Diversão e Arte

Setenta anos, setenta filmes

Sílvio Tendler se destaca no cenário do cinema brasileiro com documentários que se tornaram clássicos da história do país

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 28/09/2019 04:13
Sílvio Tendler: força e competência para filmar personagens e histórias do Brasil


A imagem que guardo dele não se perdeu num tempo distante, está vivíssima em minha memória daqueles dias, ao apagar das luzes dos anos de 1960, aí entre 68 e 69, com a ditadura tirando a máscara e recrudescendo. Ele, ainda meio menino meio adolescente, já frequentando o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e, principalmente, a sua ativa e aliciante Cinemateca. Não como simples cinéfilo, como seria normal, mas já picado pela mosca do documentarismo.

Agitava-se pelos corredores às voltas com rolos de filmes, persistente e insistente até o limite do incômodo, enchendo o saco e a paciência dos assistentes de Cosme Alves Neto, o proverbial curador-diretor do órgão. Para eles, aquele rapazola lourinho e gordinho era um rematado pentelho, um chatinho a mais, diziam pelas costas dele. Cosme, entretanto, na sua perspicácia e clarividência, abençoava-o com seu apoio e proteção. Seu olho clínico e experiência anteviam naquela inquietude o projeto de um importante cineasta.

Foi ali que o encontrei pela primeira vez, mal desconfiando que nossos caminhos iriam fatalmente se cruzar inúmeras vezes nos momentos mais diversos da insana luta de nosso cinema. Por enquanto, ele fuçava os arquivos em busca precoce atrás dos vestígios em imagens de João Cândido ; o herói negro da chamada Revolta da Chibata, a mesma legendária figura que tanto empolgara Oswald de Andrade nos anos de 1930, quando lhe ocorrera relacioná-lo às imagens do Encouraçado Potemkin, sentindo no episódio dos nossos marinheiros rebelados a mesma força e expressão, podendo ser transformado em um filme também. Lembro que a gente conversou bastante e trocamos ideias, e eu, como estava no meio da viagem para concluir as filmagens de O país de São Saruê, até o convidei para ir conosco filmar na Paraíba, proposta que ele nunca esqueceu, referindo-se a ela sempre que nos encontramos.

Um corte no tempo e na memória e já me vem os eflúvios da década de 1970, e Sílvio Tendler - é dele que estou falando desde o primeiro parágrafo ; enfrenta sérias dificuldades por suas ligações com grupos de esquerda, um deles responsável por sequestro de um avião que foi parar em Cuba, em perigosa manobra. Embora não tivesse nenhuma participação no feito, foi, porém, objeto de investigações e correu sério risco de ser levado às enxovias e câmaras de tortura da repressão militar. Agentes foram bater à sua porta, gerando grande aflição à sua família e, especialmente, à sua mãe.

Abraços em Paris

Livrou-se por um triz dessa incursão dos homens do Dops, mas não pode evitar o imediato exílio, começando pelo Chile e indo, finalmente, parar com os costados na França. Sabia disso por ouvir falar, mas perdera totalmente o contato com ele, e aí aconteceu um desses lances que só podemos atribuir às artes e manhas de uma imponderável ;sincronicidade;: batia pernas por Paris, numa primeira viagem à França, e surpreendentemente, quando dei fé, estava sentado vis-à-vis com ele no metrô, e foi um não acabar mais de abraços e recordações. Confraternizamo-nos, efusivos e emocionados. Sumimos de novo na multidão.

Ele se entrosara com o pessoal de cinema e já assumira um posto importante como assistente de Chris Marker, uma das feras do documentário, na crista da Nouvelle Vague, mestre consagrado que o acolheu. Só voltaríamos a nos ver na sua volta ao Brasil anos depois. Vencera com brio e tenacidade esse capítulo importante de sua formação como cineasta e estava pronto para as batalhas do nosso cinema, já no período creio que da Embrafilme, engajando-se ele nas hostes das nossas associações e pleitos da classe.

Em pouco tempo e queimando etapas, quem não o conhecesse não identificaria naquele jovem um documentarista de insuspeitada força e competência, tal era a qualidade do seu primeiro filme de longa metragem, Os Anos JK, retrato fiel de um homem público exemplar e do seu tempo, Juscelino Kubitschek ; o inventor de Brasília e do desenvolvimentismo.

Campeão de bilheteria como também seria, ato contínuo, Jango, aclamado pela crítica e pelo público, um fenômeno que jogava para cima pela primeira vez o documentário brasileiro. Em plena ditadura aqui, alguém num estádio de futebol, penso que na Colômbia, levantou uma faixa no meio da torcida, ;Jango vem aí;. O estádio veio abaixo, espocando em aplausos, mas no Brasil a repercussão do gesto quase derruba o filme por causa da censura!

Por último, mas não por derradeiro, voltamos a nos encontrar com mais intensidade no período em que foi convocado por Cristovam Buarque, então governador do Distrito Federal, para ser seu Secretário de Cultura, e esse foi um dos inúmeros acertos do pernambucano à frente do executivo brasiliense. Nós do cinema só tínhamos o que festejar e não fazíamos falta no gabinete de Tendler, cheios de pleitos e exigências. Nesse transe, usando do seu já inegável prestígio junto à classe, Tendler realizou memorável edição do Festival de Brasília, que à época andava meio derrubado.

Mobilizou a todos com uma verdadeira festa para os olhos, com direito a um show de encerramento da mostra em que o cantor e compositor Sérgio Ricardo apresentou performance inesquecível, cantando as músicas de Deus e Diabo na Terra do Sol, em homenagem ao nosso cineasta maior, Glauber. Um show de bola!


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