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Correio Braziliense

CCBB recebe o espetáculo 'O pirotécnico Zacarias' até o fim de outubro

As apresentações são de quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h30


postado em 09/10/2019 07:00 / atualizado em 09/10/2019 09:02

Espetáculo do grupo Giramundo, O pirotécnico Zacarias, desembarca no CCBB com contos do escritor brasileiro Murilo Rubião(foto: Marcos Malafaia/Divulgação)
Espetáculo do grupo Giramundo, O pirotécnico Zacarias, desembarca no CCBB com contos do escritor brasileiro Murilo Rubião (foto: Marcos Malafaia/Divulgação)


O nome, O pirotécnico Zacarias, antecipa o que será visto no palco: uma pirotecnia multissensorial para deixar imperador chinês impressionado. O resultado advém da união entre a literatura fantástica do brasileiro Murilo Rubião e o trabalho em cena do grupo mineiro Giramundo com toda a expressividade do movimento corporal, o teatro de bonecos, o cinema, a dança, os objetos, a música e a animação.

A partir de amanhã até 27 de outubro, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) recebe o espetáculo, uma adaptação de cinco contos do escritor. São eles: O pirotécnico Zacarias, O ex-mágico da taberna minhota, Teleco, o coelhinho, O bloqueio, Os comensais. De acordo com o diretor-geral e responsável pela adaptação do roteiro, Marcos Malafaia, todos são interligados pela figura central do personagem Zacarias e a montagem é uma fábula sobre o homem contemporâneo, um herói muriliano que, mesmo sendo mágico, é incapaz de mudar a realidade, ou mesmo de compreender sua posição nela.

A ideia de trabalhar com a escrita de Rubião é antiga. “Ele frequentou a mente da juventude de Belo Horizonte, especialmente, nos anos 1980 e 1990”, comenta Malafaia. Também tem uma relação afetiva com o grupo, já que um dos criadores e diretor da companhia nas quatro primeiras décadas, Álvaro Apocalypse, trabalhou pessoalmente com o escritor como ilustrador. Por fim, resgatar os textos era uma forma de celebrar os 100 anos do nascimento de Rubião, completados em 2016.

“Rubião é um mistério. Ele é como uma supernova. Ele explode e desaparece sem deixar vestígio”, descreve Malafaia. Para o diretor, não é possível determinar como o fenômeno do escritor surgiu. O mineiro criou um gênero literário, o realismo fantástico, que floresceu na América Latina, mas que não chegou a ter continuidade no Brasil. “Foi um gênero de um homem só”, resume.

Além dos enigmas que cercam a vida e a obra do escritor, chamou a atenção da companhia teatral a índole mineira de Rubião. “Que acho que ele compartilha com outros artistas, como Drummond e o Farnese de Andrade, por exemplo. É um recato com audácia; um jeito introspectivo, mas generalizado; um olhar para dentro, mas que, ao mesmo tempo, tem o poder de falar de todos”, explica Malafaia.

As características e circunstâncias de Rubião encaixaram com um momento e um desejo do Giramundo. Diante dos fenômenos contemporâneos, como define o diretor, como as novas tecnologias, as projeções, a interatividade e a realidade virtual, o teatro de bonecos tradicional estava perdendo sua capacidade de surpreender o público. Quando surgiu, com a interface com os mágicos, com os malabaristas, as artes circenses, o teatro de bonecos era a recriação do homem, atingia mundos paralelos e animava e iludia os espectadores. “A gente queria espantar de novo, trazer essa sensação surreal, de sonho. E o Murilo Rubião encaixa nesse sentido e a literatura dele é sobre isso, é sobre a maravilha, o encantamento e a incompreensão de estar vivo e o que é a realidade. Encontramos a nossa vontade junto com o material denso dele”, afirma Malafaia.

Anos 2000

O universo do realismo mágico do escritor é o cenário perfeito para os desdobramentos almejados pelo Giramundo. Na montagem, a cena abre novos caminhos para a integração de outras linguagens. Criado em 1970 pelos artistas plásticos Álvaro Apocalypse, Tereza Veloso e Madu, o grupo sempre ocupou lugar de destaque no cenário do teatro de bonecos tradicional. “Dentro desse campo e das variações experimentais, o Álvaro esgotou o tema, só que o mundo mudou e a virada dos anos 2000 trouxe a força dos computadores, da animação e deixou tudo mais acessível”, comenta Malafaia.

Prestes a completar 50 anos de atuação, a companhia recorre a essas novas linguagens mantendo a índole experimental. Ao lado dos bonecos, a narrativa é contada por um núcleo multimídia, com telas sobrepostas, com cenas pré-gravadas, por objetos, por movimentos de dança e por bonecos atores. “De tal modo que curiosamente quando a gente vê a cena completa a gente não sabe muito bem o que é aquilo. É teatro, mas é cinema; é cinema, mas é animação; é animação, mas é dança”, define o diretor. Costurando os contos de Murilo Rubião, o Giramundo oferece, em O pirotécnico Zacarias, uma montagem repleta de elementos fantásticos e catalisadores de questionamentos e reflexões do homem contemporâneo.



O pirotécnico Zacarias
No Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil. De hoje até 27 de outubro. De quinta a sábado, às 20h; e domingo, às 19h30. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Vendas na bilheteria do CCBB e também no site www.eventim.com.br. Classificação indicativa: 16 anos.




Duas perguntas / Marcos Malafaia


Ano que vem o grupo completa 50 anos. Hoje, com essa incorporação de outras linguagens, como você vê o grupo?
O Giramundo vem se tornando um laboratório sobre as capacidades expressivas do movimento de um modo geral. Isso fez com que o grupo incorporasse a dança, a animação em suas diversas formas, a interpretação pelo movimento em um trabalho pré-gravado, o teatro de objetos, um boneco-ator. Esse boneco-ator, por exemplo, não deixa de ser um retorno a um aspecto muito primitivo do teatro de bonecos, do uso de máscaras, que é um fato que nos intriga muito. Rever os próprios princípios, de ampliação de limites, aberto ao contato interdisciplinar. Tivemos preparador físico, de máscara, trabalho de atores, de luz, dos bailarinos, coreográfico, mímica.


Como é elaborar esse novo cenário e como o público recebe as novas criações?
É um sinal dos tempos, onde os conceitos usuais dos limites dos campos artísticos estão deixando de fazer sentido. A música está fazendo muito isso, os shows, os vídeos. É uma espécie de vale tudo midiático, de usar todos os materiais disponíveis. E as pessoas estão perdendo o rigor de trabalhar em campos específicos. Os criadores estão se divertindo e o espectador quer isso, especialmente o espectador criança, a geração pós-2015. Esses meninos não têm limite de linguagem, são poliglotas sensoriais, por causa do conteúdo que são expostos. É um novo momento da arte, um momento de grande liberdade e abertura.
 
 
 
 
 



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