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Correio Braziliense

Exposição une as artes plásticas a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional

'Sinestesia - Cores e sons respondem um ao outro', de Stephanie de Paula, entra em cartaz nesta terça-feira no Cine Brasília


postado em 08/10/2019 08:59 / atualizado em 08/10/2019 08:59

A artista associa cores e sonoridades em obras que refletem momentos especiais e detalhes da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro(foto: Stephanie de Paula/Divulgação)
A artista associa cores e sonoridades em obras que refletem momentos especiais e detalhes da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (foto: Stephanie de Paula/Divulgação)

Desde pequena, Stephanie de Paula enxerga cores toda vez que ouve música. Adolescente, achava o fenômeno normal e universal, até descobrir a sinestesia, diagnosticada por um médico e hoje um dos instrumentos de trabalho da artista. Depois da descoberta, os concertos da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS), frequentados e adorados desde a infância, tomaram outra dimensão na vida da designer de moda de 26 anos. A admiração pela sinfônica resultou na exposição Sinestesia — Cores e sons respondem um ao outro, em cartaz no Cine Brasília.

No total, são 150 croquis feitos ao vivo durante os concertos e 14 pinturas em aquarela, além de lenços com estampas criadas a partir das apresentações. Stephanie tem um método de trabalho que dispensa fotografias e outras referências. É na sala, diante da orquestra, que tudo acontece. Munida de um bloco de papel de 250 páginas e de um lápis, ela desenha rapidamente, no escuro, momentos, músicos, instrumentos e detalhes do concerto. Eventualmente, no atelier, revisita os desenhos para criar as aquarelas, uma forma de atender à demanda de sua própria mente, que associa cores determinadas a cada som.

Todo o projeto foi pensado com a intenção de dar à orquestra o que a artista chama de uma “cara de casa”. Desde o fechamento do Teatro Nacional, há cinco anos, Stephanie observa um desânimo geral por parte dos músicos, que ficaram sem palco fixo e passaram por alguns teatros antes de serem instalados no Cine Brasília. “Sou muito encantada com a equipe e quis dar uma cara de casa para eles. Ali, no Cine Brasília, não tem nada que diga que tem uma orquestra, não tem uma cara de lar para orquestra. São 40 anos de música, eles já viajaram o mundo todo, o Bolshoi veio para dançar com eles. E quando você olha para eles, estão desanimados. Eu precisava fazer algo”, diz.

A ideia de Stephanie era, também, dar vazão à sua própria mente. “Minha sinestesia é cor com traços, então, quando eles estão tocando, a mão vai junto, é como se estivesse tocando”, conta. No início do projeto, ela fazia, em média, quatro desenhos por concerto. Hoje, depois do treino semanal, chega a 20 desenhos. “Minha ideia sempre foi passar a experiência do que estava sentindo.”
 
Stephanie de Paula:
Stephanie de Paula: "Os músicos afinam os instrumentos, mas nós também nos afinamos" (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
Para ela, música orquestral funciona como uma terapia, um tratamento. Stephanie conta que costuma se sentir revigorada ao final de cada concerto. “Você entra num processo de afinação, os músicos afinam os instrumentos, mas nós também nos afinamos”, garante. As obras da exposição estarão à venda, e 10% do valor de cada peça comprada será doado para OSTNCS.

Sinestesia é uma condição neurológica estudada na medicina e na psicologia e que consiste na transposição de sentidos e sensações. Cheiros podem evocar imagens, sons podem lembrar cores e vice-versa, em graus variados, dependendo das pessoas. É uma condição que, segundo o neurologista Oliver Sacks, autor de Alucinações musicais, ocorre em uma a cada 2 mil pessoas. No caso de Stephanie, funciona com cores e sons. “Vejo cores quando ouço música”, conta. “Sempre foi assim, desde pequena, e, para mim, todas as pessoas eram assim.”

Quando ouve, por exemplo, composições de Mozart, a artista enxerga tons ocre e dourado. O mesmo ocorre com Beethoven. Schumann e Chopin tendem para o marrom enquanto Debussy e Ravel, para o rosa e o turquesa. Naipes de madeira trazem vários tons de verde e os metais são azuis. Uma das experiências que mais emocionaram a artista foi o Concerto para tuba de Vaughan Williams. “Foi um som muito delicado, em vez de ver só azul, vi dourado, amarelo e tons de verde. E o solista estava superentregue”, lembra.

A condição sinestésica está traduzida nas pinturas, que Stephanie decidiu fazer, porque queria materializar as sensações de quando assistia a um concerto. “Como os desenhos são a lápis e não correspondiam à sinestesia, decidi fazer algo mais colorido. Fiz um diário de cores com associação entre elas e as músicas”, conta. Em casa, ela espalha os desenhos em cima da mesa, lê as anotações do diário e transforma a combinação num cenário. A artista não usa fotos e algumas pinturas são bem figurativas, outras evocam a atmosfera do concerto.


Sinestesia — Cores e sons respondem um ao outro
Exposição de Stephanie de Paula. Abertura nesta terça-feira (8/10), às 10h, no Cine Brasília (SHCS EQS 106/107). Visitação até o dia 31 de outubro.

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