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Correio Braziliense

Projeto do Clube do Violeiro Caipira ensina o instrumento para crianças

O núcleo é desenhado para jovens de 10 a 18 anos de regiões administrativas fora do centro do DF


postado em 13/10/2019 07:00 / atualizado em 12/10/2019 17:05

(foto: Luiz Fernandes/Divulgação)
(foto: Luiz Fernandes/Divulgação)
 
 
O Núcleo de Ensinamento de Viola encerra, neste mês, o primeiro semestre de atividades. O projeto é voltado para a educação musical de jovens e adultos. Durante seis meses, os estudantes têm todos os auxílios (empréstimo do instrumento, apostila e uniforme) oferecidos pelo núcleo. A iniciativa, entretanto, não tem perspectivas para continuar funcionando. Falta financiamento do Estado, mobilização das secretarias de Cultura e de Educação e incentivos da iniciativa privada.

Lançado em 2018 em grande evento com a participação da tradicional dupla Zé Mulato e Cassiano e da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, o Núcleo de Ensinamento da Viola chegou com a proposta de preservar a memória musical tradicional. O projeto partiu do Clube do Violeiro Caipira de Brasília e tem a importância e o valor histórico e artístico da viola e da música caipira brasileiras como os pilares inspiradores do núcleo de ensino.

O núcleo é desenhado para jovens de 10 a 18 anos de regiões administrativas fora do centro do DF, pensado para introduzir a importância da construção e identidade cultural aos alunos. Atualmente, o projeto atua em quatro regiões do DF: Ceilândia (Casa do Cantador), Planaltina (CEF Nossa Senhora de Fátima), CAUB (Escola Agrourbana Ipê e Candangolândia (Clube do Violeiro Caipira).

Aulas que transformam


O núcleo de ensinamento já transformou a vida de quase 80 jovens. Em três meses de aula, os alunos já se apresentaram em abertura de sessão solene do Senado Federal, que comemorava o Dia Nacional da Viola Caipira.

Pedro Vaz, violeiro, professor da Escola da Música de Brasília (EMB) e coordenador pedagógico do projeto, chama a atenção para os benefícios das aulas de música. “No projeto-piloto, nós conseguimos perceber a diferença que essas aulas fazem na vida dos jovens. Vimos a autoestima dos estudantes melhorar, a socialização, o desempenho escolar, o interesse nos estudos mesmo, sabe?”, diz. “Acho que o mais importante foi entender que eles têm potencial, e que é esse tipo de iniciativa que vai conseguir impulsioná-los ao máximo. Por isso a importância de apoiar esse tipo de projeto, por isso pedimos apoio, não só de parlamentares, do Estado e do governo, mas das pessoas mesmo.”

Em depoimento, os alunos falam da melhoria na atenção, na autoestima e na vontade crescente de aprender. “É muito bom conhecer o instrumento, conhecer a música. Eu estou muito feliz porque a gente está tocando viola! Meu pai sente orgulho de mim, e é muito bom ter essa recompensa”, garante Bruna Lorrane Rodrigues da Silva, 14 anos, estudante no projeto.

Para Pedro, a ideia de gerar pertencimento e vínculo cultural é o que mais estimula o trabalho no projeto. “A gente se emancipa enquanto grupo. Mostramos que ‘caipira’ não é só aquele estereótipo do homem de bota com palha no dente. É muito mais. É toda uma cultura, uma raiz cultural brasileira que é pouco observada e pouco colocada em evidência, e que tem tudo a ver com essas escolas mais afastadas que a gente escolhe”, diz o coordenador.

Sem perspectivas


Mesmo tendo impactado aproximadamente 80 jovens, o projeto corre o risco de não ter continuidade devido à falta de verbas para arcar com todos os custos. Volmi Batista, um dos responsáveis pelo núcleo, alerta para a responsabilidade das autoridades com a cultura: “é responsabilidade do Estado manter a cultura tradicional. Não adianta só dar apoio para a cultura contemporânea e achar que está tudo bem. É uma lógica totalmente absurda. A cultura tradicional, como a viola caipira, é importante para entender as raízes do nosso país.”

O núcleo só tem recursos para funcionar até novembro. Batista alega que, com a troca de gestão do Governo do Distrito Federal e a fragmentação da Secretaria de Cultura do DF, a iniciativa perdeu as parcerias que tinha. Atualmente, o projeto lida com a morosidade dos processos dos órgãos responsáveis para saber se receberá apoio ou não. A intenção é crescer. Essa primeira fase foi o projeto-piloto. A ideia era, a partir de agora, ampliar o número de escolas atendidas e a quantidade de alunos beneficiados e transformados pela iniciativa.

Clube do Violeiro de Brasília


• O Clube do Violeiro Caipira de Brasília tem história. Criado em 1992, a organização sem fins lucrativos foi concebida para a valorização, a manutenção e a divulgação da cultura caipira e das tradições populares do interior do país, como a Folia de Reis, a Festa do Divino, a catira, a curraleira e o lundu.

• O clube mantém no ar, há 23 anos, o programa Violas e Violeiros, transmitido na Rádio Cultura FM de Brasília. Em sua sede, na Candangolândia (QOF cj. C lt. 07 lj. 03), abriga uma biblioteca da cultura caipira e uma discoteca com mais de seis mil CDs e LPs, além da exposição de pôsteres, fotos e instrumentos.
 
 
* Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira 
 
 
 


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