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Correio Braziliense

Festa celebra a riqueza e a multiplicidade da cultura afro-brasileira

Complexo Cultural Samambaia recebe evento que valoriza as cores, os códigos e a cultura afro-brasileira


postado em 15/10/2019 06:48 / atualizado em 15/10/2019 10:50

Festa celebra a riqueza da cultura afro-brasileira(foto: Alice Lira - Cinese Filmes/Divulgação)
Festa celebra a riqueza da cultura afro-brasileira (foto: Alice Lira - Cinese Filmes/Divulgação)

 

“Magia negra é ter o sentido exato de quem você é, de onde veio e aonde vai chegar sendo quem é. É reconhecer-se à revelia da ignorância alheia.” Em poesia, a atriz e produtora cultural Suene Karim traduz inquietações sociais e políticas no espetáculo Renascença. Em ações voltadas para a comunidade do Distrito Federal, ela desenvolve projetos, como o I Festival Magia Negra e, agora, o Magia Negra — A festa, para quebrar preconceitos, apresentar a multiplicidade da cultura africana e valorizar os artistas negros.

Realizado em abril deste ano, no Complexo Cultural Samambaia, o I Festival Magia Negra promoveu, durante três dias, uma intensa programação de linguagens culturais de origem afro-brasileira com grupos residentes em Brasília. Ao todo, um público médio de três mil pessoas aproveitaram oficinas, culinária, moda, rodas de conversa e espetáculos de dança, música e teatro.

“Era uma ideia que tinha há anos. Quis brincar com esse nome e apresentar para as pessoas a cultura, as brincadeiras, as cores e os códigos da cultura africana que a gente cultua em todos os lugares do mundo. É uma forma de romper preconceitos e ensinar a beleza e a importância da cultura afro. Também uma oportunidade de valorizar os artistas e criar espaços para que eles possam manifestar a sua arte. Ainda é algo que fica muito segregado. A arte genuinamente negra, muito embora influenciada pelo brasiliense, ainda é renegada ao terreiro, ao fundo de uma casa. Vi uma oportunidade de oferecer um espaço cultural”, explica Karim.

Das inquietações, nasceu o festival que se concretizou com o apoio e o financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do DF de 2017. Além das atividades com foco na cultura e no empreendedorismo afro, o evento proporcionou debates e encontros de outras minorias. “Falamos sobre o negro homossexual dentro da cultura e a estética feminina, questões sociais e políticas dentro da estética negra, a minoria dentro de outra minoria”, detalha.

Promover a atividade em Samambaia também foi algo proposital. Inaugurado recentemente, o local estava vazio e o festival foi o primeiro grande evento a ocupar o complexo.“Sou moradora daqui, então acompanho o crescimento da minha cidade. Nada mais digno do que promover algo aqui. Um mote político e social muito importante. Também é uma forma de, de fato, descentralizar a oferta cultural em Brasília. É preciso ocupar os espaços uma cultura que nos reflita, que fale a língua que eu falo”, analisa.

Desdobramentos


Por meio da arte e apostando em uma programação de políticas transversais, o festival fortaleceu o intercâmbio entre artistas, plateia e comunidade local. Contudo, com o enfraquecimento de editais de fomento, Karim precisou encontrar outras maneiras de dar continuidade ao projeto. “O II Festival ficou comprometido, assim como tantos outros trabalhos culturais importantes para a formação de um país educado e culto. Entendendo os desdobramentos e impactos positivos causados pela realização do I Festival, que prega a defesa às manifestações culturais de origem africana e pede espaço para suas práticas, tirando o preconceito de seus códigos, cores e fomentando a cultura ancestral, nasceu o Magia Negra — A Festa, conta.

A solução encontrada pela produtora e atriz foi transformar o projeto em uma estrutura menor, de realização mensal e com financiamento coletivo. A primeira festa ocorre em 25 de outubro. “Demos um passo atrás e agarramos a premissa da cultura popular, de empoderar o público do processo de realização de um evento, do seu evento”, acrescenta Karim. Com apresentação dos grupos Samba Rural do Recôncavo com Mestre Aroeira, Samba Pilado de Brabatão e DJ SA, a ideia é usar todo o retorno financeiro da bilheteria e do bar para custear a estrutura, as atrações e alimentar um caixa que financiará a realização do próximo festival, em 2020. “Importante que a festa tenha a pegada de financiamento coletivo da arte negra em Brasília”, pontua a produtora.

Dessa forma, assim como a identidade visual desenvolvida anuncia, o I Festival Magia Negra gera frutos para coexistir, resistir e ocupar Samambaia. “Estou bem surpresa. Além de artistas, várias empreendedoras negras, que trabalham em eventos, vieram me procurar se voluntariando, querendo expor na festa. Isso é muito legal. Estão entendendo a festa não só como comemoração e lazer, mas a retomada de uma cultura que resiste e ocupa. Um processo político e social que vai afetar a todos nós. Algo válido e necessário para a educação e a cultura do país”, afirma Karim.

Magia Negra — A festa

No Complexo Cultural Samambaia. Com Samba Rural do Recôncavo com Mestre Aroeira, Samba Pilado de Brabatão, DJ SA e Feira Alternativa Multiétnica. Sexta-feira, 25 de outubro, a partir das 19h30. Ingresso: R$ 5. Contato: 99293-6547 ou suenekarimproducoes@gmail.com / @suenekarimproducoes. 

 

 

 

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