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Correio Braziliense

Projeto combate desigualdade racial com doações de livros a negros

Tinder dos livros, idealizado por Winnie Bueno, contribui no fomento e acesso à educação e cultura


postado em 07/10/2019 08:21 / atualizado em 07/10/2019 08:21

Winnie Bueno utilizou o perfil no Twitter para criar projeto de doação de livros(foto: Arquivo pessoal)
Winnie Bueno utilizou o perfil no Twitter para criar projeto de doação de livros (foto: Arquivo pessoal)

Combater a desigualdade racial, conectar pessoas e ajudar no acesso à educação e cultura. O Tinder dos livros proporciona tudo isso para quem participa do projeto. Idealizado pela doutoranda em sociologia e bacharel em direito, Winnie Bueno, o trabalho surgiu em novembro de 2018. “Tudo veio a partir de uma indignação minha com pessoas que se diziam antirracistas no Twitter, e não faziam nada de prático. Uma das minhas sugestões foi para que doassem livros”, conta a criadora em entrevista ao Correio.

A ideia ganhou adeptos e muitas pessoas se prontificaram a doar, a própria pesquisadora recebeu livros que necessitava, e desde que iniciou o projeto já foram doados cerca de mil obras literárias. “Eu uso a visibilidade que tenho em meu perfil para conectar gente interessada em comprar um livro para uma pessoa negra e enviar para ela. A intenção é que sejam livros novos, porque é muito bom receber com aquele cheirinho de novo”, explica em seu perfil no Twitter.

O nome Tinder dos livros faz referência à rede social de relacionamentos, Tinder. Nela, pessoas se conectam para conversar e marcar encontros. Na plataforma de Winnie Bueno, as pessoas são conectadas para incentivar a leitura, seja comprando e doando, seja recebendo obras literárias.

Acesso

João Pedro, de 20 anos, estudante de relações internacionais na PUC-Rio, no Rio de Janeiro, usou o projeto para pedir o livro Instituições, mudança e desempenho econômico, de Douglass North, vencedor do Prêmio Nobel de Economia. De acordo com o jovem, a plataforma está sendo essencial para sua formação acadêmica, pois a obra que pediu tem preço alto e não conseguiria comprá-la. “É mais caro do que posso gastar em um livro. Ele provavelmente será uma das peças centrais da minha monografia. Ter acesso à literatura é o maior incentivo aos acadêmicos pretos, é uma oportunidade de melhorarmos nossos trabalhos e dar maior protagonismo para nossa comunidade”, diz o estudante que recebeu seu novo livro dia 1° de setembro.

Já Yaçanã Climaco, moradora de João Pessoa, de 22 anos, recebeu os livros Química inorgânica, de Peter Atkins, e Escola e democracia, de Dermeval Saviani. Para ela, o projeto é importante por apoiar também a presença de livros físicos. “Sempre tive dificuldade de ler no celular. Desde criança, sempre gostei de papéis, livros físicos. Na biblioteca da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), os livros que recebi são muito concorridos e difíceis de achar”, relata.

A idealizadora revela que a plataforma vai evoluir para uma automatização do trabalho. “Ainda não sabemos se será um aplicativo, mas em breve teremos um Check Boot, desenvolvido pelo próprio Twitter, que vai automatizar o Tinder dos livros”.

*Estagiário sob supervisão de Igor Silveira.

» Três perguntas / Winnie Bueno

Por que apenas negros podem receber?
Eu penso que o projeto é uma ferramenta que auxilia nos processos de construção de autonomia da comunidade negra. Eu considero a leitura um instrumento de emancipação e acho que possibilitar o acesso mais democrático aos livros contribuí muito para o combate ao racismo.

Como é o feedback das pessoas que recebem?
Na hashtag #Tinderdoslivros, no Twitter, tem muitos relatos. As pessoas ficam realmente felizes de receber os livros em casa e poder fortalecer seus processos de aquisição de conhecimento. Já doei livro para adolescentes cumprindo medida socioeducativa. Também já foram doados livros sobre autismo para mães com filhos autistas. São muitas histórias bonitas compartilhadas por meio dos livros.

Já recebeu algum tipo de reclamação por atender apenas a pessoas negras?
Toda hora, principalmente nos comentários. Mas essa é a menor das minhas preocupações. Eu realmente não me importo com esse tipo de reclamação porque ela é descabida. Utilizo meu tempo, visibilidade e Twitter em prol da negritude.

Como participar

Segundo Winnie, o Tinder dos livros é destinado apenas a negros, para tentar, de alguma forma, diminuir o racismo estrutural na sociedade. “Todo mundo pode participar doando. Apenas pessoas negras podem solicitar livros. É uma forma de tentar diminuir minimamente essas desigualdades que acontecem por causa do racismo”.

Para doar basta mandar mensagem direta no perfil do Twitter @winniebueno mostrando sua disponibilidade e esperar o contato da pesquisadora. Quando necessário ela enviará o nome do livro que um receptor deseja e os dados cadastrais dele. Caso possa comprá-lo, o doador envia para o endereço da pessoa que solicitou.

Para receber, é necessário ser negro. Além disso, é preciso mandar mensagem pedindo a obra literária no mesmo perfil do Twitter. Depois enviar os dados cadastrais como: nome e sobrenome, nome do livro, editora e endereço completo, com CEP. A pesquisadora então, busca um doador que possa comprar o livro e o enviará para a casa do receptor, de forma gratuita. Não há prazo de entrega, porque o envio depende da disponibilidade de algum doador. 

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