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Correio Braziliense

Conheça três fotógrafas que registram a cena artística brasiliense

Joana nas galerias, Paula na música e Nityama na dança e no teatro


postado em 13/10/2019 07:00 / atualizado em 12/10/2019 17:36

(foto: Paula Carrubba/Divulgação)
(foto: Paula Carrubba/Divulgação)


Paula Carrubba veio para Brasília por acaso e acabou nas salas de espetáculos. Joana França visou a arquitetura e acertou a fotografia e Nityama Macrini viu no social um caminho para o encontro com a cultura. As três fotógrafas têm sido presença constante nos palcos e galerias da cidade e, nos últimos anos, foram responsáveis por uma boa parte do registro da produção cultural brasiliense.

Joana nas galerias, Paula na música e Nityama na dança e no teatro, cada uma a seu modo encontrou na documentação dos palcos um ofício e uma paixão que, combinados, são responsáveis por arquivo fundamental para a história da cultura em Brasília. São a nova geração que tem Mila Petrillo como referência. Mila é dona de um arquivo de 300 mil fotogramas nos quais estão registrados mais de três décadas da cultura brasiliense.
 
 

(foto: Agda Couto/Divulgação)
(foto: Agda Couto/Divulgação)

Técnica apurada


Mãe de cinco filhos e formada em contabilidade, Nityama Macrini, 47 anos, começou a trabalhar com fotografia e produção no Projeto Garatuja, dedicado à educação infantil. Por lá, registrava as atividades culturais e o dia a dia das crianças até começar a ser convidada para fazer frilas em festivais de teatro e dança. Desde 2014, já passou pelo Cena Contemporânea, Movimento Internacional de Dança (MID), Festival Frente Feminina, Dança em Trânsito, Solos férteis e Festival Primeiro Olhar.

Hoje, são mais de 100 espetáculos e milhares de cliques, embora Nityama tenha um método de trabalho bem específico: ela não faz, de jeito nenhum, “chuva de disparos”. Não gosta de disparar indiscriminadamente e tem como premissa ficar muito atenta para que cada clique não seja banal e resulte em uma boa imagem. “O dia a dia é uma escola: o ambiente é pequeno, a iluminação é baixa e, para fotografar o palco, é preciso um traquejo maior e equipamento específico. Sou voluntária no projeto social e a arte veio como um bálsamo”, conta a fotógrafa que, quando não está nos espetáculos, trabalha na área administrativa e financeira de um escritório de advocacia.

Nityama tem algumas estratégias quando está fotografando. A primeira delas é se tornar invisível para a plateia e para os artistas. Para isso, ela se veste sempre de preto. “Tecnicamente, o maior desafio é a questão da luz e da movimentação, porque o fotógrafo de cena tem que ser invisível, tem que ter sutileza. Se o espaço é pequeno, faço poucos cliques. Quando todos estão em silêncio, não faço, respiro, porque a primeira coisa que tenho que fazer é respeitar o público. Às vezes, você não vai levar a foto porque está respeitando o público. Teatro tem essa vertente”, conta. Mas não se trata de ser apenas observador.

Nityama está o tempo inteiro fazendo medições de luz e mantendo os sentidos ligados no espetáculo. “Nunca uso disparo contínuo. Digo que, de três disparos, aproveito um. Isso varia: se o espetáculo é ruim clico mais. Quando é bom, varia. Dança, clico muito mais. A média é de uma foto boa por espetáculo”, avisa. Além disso, é preciso contar uma história, estabelecer nas imagens uma narrativa. “Teatro é um momento mágico, uma interpretação, uma ilusão, e você tem que sair dali contando uma história e não fazendo apenas um registro”, ensina. “Com isso, às vezes, você revela coisas das quais nem o próprio ator estava consciente.”

Uma das queixas da fotógrafa é que o registro de cultura ainda é um meio muito masculino e, às vezes, os colegas têm dificuldade em lidar com a presença feminina. “A fotografia, a iluminação e a filmagem são ambientes, ainda, muito masculinos. A gente desestabiliza, eles não estão acostumados. Estamos começando a ganhar espaço. E, quando você é a única, às vezes se sente excluída. Não é nada claro, mas você é excluída de muitas coisas pelos colegas. Não pelos diretores. Acho que os próprios colegas estão se ambientando com esse novo olhar”, garante.

Fotógrafa Joana França(foto: Paula Froes/Divulgação)
Fotógrafa Joana França (foto: Paula Froes/Divulgação)

Olhar arquitetônico


Um dos momentos mais gratificantes para Joana França aconteceu durante o registro da exposição Corpos presentes — Still being, do britânico Antony Gormley, em outubro de 2012. Vencedor do Turner Prize, o mais importante das artes visuais na Europa, e um dos nomes mais badalados da produção contemporânea europeia, Gormley ficou irritado com o resultado das fotografias realizadas para divulgar sua exposição no Brasil.

Quando Joana foi contratada para fotografar Still being em Brasília, tratou de conversar com o artista sobre o descontentamento e descobriu algo bem simples de resolver. As esculturas de Gormley são moldadas com base em seu próprio corpo e os fotógrafos usaram lentes grandes angulares para realizar os registros, o que acabou por gerar imagens distorcidas das obras. Joana então se voltou para a mais básica das lentes — a de 50 mm — e as esculturas ganharam um aspecto mais real.

Outra experiência marcante foi o registro do processo de produção do chinês Ai Wei Wei, em Trancoso (Bahia), no ano passado. Joana passou alguns dias filmando e fotografando cenas como a criação de uma escultura de uma árvore de 30m em silicone no meio da mata e o suplício de tirar um molde em gesso do corpo do artista sob uma temperatura tropical quase insuportável. No Rio de Janeiro, fotografou a exposição já montada. No ano passado, esteve ainda na Serra da Capivara para registrar o Museu da Natureza. Em Brasília, o nome de Joana, 39 anos, aparece nos créditos de boa parte das exposições de artes visuais, seja nas galerias institucionais, como a do CCBB, seja nas particulares e independentes, como Referência e Galeria Casa.

A experiência com fotografia de arquitetura ajudou bastante na experiência em fotografar exposições. “Acho que o que deu certo é que sou fotógrafa de arquitetura e fotógrafo de arquitetura fotografa parede, né? Então, casa bem, acho que consigo reproduzir bem a forma como as coisas estão arranjadas no espaço, uso tripé e faço toda a técnica de foto de arquitetura, que é mais lenta”, conta Joana, que é formada em arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB) e adora fotografar as exposições em todos os momentos, vazias e com público.

(foto: Paula Carrubba/Divulgação)
(foto: Paula Carrubba/Divulgação)

Do reggae ao clássico


Paula Carrubba ganhou a primeira câmera aos 15 anos, mas desde muito pequena se lembra de recortar fotografias em revistas e guardá-las para, mais tarde, revisitar cada detalhe da imagem. Foi, portanto, natural quando se viu enfronhada na cena do reggae de Buenos Aires, lá pelo início do século 21, fotografando e registrando plateia e palco. Na época, Paula também tinha um programa de rádio consagrado ao gênero e começou a fazer capas de discos depois de um contrato com a Sony. Também foi dela a lente que acompanhou Mercedes Sosa durante os dois últimos anos de vida da cantora.

Para Brasília, ela veio em 2010, após se casar com um brasileiro. A relação terminou, mas a cidade continuou na vida de Paula. “Estruturalmente, foi bastante difícil, mas conheci muitas pessoas da cultura e me envolvi. O que me chamou mais me chamou a atenção é a quantidade de pessoas jovens muito capacitadas e fazendo coisas muito boas. E apaixonadas pela cidade, ativistas da cena cultural. Isso foi algo muito especial para mim”, repara a fotógrafa.

Os primeiros trabalhos em Brasília foram os registros de festas capitaneadas por DJs, como Makossa e Criolina, e de apresentações de música erudita. O universo musical acabou por se tornar uma especialidade para Paula, 36. “Eles confiaram muito em mim, em deixar fluir meu olhar. Comecei a construir meu olhar. Eu tinha uma cultura musical, então transformava isso numa coisa mais artística. E as pessoas começaram a reconhecer, a me chamar”, conta.

Quando está fotografando, Paula também gosta de mirar o público. Volta e meia, é possível vê-la captando um gesto ou uma expressão particular. “A diferença do evento, quem faz, é o público. No palco, é o artista sendo um artista, uma pessoa fazendo o que gosta, é um momento sagrado, que para mim sempre foi muito mágico. E eu gosto de ver quando a pessoa está presente, sendo atravessada por isso, sendo parte disso”, explica.
 
 
 
 


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