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Correio Braziliense

Peça teatral sofre com ameaças e mensagens de ódio

Casos recentes despertam a preocupação com a intolerância e a censura de obras com temática LGBT


postado em 25/09/2019 07:00 / atualizado em 25/09/2019 11:27

Com direção e texto de André Garcia, a peça 'Manhã' percorre o Brasil há quase sete anos(foto: Milla Russi/Divulgação)
Com direção e texto de André Garcia, a peça 'Manhã' percorre o Brasil há quase sete anos (foto: Milla Russi/Divulgação)


“Eles insistem, mas vai ter peça”, assim o diretor do Grupo Domo de Teatro e Artes Integradas, André Garcia, tem se posicionado quase que diariamente nas redes sociais sobre o espetáculo Manhã. A peça estreia uma temporada em Brasília este fim de semana na Funarte e desde que a companhia anunciou o retorno para a capital, tem sofrido com ameaças e mensagens de ódio. 

Com direção e texto de Garcia, a peça começou a percorrer o Brasil há quase sete anos. O enredo foi construído a partir da relação entre dois homens, que se amam e procuram, em um momento de crise, compreender-se para construir um vínculo duradouro. Para o diretor, a relação é apenas um pano de fundo da trama. “Percebemos, na época da montagem, que estávamos carentes de material em que as pessoas pudessem se ver representadas. É um drama de amor, é sobre relações de amor e sobre dificuldades que qualquer casal enfrenta. Universalizamos os temas justamente para acalmar os ânimos e mostrar que todo  mundo está vivendo os mesmos dramas. É um espetáculo realista, mas positivo”, explica.

Manhã foi assistido por mais de 4 mil pessoas e coleciona indicações a prêmios bem como premiações, como o Prêmio Funarte Mirian Muniz em 2012. O espetáculo passou por capitais como Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belém e Florianópolis. O diretor recorda que, de vez em quando, acontecia de um espectador não gostar do tema. “Mas de forma discreta”, pontua Garcia.

Poucas vezes ele precisou apagar da página da companhia nas redes sociais comentários agressivos. “Voltando para a nossa casa,  Brasília,  e, para a nossa surpresa, começou uma avalanche de discursos de ódio. De hora em hora, tenho que entrar na página para apagar”, conta o diretor.

Além de comentários como “isso é cultura, ver boiola se esfregando um no outro, vemos todos os dias na rua”, “vai caçar o que fazer”, “que coisa ridícula”, “se depender de mim, vai passar fome”, o grupo recebeu ameaças em mensagens privadas. “Uma pessoa que se fez passar por espectador e quis saber onde estávamos ensaiando, até que desconfiei e ela reagiu”, relembra Garcia.
 
Outro usuário também compartilhou um vídeo da companhia acompanhado por ofensas e difamação. Diante da situação, o grupo registrou dois boletins de ocorrência. “Nos surpreende. Por um lado, a gente sente na pele uma situação de homofobia, mas, por outro lado, pela depredação da cultura e da ciência que vivenciamos, não é surpresa”, afirma Garcia. Apesar de trabalhar com uma publicidade voltada para o público local e LGBT, as postagens partem de usuários de Brasília e de outras cidades.

O episódio ocorrido com o Grupo Domo é mais um dentro de um capítulo que parece recorrente. Na semana passada, a companhia franco-brasileira Dos à Deux apresentou na Caixa Cultural Brasília a peça Aux Pieds de la Lettre, parte do projeto Dos à Deux em repertório, selecionado pela instituição no programa de ocupação dos espaços 2019/2020. De acordo com informações do grupo, até 3 de setembro, a previsão era de que o Teatro da Caixa recebesse dois espetáculos entre os sete que compunham o repertório da Cia: Aux Pieds de la Lettre, sobre a loucura, e Gritos, sobre figuras oprimidas e marginalizadas.
 
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%u201CHoje, o mais importante é a gente estar em cena, seja ele qual for o espetáculo. A gente está perdendo a empatia com o público", afirma um dos atores bailarinos da Cia. Dos a Deux, Artur Ribeiro (foto: RenatoMangolin/Divulgação)
 

Até o início do mês, a companhia enviou todo o material técnico dos espetáculos e, inclusive, contratou uma assessoria de imprensa para divulgação das apresentações. “Em 3 de setembro, a Caixa Cultural solicitou a sinopse do espetáculo Gritos, que foi enviada no mesmo dia. Posteriormente, foi solicitado um novo detalhamento do mesmo espetáculo, ainda mais completo. Ressalte-se que não foi solicitado qualquer tipo de informação adicional a respeito do espetáculo Aux Pieds de la Lettre. No dia 5, a instituição solicitou os links dos vídeos completos de ambos os espetáculos, também enviados no mesmo dia”, informa a produção da Dos à Deux. 

Após uma reunião entre os envolvidos, a companhia entendeu que a forma de realizar o projeto seria excluir a peça Gritos do programa e apresentar somente Aux Pieds de la Lettre, acompanhada de ações formativas.

Em conversa com o Correio, um dos atores-bailarinos da Dos à Deux, Artur Luanda Ribeiro, comentou o ocorrido e ressaltou a importância de seguir em cena. “Hoje, o mais importante é a gente estar em cena, seja ele qual for o espetáculo. A gente está perdendo a empatia com o público. Perdemos totalmente o olhar generoso, e a gente não pode deixar. Somos somente uma esponja, e a gente transforma essa esponja em arte. É uma visão do mundo, não é única visão, por isso somos muitos e ainda bem que somos muitos, porque cada um tem uma visão diferente e cada um tem uma coisa a dizer e cada um tem que ter essa possibilidade e esse poder de dizer”, disse.
 
Procurada, a Caixa Cultural afirmou que faz parte do protocolo de seleção do banco solicitar informações sobre todos os eventos patrocinados. Também reforçou o posicionamento em apoio à cultura “em todas as suas temáticas”. A instituição esclareceu ainda que “somente no edital de Ocupação 2019/2020, a Caixa selecionou mais de 150 projetos para apresentações nos sete espaços culturais da Caixa pelo país, com investindo de mais de R$ 17 milhões”.

Debate


Em função desses e de similares acontecimentos recentes, a Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados realizou o seminário Artigo 5º: Censura nunca mais!. “Detectamos vários exemplos de que o governo está instituindo a censura em diferentes áreas de políticas públicas, e isso ainda não estava sendo discutido de forma sistemática. Reunimos especialistas, artistas e agentes públicos para produzir conhecimento sobre essa nova situação, porque a preocupação era ter um repertório amplo sobre como as medidas de violação à liberdade de expressão têm sido formalizadas. É uma questão de defesa do Estado Democrático de Direito. Já não se trata mais de oposição ao governo”, comenta a deputada Áurea Carolina, uma das autoras da iniciativa.

Após a discussão, a deputada ressalta a relevância de que os fatos sejam denunciados, divulgados para a sociedade e as instituições provocadas. Além disso, foi sugerida a instalação de um grupo de trabalho ou observatório contra a censura na própria Câmara dos Deputados.
 
 
 
 

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