aline Motta e Dalton Paula, estão expostos em Brasília(foto: Paulo Rezende/museudaimagem)
Um dos principais prêmios de arte do país contempla, pela primeira vez, três artistas negros. Dois deles, Aline Motta e Dalton Paula, estão expostos em Brasília (foto: Paulo Rezende/museudaimagem)
Pela primeira vez, em sua sétima edição, o Prêmio Indústria Nacional Marcantonio Vilaça tem, entre os cinco vencedores — Aline Motta, Dalton Paula, Dora Longo Bahia, Ismael Monticelli e Rodrigo Bueno — três negros: Motta, Paula e Bueno. “A arte contemporânea está problematizando situações para fazer com que as pessoas pensem e busquem soluções. Mais importante que respostas é ter o interesse pela resposta. Discutimos o mundo, feminino, gênero, raça. Nunca no sentido da propaganda e sim de provocar questões”, pontua Marcus Lontra, curador-chefe da premiação.

Para o curador, o prêmio mostra que a arte contemporânea vai além do entendimento do belo. “Entendemos a arte como aspecto pedagógico. Ela funciona como ação de pesquisa de criatividade, de inovação, de provocação”, afirma. Os vencedores foram selecionados entre os mais de 600 inscritos e ganharam, cada um, uma bolsa de R$ 50 mil. Além disso, eles poderão contar com acompanhamento profissional de um curador de arte por um ano.

Entre os cinco premiados, dois estão com obras expostas na cidade. O brasiliense residente em Goiânia Dalton Paula é um dos destaques da mostra Vaivém, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Dividida em seis núcleos temáticos, a exposição desconstrói o senso comum sobre as redes de dormir. Nas pinturas apresentadas, Paula lança um olhar sobre as narrativas a respeito da negritude no Brasil desde a colonização. 

Da mesma forma que suas obras integram uma narrativa de desconstrução, a trajetória artística de Paula, com indicações, premiações e exposições nacionais e internacionais, comprova seu espaço como artista. “É recorrente no senso comum uma visão da arte negra como menor, rotulada numa categoria à margem. Além disso, é como se a todo momento dissessem que esses espaços de visibilidade e poder como exposições e prêmios não são para nós negros, que não devemos ocupar esses lugares. Mas seguimos no exercício cotidiano de construir outras imagens e narrativas, outros protagonismos e autorias”, comenta o artista. Além da visibilidade, ele comenta que usará o valor da bolsa para concretizar um antigo sonho: construir uma escola de artes. “Assim, esse prêmio se transformará em tijolo, areia, ferro e cimento para a construção da Escola de Artes Sertão Negro”, resume.

Raízes brasileiras


(foto: Aline Motta/Divulgação)
(foto: Aline Motta/Divulgação)
A carioca Aline Motta está na cidade com a exposição Em três tempos, viagem, memória e água, no Centro Cultural TCU. A partir de fotografias e vídeos, a artista reconstitui a própria história e a formação das famílias brasileiras. Em uma jornada inversa, Motta seguiu do Brasil para a África do Sul costurando documentos e relatos. “Espero que possa despertar nas pessoas uma vontade de saber um pouco mais sobre os seus antepassados, e que a pesquisa documental não é impossível de fazer, mesmo em famílias negras. Existe essa ideia de que a documentação sobre a escravidão foi queimada e que é impossível traçar uma árvore genealógica, o que absolutamente não é verdade. Não é fácil fazer essa pesquisa, inclusive do ponto de vista emocional, mas saber um pouco mais sobre suas origens pode ter um caráter extremamente curativo de uma série de questões e um entendimento maior sobre diversos problemas atuais no nosso país”, conta a carioca.

Questionada se o trabalho lhe torna visível e lhe representa, a artista responde que espera que mais artistas negros tenham, nas artes, uma carreira possível, principalmente, do ponto de vista financeiro. “E isso só pode acontecer a partir de lutas coletivas e um envolvimento de todas pessoas em uma postura decididamente antiracista com ações concretas, diárias e cotidianas, obviamente respaldadas por políticas públicas específicas para a população negra, que é a maioria neste país”, conclui.

Exposição Vaivém
No Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Visitação até 10 de novembro. De terça a domingo, das 9h às 21h.

Exposição Em três tempos, viagem, memória e água
No Centro Cultural TCU (St. de Clubes Esportivos Sul Trecho 3). Visitação até 5 de outubro. De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e sábado, das 14h às 18h.

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