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Correio Braziliense

Peça 'Augusto jantar' referencia teatro do absurdo e fala do Brasil de hoje

Para montagem de 'Augusto jantar', diretor Alex Bernardo buscou referências no teatro do absurdo para falar sobre o Brasil contemporâneo


postado em 12/10/2019 06:10 / atualizado em 11/10/2019 20:13

Texto de Alcione Araújo escrito nos anos 1980 mantém atualidade(foto: Lucas Medias/Divulgação)
Texto de Alcione Araújo escrito nos anos 1980 mantém atualidade (foto: Lucas Medias/Divulgação)

À mesa do jantar, cabe todo tipo de pequenez. Do desprezo das elites por tudo que diz respeito ao social ao canibalismo. E no texto de Augusto jantar, escrito por Alcione Araújo nos 1980, o discurso pedante não foi amenizado nem poupado. Alex Bernardo fez algumas adaptações para a montagem que apresenta a partir deste sábado (12/10) no Teatro Oficina Perdiz, mas, mesmo assim, se impressiona com a atualidade da dramaturgia. À mesa do jantar, um casal de classe média alta decadente coloca em prática um discurso que encontra eco nessas primeiras décadas de século 21.

Dirigidos por Alex Bernardo, Fabiana Tenório e Fernando Bressan encenam o jantar no qual só presta o que é inglês. Ela é Augusta Maria e ele, Frederico Augusto. “Ela é o estopim de tudo, ela conduz a peça, faz o jantar, come batatas, mas só as inglesas, e o molho é inglês”, avisa o diretor. “Tem todo um discurso muito falado nesse momento sobre essas diferenças sociais. A peça é também sobre a não comunicação entre os casais e sobre preconceitos religiosos, sociais e étnicos.”

Quando se deparou com o texto de Alcione Araújo, Bernardo ficou impressionado com a atualidade. Fez algumas pequenas adaptações de linguagem para trazer para a contemporaneidade, mas manteve, basicamente, a mesma linha. Para o diretor e ator, os temas tratados ali continuam na pauta e surgem à mesa de qualquer almoço ou jantar das famílias brasileiras. “Essa foi a principal ideia de montar esse texto. Acredito que seja o melhor momento para discutir diversos assuntos como esse e, sobretudo, num espaço de teatro. Talvez nem o cinema faça isso de maneira tão concisa. O teatro abrange tanto… E é impossível ficar incólume a tudo isso”, avisa.

“Tudo isso”, para Bernardo, são questões trazidas pela instabilidade social, política e econômica pela qual o país tem passado. E pelas quais passa há décadas. Na fala dos protagonistas estão a discriminação de raça e gênero, o pensamento pequeno e individualista, a eterna síndrome do vira-lata da classe média brasileira, os preconceitos de classe e religioso. A reverência aos ingleses, Bernardo aponta, lembra bem a aproximação do governo atual com os Estados Unidos e o esforço do casal em manter a aparência, apesar da falta de decoro entre eles, é metáfora para verborragia de autoridades públicas nas redes sociais.

Diálogo


Patriotismo e guerra ao ambientalismo também aparecem nos diálogos que, ouvidos com um certo distanciamento, remetem a situações surreais. Não à toa, Bernardo lembra que Alcione Araújo é um dos autores do teatro do absurdo na dramaturgia brasileira. “Quando li o texto, percebi que havia uma não comunicação entre os dois, vi que falava da solidão entre os casais, daquele momento em que se está há tantos anos juntos que não há nenhuma novidade. Eu queria falar sobre isso também. E aí tem a possibilidade de trazer um assunto embutido que são os preconceitos”, explica o diretor, que cita o filme de Luís Buñuel, O discreto charme da burguesia, como uma das referências para a montagem.

No longa, o casal recebe convidados para um jantar de pouca conversa, muita superficialidade e uma boa dose de metáforas. Na peça, há apenas dois atores, mas eles dão conta do recado. E, sempre citada mas nunca presente, a empregada Eulália é espécie de bode expiatório para a frágil sustentação da fala dos patrões. Ausente, ela não serve o jantar e é acusada de arrumar “desculpas” como a péssima qualidade do transporte público para não chegar ao posto de trabalho no horário estabelecido. É como se patrões e empregados vivessem em planetas diferentes, já que, para o casal, tudo vai muito bem na seara dos transportes públicos e o fosso da desigualdade social, um mero detalhe irrelevante. Eulália acaba engolfada por uma antropofagia às avessas, incapaz de gerar algo produtivo, e é servida no jantar como uma ovelha em sacrifício. Para Bernardo, só o teatro do absurdo pode dar conta de tempos nos quais indígenas são acusados de criminosos e ambientalistas de queimar florestas, presidentes batem continência para países estrangeiros e políticos cristãos comemoram assassinatos.

Augusto jantar

Direção: Alex Bernardo. Com Fabiana Tenório e Fernando Bressan. Sábado e domingo, às 20h, no Teatro Oficina Perdiz (SHCGN 710). Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia).

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